GABRIELA MISTRAL – PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA (1945)

Sim, quem ganhou o primeiro Prêmio Nobel na América do Sul foi uma mulher chilena, escritora e poeta, educadora autodidata e que integrou o corpo diplomático do Chile, exercendo as funções de Consulesa. E reivindicava não só a educação das meninas da área rural, bem como a instalação de bibliotecas nos recantos mais longínquos. Pleiteava pela reforma agrária e melhores moradias para agricultores. Amava a natureza com suas árvores, flores e frutas, gabriela_mistralpássaros, montanhas e rios. E sobretudo amava o vento.

Embora sem fazer alarde, estava sempre ao lado dos trabalhadores, dos indígenas e dos meninos e meninas pobres, sem acesso à educação pública de qualidade. Nunca negou sua origem humilde e, por isso, sofreu muitas ofensas e hostilidades. Era uma feminista que buscava justiça social no início do Século XX. Se você caro (a) leitor(a) quiser saber mais sobre o Prêmio Nobel de Literatura, clique nos links indicados abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Nobel_de_Literatura

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gabriela_Mistral

Decidi escrever sobre Gabriela Mistral agora, em homenagem a todas nós, as mulheres e meninas de todo o planeta. Neste mês de março – não só no dia 8 em que se comemora o Dia Internacional da Mulher – celebramos as conquistas do movimento feminista em todo o mundo. E, ademais, no dia 21 de março celebra-se o Dia Mundial da Poesia, instituído pelo UNESCO. Então, na pessoa de Gabriela, farei esta singela homenagem à mulher e às poetas de todo o mundo, apresentando um pequeno resumo da vida dessa grande mulher latino-americana.

Mapa de ChileFoi, de fato, uma pensadora à frente de seu tempo. Nascida numa família pobre que vivia na região situada no Norte Chico do Chile – Vale de Elqui, Região de Coquimbo – nasceu na cidade de Vicuña, mas cresceu num povoado chamado La Unión. E passou sua infância sofrida numa aldeia com o nome de Monte Grande. Queria ser professora primária e foi uma das melhores delas. Seu nome civil era Lucila de Maria del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaba (1889-1957) e foi ela mesma quem criou o seu próprio pseudônimo literário: Gabriela Mistral.

Tinha a mãe Petronila  e uma meia-irmã de nome Emelina, onze anos mais velha, e fruto de outra união de sua mãe. Foi essa irmã quem a alfabetizou. O pai Jerônimo abandonou o lar quando Lucila tinha apenas três anos de idade. Depois de alfabetizada, sua mãe lhe recomendava fazer companhia para sua avó paterna, que vivia recolhida em seu quarto. Essa avó era muito católica e pedia para a neta que lesse a Bíblia para ela, diária e repetidamente.

Essa leitura diária na infância, fecundou seu cristianismo e sua paixão por livros. Tornou-se uma democrata social, mas não uma católica. Sofreu agressões graves na escola primária e, no ambiente doméstico, também foi vítima de violência sexual quando tinha apenas sete anos. Essas experiências violentas na infância ela nunca as esqueceu, e marcaram muito sua personalidade.

GabrielaMistralTornou-se uma mulher sensível, discreta e recatada. Era bem alta, robusta e tinha os olhos verdes. E fumava muito. E tinha talento extraordinário para escrever poesias. Ainda bem jovem, em 1914 foi laureada num concurso de poesias – Juegos Florales – por seus lindos versos em “Sonetos para a morte “. A poesia era sua escrita preferida, mas escreveu muita prosa também. Seus artigos foram publicados em jornais e revistas. Gostava de escrever cartas. E lia muito sempre, desde Dante, Tolstoi, Tagore e todos os clássicos.

Na juventude apaixonou-se algumas vezes por homens que não a compreenderam. Foram amores platônicos e frustrados. Nunca se casou. Mas tinha muitos amigos e amigas. Algumas amigas foram imprescindíveis e a ajudaram bastante como suas assistentes. Sempre lecionando, viajava dentro de seu próprio país de um canto a outro.

Um dia, já adulta, foi convidada pelo governo mexicano a dar sua contribuição na reforma do ensino primário do México. Ela aceitou e partiu para aquele país no ano de 1922. Depois disso, exerceu as funções de consulesa, viajou para o exterior e conheceu vários países, o Brasil inclusive. Viveu por seis longos anos na cidade de Petrópolis, no Moneda dura internetestado do Rio de Janeiro. Ali fez amizade com Stefan Zweig e sua esposa, ele escritor austríaco judeu.

Com bom humor atribuía a si mesma o adjetivo de “patiloca “, palavra que criou inspirada na expressão idiomática chilena (chilenismo) “pat’e perro “, que significa “pata de cão ” e quer dizer “viajante incansável “. Para nós brasileiros, seria como “ter rodinhas nos pés “.

Certa vez, recebeu uma visita inesperada. Um seu meio-irmão por parte de pai, cujo nome era  Carlos Miguel Godoy Vallejos, ficara viúvo com um filho pequeno, Juan Miguel (Yin Yin), nascido em Barcelona em 1º de abril de 1925. Procurou-a na Itália onde ela trabalhou por pouco tempo, no ano de 1932, e lhe entregou o menino-sobrinho porque partiria para a África. Ela o aceitou por adoção e o criou. Por ser antifascista, Gabriela logo teve de sair dali e foi transferida para Madrid.

gabriela-mistral-volodia-teitelboim-1400099617_200x200-PU43f32be9_1Sua vida foi marcada por acontecimentos trágicos. Na adolescência teve um namorado de nome Romelio Ureta. O amor não prosperou e se separaram. Algum tempo depois, ela tomou conhecimento de que ele suicidara-se. A causa fora dívida impagável. Décadas após, vivendo no Brasil (1940-1946) na companhia de seu sobrinho adorado, cujo apelido carinhoso era Yin Yin, exercendo as funções de consulesa,  foi comunicada do suicídio de dois amigos, o casal Stefan Zweig. Era o ano de 1942.

E, pior que tudo isso, no ano seguinte, em 1943, foi seu Yin Yin quem se suicidou aos dezoito anos. O sofrimento de Gabriela era imenso. Quase enlouqueceu. Nunca aceitou o suicídio de seu sobrinho. Acreditava que o mataram.

E foi ali na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, que Gabriela Mistral recebeu a notícia de que haviasky-viewing-platforms-above-hacienda-los-andes-300x225 sido laureada com o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1945. Finalmente teve uma grande alegria e recebeu uma honra por sua vida digna. Reconheceram nela o valor de sua palavra, de sua bravura. Suas lindas poesias a conduziram para o topo da montanhas, pertinho do céu. E era esse o seu lugar por direito. E o lugar que ela sempre amou, as montanhas da Cordilheira dos Andes.

No ano de 1946 parte para Los Angeles, nos EUA. Viajou ainda muitas vezes por outros países. Adoece gravemente, e tem diagnosticado um câncer de pâncreas. Falece no dia 10 de janeiro de 1957, no Hospital de Hempstead, Nova Iorque, aos sessenta e sete anos de idade.

Antologia2Dela foram publicados quatro livros de poesias: Desolação, Tala, Ternura e Lagar. Se você caro(a) leitor(a) desejar ler esses livros, terá de fazê-lo na língua espanhola, pois não há nenhum deles publicado na língua portuguesa. Incrível isto, não acha? Esse fato revela que nós brasileiros não conhecemos Gabriela Mistral. Sinto vergonha por isso. Mas, há uma ótima publicação da Real Academia Espanhola intitulada “Gabriela Mistral – en verso y prosa – ANTOLOGIA ” que é fácil de adquirir no Brasil.

Há, ainda, uma edição de uma antiga coleção  denominada “Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura”, pela Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, no ano de 1971, de um livro dedicado a Gabriela Mistral. Contém muitas canções e poemas dela, traduzidos por Henriqueta Lisboa. Esse livro é encontrado apenas em livrarias “sebos” (livros usados).

Há no You Tube um documentário televisivo muito interessante, intitulado “Desolacion – El show de los libros “, conduzido pelo escritor chileno Antonio Skámeta, em língua espanhola – sem legendas – e com duração de 40 minutos. Valerá a pena assisti-lo:

 

E se você caro(a) leitor(a) desejar saber mais sobre a vida de Mistral, lendo em português ou espanhol, recomendo buscar na internet. Para iniciar clique nos links abaixo e encontrará um excelente material:

http://www.elfikurten.com.br/2014/06/gabriela-mistral.html

atribuição do prémio Nobel de Literatura. Mi Gabriela Mistral

http://gabrielamistralfoundation.org/web/

http://www.dibam.cl/614/articles-6983_archivo_01.pdf

Gabriela Mistral foi contemporânea de nosso grande poeta Manuel Bandeira (1886-1968). Ele traduziu para o português dois sonetos dela:  O Pensador de Rodin e Primeiro Soneto da Morte. Constam de seu livro intitulado ” Poemas Traduzidos “, publicado pela Editora José Olympio, RJ, com última edição em 2007. Trago aqui para você ler, um desses sonetos esse “Primeiro Soneto para a morte “, que foi escrito por Mistral ainda bem jovem:

Do nicho lôbrego onde os homens te puseram
Te levarei à terra humilde e ensolarada.
Nela hei de adormecer – os homens não souberam –
E havemos de dormir sobre a mesma almofada.

Te deitarei na terra humilde, te envolvendo
No amor da mãe para o seu filho adormecido.
E a terra há de fazer-se um berço recebendo
Teu corpo de menino exausto e dolorido.

Poderei descansar; sabendo que descansas
No pó que levantei azulado e lunar
Em que presos serão os teus leves destroços.

Partirei a cantar minhas belas vinganças,
Pois nenhuma mulher me há de vir disputar
A este fundo recesso o teu punhado de ossos.

 

E, para finalizar, recomendo assistir pelo You Tube, a um outro bonito vídeo chileno mostrando a poesia “Todas íbamos a ser reinas “, com duração de cinco minutos. Bastará clicar no link indicado abaixo:

 

Viva as mulheres e meninas de todo o mundo!  

No próximo dia 7 de abril lembre-se de tomar uma taça de vinho chileno, e fazer um brinde à Gabriela Mistral, pois era esse o dia de seu aniversário.cheers

 

Inês do Amaral Buschel, em 23 de março de 2016

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