UMA GOTA DE ESPERANÇA JÁ É UM ALENTO

O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) ensinava que “Ter esperança é sonhar acordado“. Digo eu: que seria de nossas vidas sem uma gota de esperança? Penso que seria muito triste. Desde a infância eu sonho acordada. Sonhava com um vida melhor, sonhava em passar de ano na escola, sonhava em viver em paz e ter dinheiro suficiente para ir sempre ao cinema…e assim continuar sonhando…rsrs. Sim, porque o cinema sempre me ajudou a sonhar. Sonhei em completar 18 anos para poder assistir a filmes proibidos para menores. Caro (a) leitor(a), sabe qual o primeiro filme que vi aos 18 anos? Foi “Os Companheiros“, de Mário Monicelli.

Já escrevi um post sobre a esperança neste Blog:

https://blogdaines.wordpress.com/2014/09/01/a-esperanca-nao-e-uma-ilusao/

E assim fui vivendo, de sonho em sonho. Alguns realizei, outros não. Não sei o que teria sido de mim se não tivesse a capacidade de sonhar acordada. Quando jovem, sonhei com a derrubada da ditadura empresarial-militar que durou 21 anos no Brasil. Fazia parte da turma que gritava “Yanque go home“. Sonhei com a democracia social no Brasil e o máximo respeito aos direitos humanos.

Sonhei acordada em conquistar um emprego digno e com um bom salário. Sonhei em estudar e conquistar um lugar no ensino superior. Parece pouco, não é? Mas, venho de uma família sem recursos financeiros e, para nós, sobreviver com dignidade já era um sonho. Ademais, os grandes pensadores da Humanidade nos ensinam que nós somos nós e nossas circunstâncias (Ortega) e que nossa história está contida nas circunstancias encontradas, dadas e transmitidas pelo passado (Karl).

E foi assim que cheguei aos meus 72 anos de idade. Um pouco frágil fisicamente, mas sempre sonhando acordada com um mundo melhor, justo e solidário, com a recuperação de minha saúde – sofri com a asma desde pequena e hoje com o câncer – , sonhei também com o amor na minha vida, com amizades sinceras e com a alegria de estar junto às pessoas que amo. E, por que não dizer, sonhei e continuo sonhando acordada com o efetivo cumprimento das regras constitucionais contidas na Constituição Federal do Brasil de 1988. É pedir demais? Não acho. Ao contrário, acho que é o mínimo. Nós brasileiros precisamos, urgentemente,  de paz e justiça social.

Todavia, como muita gente, sinto angústia e aflição nos tempos atuais. Fico triste em assistir a tanta violência e perceber quanto ódio está espalhado entre nós, latinos-americanos. Há uma linda e sensível canção que foi lançada há 30 anos, de autoria do compositor-cantor inglês Sting, intitulada “Fragile”. Sempre me lembro dela. O autor nos chama a atenção para a fragilidade humana. Hoje podemos estar aqui firmes e fortes, mas amanhã quem saberá? Por que tanta raiva contra a existência do outro? Por que tanto racismo?

Vi, como talvez você caro(a) leitor(a) também pode ter visto, após o golpe de Estado na Bolívia, a prefeita de uma cidade boliviana ser publicamente humilhada, com muita violência e por muitos homens, seus compatriotas e adversários políticos. Ela chama-se Patricia Arce. Fico indignada e envergonhada ao mesmo tempo. Não me conformo com a extraordinária maldade humana, com seus excessos. O rosto amargurado dessa mulher ficou gravado em minha mente para sempre.

Essa cena chocante me fez lembrar a de um filme, do qual não consigo recordar o título. Acho que era “Lola“, de Fassbinder, mas não posso afirmar. Era a época do pós-segunda guerra. Numa cidade alemã, uma jovem mulher é publicamente humilhada por ter tido casos amorosos com oficiais nazistas. Um horror a hipocrisia e a maldade dessa gente. Aqui e acolá. Desde sempre. E os alvos preferenciais somos nós, as mulheres.

E, não consigo esquecer que aqui no Brasil, na última eleição presidencial em 2018, cinquenta e sete milhões e setecentos mil de eleitores, homens e mulheres, muitos com instrução superior e, em sua maioria cristãos (ãs), terminaram por eleger um homem que está levando o Brasil ao Inferno. Cometeram um ato de loucura. Milhões deles já se arrependeram. Todavia, e agora o que faremos para sair desse ambiente infernal? Alguma ideia caro(a) leitor(a)? Acho que gritar “ianque go home” ainda está valendo, não acha?

Atualmente estou lendo um livro sobre nosso mártir da Independência, Tiradentes, outro sonhador. Sonhou com libertar o Brasil da tirania do Reino de Portugal. O livro  intitula-se “O Tiradentes“, e foi escrito pelo jornalista-escritor mineiro Lucas Figueiredo. Lançado no ano de 2018, pela editora Cia. das Letras/SP. Tenho aprendido mais sobre a pessoa de José Joaquim da Silva Xavier e a vida dos outros componentes da Conjuração Mineira. Vale a leitura de suas quase 500 páginas!

Na minha juventude estive passeando sozinha no Chile, por duas vezes na vida. Fiz amigos ali. Fui muito bem recebida. Conheci um pouco da rica cultura e arte chilena. A cada terremoto por ali, meu coração treme aqui. Acompanhei a vitória de Allende e também sua morte cruel. Odiei Pinochet e sua ditadura violenta, corrupta e criminosa, bem como a imposição do neoliberalismo pelos seus “Chicago Boys“. O país ficou rico, com PIB alto, mas o povo empobreceu e vive na penúria. Toda gente, notadamente, os jovens e os idosos.

Felizmente, grande parte do povo chileno continua sonhando com um país mais justo e solidário. Revoltaram-se no último mês de outubro. A repressão violenta do  atual governo federal é horrenda. Quanto sofrimento impõe àquele povo! Torço por eles. Hão de vencer essa luta por mais justiça e menos desigualdade social. O neoliberalismo será vencido. E o atual mandatário ainda tem a cara de pau de vir à público e dizer que não tinha percebido a insatisfação do povo!

Nessa mesma toada seguem sofrendo os povos indígenas do Equador, que também se rebelaram há pouco tempo contra o atual governo neoliberal de lá. Houve conflitos de ruas e o governo federal atual propôs um acordo, e voltou atrás de algumas atitudes. Veremos como seguirá vivendo o povo equatoriano.

Por fim, quero dizer que eu também sonhei muito – e todos sabem disso – com o Lula Livre e, finalmente, no último dia 8 de novembro tive a emoção e alegria de vê-lo livre, saindo do cárcere caminhando tranquilo, indo ao emocionante encontro com os seus familiares, eleitores e admiradores! Continuo sonhando e lutando. O Supremo Tribunal Federal há de, finalmente, reconhecer a inocência do ex-Presidente da República Luis Inácio Lula da Silva, e a parcialidade criminosa do Juiz que o condenou.

Sobre minhas dores, caro(a) leitor(a), repito aqui as palavras da grande artista mexicana Frida Kahlo, que um dia escreveu: Tentei afogar minhas dores, mas elas aprenderam a nadar. E eu acrescento: continuarei tentando afogá-las!

A luta continua e a esperança de vencer os obstáculos é uma gota em meu combalido coração.

Finalizando este post, recomendo a você caro(a) leitor(a), a ouvir essa linda canção de Sting, em sua própria voz. Bastará clicar no link abaixo:

 

 

Inês do Amaral Buschel, em 14 de novembro de 2019

LULA É INOCENTE!