A INDESEJADA DAS GENTES

Nosso grande poeta Manuel Bandeira (1886-1968), lá pelos anos de 1952, escreveu um pequeno poema ao qual deu o nome de “Consoada “. Essa palavra da língua portuguesa, significa refeição leve, à noite. Nesse curto poema ele substitui a palavra morte pela expressão “indesejada das gentes“. Este o texto do poema:

 Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Nós, no Brasil, convivemos, diariamente, com a morte provocada por pessoas que desdenham da vida dos outros. O ódio viceja entre nós, infelizmente. Até o Estado, por intermédio de seus agentes públicos, mata seus cidadãos por simples conduta suspeita ou mesmo mero acaso.Vivemos em plena guerra de todos contra todos. As vítimas são crianças, jovens, homens, mulheres, os próprios soldados ou policiais. Para saber mais sobre o poder de morte por policiais, dê um clique no link abaixo:

https://facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br/2019/04/19/em-2018-letalidade-policial-custou-ao-menos-r-456-bilhoes-ao-pais-e-matou-62-vezes-mais-do-que-nos-eua/

Neste mês de abril, no dia 07, no bairro de Guadalupe, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, soldados do Exército Brasileiro fuzilaram um carro de passeio com pessoas dentro dele, disparando oitenta e três tiros. O motorista, um músico de nome Evaldo Rosa dos Santos, faleceu na hora. Um catador de objetos para reciclagem que por ali passava, de nome Luciano Macedo, tentou ajudar e foi alvo dos tiros, vindo a morrer dez dias após os ferimentos. Os nove soldados foram presos, mas não sabemos até hoje o nome do oficial do Exército que autorizou o fuzilamento.

E o Presidente da República sequer lamentou os fatos ou solidarizou-se com as famílias das vítimas. E, para piorar, vem à público dizer que o Exercito não matou ninguém!!!

Minha total solidariedade aos familiares desses mortos. Oxalá suas mortes não tenham sido em vão. Precisamos ficar de olho nas investigações desses dois bárbaros homicídios, para que nunca mais aconteça. Seus autores terão de ser punidos, seja por crime culposo ou doloso. Será que atiraram porque as pessoas que estavam dentro do carro eram pobres e negras? Muita coisa a verificar. Nosso racismo é estrutural.

E, assim seguimos vivendo entre tiroteios, seja na zona urbana ou rural do território nacional. No entretanto, nós os brasileiros, mesmo convivendo em meio a tanta violência, morremos de medo de pensar na nossa própria morte, e evitamos até mesmo pronunciar essa palavra. A gente não morre, nasce para outra vida é o que dizem por aí. Mas, para mim isso não é consolo. Se existe reencarnação, paraíso, céu ou inferno, antes de chegarmos lá nós precisaremos viver nosso último ato que é enfrentar a morte. Não sairemos vivos desta vida. Deveríamos aprender a aceitar nossa morte, com  a sabedoria da cultura popular de nossos irmãos mexicanos.

Aliás, caro(a) leitor(a), recomendo a você – caso já não tenha assistido – que assista ao filme animação da Disney-Pixar ” Coco“. No Brasil ele recebeu o título de “Viva – A vida é uma festa”. Trata-se de um filme bastante premiado e cuja narrativa baseia-se no Dia dos Mortos, festejado pelo povo mexicano. Este é o trailer:

 

 

Já há alguns anos venho encarando a indesejada das gentes. Até mesmo já escrevi um post sobre isso neste blog. Se você(a) caro(a) leitor desejar lê-lo, dê um clique no link abaixo:

https://blogdaines.wordpress.com/2014/08/19/encarando-a-propria-finitude/

Eu não penso na morte por morbidez. É que convivo mais de perto com ela de uns anos para cá. Não é minha amiga, muito menos conselheira! Não gosto dela. Como nas palavras de um outro poeta-compositor nosso, o Gonzaguinha (1945-1991), em sua linda canção “O que é o que é ” : […] ninguém quer a morte, só saúde e sorte. […]. Eu também a quero bem longe de mim.

Nesse post acima referido, digo que sou favorável à eutanásia. Todavia, sendo realista e vivendo num país tão religioso – embora o Estado seja laico – decidi ler um pouco mais sobre os Cuidados Paliativos, pois a eutanásia não deixará de ser considerada crime tão cedo. E eu não quero prorrogar minha morte com aparelhos, sendo “entubada” como se diz por aí. Quero morrer naturalmente, em paz e sem dor. Se eu não morrer de infarto fulminante, vítima de alguma epidemia ou acidente de trânsito ou de violência urbana, certamente tenho muitas possibilidades de vir a morrer em conseqüencia do câncer que me ameaça há treze anos.

Conforme definição da Organização Mundial de Saúde – OMS, os cuidados paliativos se definem como: “Cuidado Paliativo é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. Requer a identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual ”. Para maiores informações sobre esse assunto, leia este manual que está à disposição de todos:

 http://formsus.datasus.gov.br/novoimgarq/24326/4052575_345331.pdf

No ano de 2005, frequentei um  curso de Aperfeiçoamento intitulado “Gerontologia Social “, com carga de 120 horas, no Instituto Sedes Sapientiae, na cidade de São Paulo. Nesse curso tive algumas noções sobre esse tema e sugestões de leitura. Porém, logo após terminá-lo, fiquei seriamente doente e perdi o interesse em ler tais livros. Todavia, considerando que, felizmente, minha vida seguiu em frente, entre uma leitura e outra, fui escolhendo um desses livros e assim, aos poucos, li quatro deles. Valeu-me muito. Aprendi que a morte não é, necessariamente, um momento pavoroso. É nosso ato final. Depois sairemos de cena. São livros acessíveis a todos. Irei a seguir, caro(a) leitor(a) mencionar tais livros:

1) ” SOBRE A MORTE E O MORRER ” (On Death and Dying), de autoria de Elisabeth Kübler-Ross ( 1926-2004) médica-psiquiatra suiça, radicada nos EUA. Foi publicado no ano de 1969. No Brasil, traduzido, teve sua 1ª edição em 1981. A última edição é datada de 2012, pela Editora Martins Fontes-SP. É um clássico e pioneiro no assunto;

2) ” A MORTE ÍNTIMA – Aqueles que vão morrer nos ensinam a viver ” (La Mort intime), de autoria de Marie de Hennezel (1946-), psicóloga francesa. Foi publicado em 1995. No Brasil, traduzido por Olga de Sá, foi publicado em 2004, pela editora Ideias e Letras-SP. A autora foi amiga do Presidente da República francesa, François Mitterrand, e cuidou dele no final de sua vida;

3) “ANTES DE PARTIR – Os 5 principais arrependimentos que as pessoas tem antes de morrer ” (The top five regrets of the dying), de autoria de Bronnie Ware (1967-) , uma cuidadora de doentes em fase terminal, australiana. A 1ª edição de seu livro é do ano de 2011. No Brasil, traduzido por Chico Lopes, a 1ª edição é do ano de 2012 e a 2ª edição é de 2017, pela Geração Editorial-SP.

Obs: Este livro faz muito sucesso pelo mundo e, a Bronnie, merece aplausos mesmo. É uma pessoa generosa e corajosa. No livro, uma espécie de diário, ela vai contando sobre sua própria vida aventureira, misturada com a dos seus clientes. Ela foi compositora-cantora e chegou a gravar dois CDs. Este é o site dela: https://bronnieware.com/     

4) “A MORTE É UM DIA QUE VALE A PENA VIVER“, de autoria de Ana Cláudia Q. Arantes, médica-geriatra brasileira, paulista. A 1ª edição é datada de 2016 pela Editora Casa da Palavra-RJ. E  a 2ª edição acaba de ser lançada em 2019, pela Editora Sextante-RJ;

Obs: este livro é muito importante para nós brasileiros. A autora relata como a medicina brasileira se coloca frente à morte do paciente. Ela já gravou inúmeros vídeos-palestras que estão à disposição de todos na plataforma You Tube. E ela também mantém um site:

https://www.humanavida.com.br/dra-ana-claudia-quintana-arantes/

Ufa!! Cheguei ao final! Para amenizar a leitura e alegrar a você, caro(a) leitor(a), recomendo ouvir a linda música do nosso saudoso Gonzaguinha que mencionei neste post, gravada no ano de 1976:

Inês do Amaral Büschel, 20 de abril de 2019

 LIBERTEM O LULA! LULA É INOCENTE! LULA LIVRE!

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