RESPIRANDO FUNDO E TECENDO A VIDA

Respire fundo, prenda a respiração e solte. Respire fundo, prenda a respiração e expire devagar. É esse o mantra que venho ouvindo há anos, sempre que faço exames de imagens no hospital A.C. Camargo, aqui na cidade de São Paulo, onde nasci e vivo.

Felizmente, lá no início dos anos 70, quando eu tinha uns 20 e poucos anos de idade, aprendi com o mestre Shimada, a respirar correta e tranquilamente. Sofria de asma desde a infância e sempre tive dificuldade com a respiração e a expiração. A prática de hatha-yoga com aquele mestre, ajudou-me demais. Desde então, presto muita atenção ao ritmo de minha respiração. Sempre.

No final deste último mês de janeiro de 2019, mais uma vez em minha vida, fui surpreendida pelo resultado de um exame PET Scan. Novo nódulo metastático surgira, agora no osso ilíaco no lado esquerdo. Sentia dor no local já há algum tempo, mas pensava que fosse alguma inflamação no nervo ciático. Qual o quê! Naquele momento tive que respirar profundamente, expirar devagar e prosseguir, caminhando. Sempre caminhando. Prá frente é que se anda!

O médico oncologista suspendeu, imediatamente, o tratamento quimioterápico com Dacarbazina. Prescreveu retorno à imunoterapia, desta vez com aplicação de dois medicamentos, concomitantemente, a cada vinte e hum dias. Nivolumabe (Opdivo) e Ipilimumabe (Yervoy) são caríssimos. O meu plano de saúde titubeou. Eu pedi clemência.

https://www.oncologiabrasil.com.br/anvisa-aprova-combinacao-de-nivolumabe-e-ipilimumabe-para-indicacao-de-1a-linha-de-melanoma-metastatico/

Ficaram de estudar meu caso de novo. Enfim, após alguns dias de suspense, autorizaram o tratamento. Respirei profundamente e expirei devagar. Lá fui eu de novo…recomeçando a luta. Fiz a primeira aplicação no dia 12 de fevereiro p.passado. Estou, também, fazendo dez sessões de radioterapia no local da dor, para curá-la. Já fiz cinco sessões e a dor praticamente sumiu! Saravá!

É preciso dizer que, fora a fadiga que sinto, muita coceira no corpo, secura na boca e problemas intestinais, vou vivendo relativamente em paz. Toco meu cotidiano. Um dia de cada vez, literalmente. Nesse ínterim, tive o privilégio de conhecer, pessoalmente, a médica-geriatra, Dra. Ana Cláudia Q. Arantes. Ela trabalha e dedica-se à especialidade médica denominada Cuidados Paliativos. Escreveu um ótimo livro intitulado ” A morte é um dia que vale a pena viver“, cuja 2ª edição acaba de ser lançada pela Editora Sextante. Já o li e recomendo sua leitura.

Tudo ia mais ou menos bem, até que, na madrugada do dia 27 p.passado, o telefone tocou às 04:15 da manhã e acordei assustada, como qualquer pessoa se sentiria. Do outro lado da linha, alguém me disse bom dia e em seguida se identificou. Era da casa de repouso onde minha mãe Cecília, morava há cerca de seis anos. Ela sofria da doença de Alzheimer, diagnosticada desde o ano de 2006. Com calma a pessoa que me ligara disse-me: sua mãe acaba de falecer. Óh céus! Óh vida! Respirei fundo, agradeci o aviso e tocava-me a missão de avisar meus irmãos. Foi o que fiz.

Minha mãe já completara 98 anos de idade, em 05 de outubro de 2018. Ficara viúva aos 48 anos. Teve cinco filhos e criou-nos com muito sacrifício, praticamente sozinha, com a ajuda de seus irmãos (ãs). No ano de 2010, para que meus familiares se lembrassem de nossa história, eu publiquei neste blog um post no qual contei bastante sobre ela:

https://blogdaines.wordpress.com/2010/06/26/ancestrais-i-2/

Assim é a vida. Um dia, com toda a certeza, morreremos. Por isso, temos de viver intensamente, amando nossos próximos. Minha mãe, apesar do sofrimento, sempre gostou muito de viver. Amava a música popular brasileira, cantava muito, dançava e também praticava ginástica.

Frequentou, por anos, o clube da terceira idade municipal perto do bairro em que morava. Foi uma pessoa feliz. Ficamos muito tristes. Choramos com sua partida. Todavia, nós, seus filhos e netos, já vivíamos um luto desde que ela deixou de saber quem ela era e de não nos reconhecer mais. Foi uma dor inconsolável que tivemos de aceitar. Paciência. Tocando em frente. A vida não é justa mesmo.

Neste momento. estou aguardando o resultado de um exame de sangue especial, que fiz justo no dia da morte de minha mãe. Dependendo desse resultado, farei a segunda aplicação de imunoterapia em plena terça-feira de Carnaval, dia 5. Oxalá dê certo. Respirando fundo, caminhando e meditando.

Até que ontem, dia 1º de março, vi pela internet  a triste notícia de que o neto do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um menino de apenas 7 aninhos, o Arthur, filho de Sandro e Marlene, falecera pouco após o meio-dia. A morte foi causada por meningite meningocócica. Chorei. Chorei bastante. Como  sempre choro ao saber da morte de alguma criança. Seja por doença ou violência.

Mas, chorei também, porque gosto muito de Lula. Tenho-o como um irmão-camarada. Conheço-o desde 1978, quando trabalhava como advogada-empregada da empresa Ford do Brasil, e ele era Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Admiro-o e indigno-me com a injustiça e a ingratidão que ele vem sofrendo. Os integrantes do ” Partido de Justiça ” (membros do MPF, Juiz Federal de Curitiba e trio de Desembargadores do TRF-4ª Região) com a preciosa colaboração de Rede Globo de TV, construíram uma trama ardilosa para acusá-lo de corrupto. E tiveram êxito na empreitada. Um horror! Tudo sem prova alguma.  E, agora, mais essa dor!! É demais!

Sou avó de dois netos e tia-avó de outros dois guris. Amo-os muito. Posso avaliar a dor que o Lula está sentindo. Gostaria de poder abraçá-lo. Mas, ele está longe. Resta-me chorar à distância, como está chorando grande parte do povo brasileiro neste momento. E continuar a respirar enquanto posso. O que virá amanhã? Não sei.

Meu plano para o ano de 2019 é continuar respirando. Tecendo a vida, com paz e alegria.

Caro(a) leitor(a), vou parar por aqui. Porém, para afastar a tristeza, como faço sempre vou lhe sugerir ouvir uma bela canção brasileira. É de autoria do nosso grande compositor, sambista, bandolinista, cantor Noel Rosa (1910-1937), e intitula-se ” Fita Amarela “. Minha mãe gostava de cantar música brasileira. Em homenagem a ela, dê um clique abaixo e ouça. Se puder, cante e dance também:

 

 

Inês do Amaral Buschel, em 2 de março de 2019.

Libertem o Lula! Basta de injustiça! Lula livre!!

Anúncios