Poema NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

Este belo e célebre poema é de autoria do artista plástico, poeta e escritor Eduardo Alves da Costa, nascido na cidade de Niterói no ano de 1936, no estado do Rio de Janeiro. Sua família mudou-se para a cidade de São Paulo, no estado de São Paulo, quando ele tinha apenas dois meses de idade. No ano de 1962 graduou-se em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Esses versos foram publicados no ano de 1968, em pleno regime ditatorial empresarial-militar, e falam da luta pela liberdade. Houve um equívoco na sua divulgação à época, feito por um famoso literato que atribuiu os versos ao próprio poeta russo, Maiakóvsky. Foi uma confusão que durou por alguns anos, até que um dia foi bem esclarecida a autoria. Eu ingressei na Universidade no ano de 1968 e, portanto, vivi aquele horror que foram os “anos de chumbo “. Lembro-me  bem desses tristes fatos.

O texto desse e de outros lindos versos, fazem parte do livro ” No Caminho, com Maiakóvsky. Poesia Reunida, da Geração Editorial, ano 2003.

Jens Galschiot, escultor

Eu, caro(a) leitor(a), nunca imaginei que viveria tempos tão sombrios novamente aqui no nosso território brasileiro, como este que agora vivemos durante as eleições para Presidente da República. A violência  provocada por opiniões políticas divergentes está se espalhando entre nós, outra vez. Teremos de lutar, cotidianamente, para que o regime democrático, a justiça social e a paz sejam respeitados por todos.

Leia com atenção, ouça e reflita.

 

assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA! 

 

Caso você, caro(a) leitor(a) desejar ouvir esse poema lindamente declamado por Ivan Lima, do Portal Raízes: https://www.portalraizes.com/ , bastará clicar no vídeo abaixo:

 

Inês do Amaral Buschel, 14 de outubro de 2018.

Lula Livre! Lula Inocente!!

 

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