PRA FRENTE É QUE SE ANDA

Sabe por que insisto em andar pra frente? Porque não sei caminhar para trás como fazia tão bem, dançando, o grande Michael Jackson! Só sei andar pra frente. Vou tocando o barco, sempre mirando na linha do horizonte. Como sou uma pessoa desinquieta, não sei ficar parada. Não empaco. Invento motivos para continuar respirando. Mesmo que esteja internada em um hospital, fato que se tornou comum em minha vida.

Meu  mundo já caiu várias vezes desde o fatídico mês de dezembro do ano de 2005, quando recebi o diagnóstico de melanoma ocular. Sofri. Chorei. Senti medo. Todavia, em dado momento eu me levanto, sacudo a poeira – tal qual nos ensinou o saudoso mestre Paulo Vanzolin –  e começo a caminhar novamente. Sigo em frente, lembrando-me sempre também da Oração da Serenidade (Philip St. Romain), que repito como se fosse um mantra hindu ou budista, buscando encontrar a serenidade e a sabedoria.

Não esmoreço caro(a) leitor(a). Embora eu lute bravamente para vencer a doença, sei que sou apenas mais uma pessoa que sofre, entre milhares de outras. Crianças, inclusive. Então, sigo em frente. É uma atitude automática diante das dificuldades. Faço sempre o que está ao meu alcance. Afinal, viver é um privilégio que valorizo muito.

Mudei bastante meu modo de ver a vida nestes últimos treze anos. Sou a mesma pessoa, porém deixei de gostar de muitas coisas. Por exemplo, gostava de festas e promovia reuniões barulhentas em minha casa, com prazer. Agora não tenho mais esse prazer. Aborreço-me com conversa fiada, superficialidades e música em alto volume. Claro, também envelheci. E, antes do câncer eu sabia que era um ser mortal, mas após o tumor eu passei a ter certeza da morte. Houve uma sutil mudança interna. Procuro, diariamente, valer-me de todas as formas possíveis para ignorar a presença da “indesejada das gentes “.

Estou lhe contando essas coisas caro(a) leitor(a), porque reiniciei novo tratamento médico contra as metástases (nódulos), que insistem em surgir no meu fígado. E agora também estão na região óssea: ilíaco e 11ª vértebra. Estou no estágio IV do câncer, o que é grave. Mas, nada do que fiz até agora foi em vão. Entretanto, meu organismo criou tolerância aos remédios aplicados durante a imunoterapia. Precisei mudar depois de dois anos combatendo as metástases. Consegui viver bem todo esse tempo, sem dores. E alguns nódulos até mesmo foram paralisados.

Depois de vários exames, iniciei a tradicional quimioterapia no dia 05 de julho p.passado. Estou ciente de que esse tratamento não é lá muito eficaz para o meu caso, mas é o que dá pra fazer. O medicamento Dacarbazina que foi aplicado por via intravenosa não me fez bem. Diminuiu meus índices sanguíneos e tive de tomar uma bolsa de sangue para recuperar-me. Devido a esse fato a segunda aplicação foi suspensa por um tempo.

Tendo recuperado-me, pude submeter-me à quarta embolização de nódulos no fígado. Fiz isso no dia 15 de agosto p.passado. Felizmente, correu tudo bem. No dia seguinte recebi alta-médica e fui pra casa descansar. Hoje, uma semana após, fiz novo exame de sangue. Amanhã, dia 23 farei a segunda aplicação de Dacarbazina. Desta vez em menor dose. E, no dia seguinte, sexta-feira dia 24, terei de tomar uma injeção de um remédio paliativo para evitar a neutropenia. Esse remédio chama-se Lonquex 6mg. E vamos em frente que atrás vem gente!

Estou com 71 anos de idade. Posso afirmar que fui uma pessoa feliz. Não todo o tempo, mas vivi momentos felizes. Conheci a alegria de viver. Neste momento tão conturbado no mundo todo, e mais ainda no Brasil, estou um tanto quanto desinfeliz. A miséria humana me angustia.

Só me resta cultivar a flor-da-esperança e pensar que dias melhores virão. E que eu consiga viver um pouco mais. Como já disse e repito, quero ter mais tempo de convívio  com meus dois netos, Violeta e Milton, bem como com minha filha Beatriz e toda a família e amigos(as).

Oxalá eu siga em frente sem grandes dores e com relativa autonomia, circulando por aí. Como diziam os soldados e policiais nos anos de chumbo – vivi minha juventude sob as botas dos ditadores militares – ao se depararem com duas ou três pessoas paradas conversando, logo iam intimidando-as com seus cassetetes e diziam repetidamente: Circulandô!!

Quando exercia a função de promotora de justiça, a atividade que eu mais gostava era do atendimento ao público. Não existia a Defensoria Pública em São Paulo e só restava aos cidadaõs(ãs)pobres valerem-se das orientações dadas por promotores públicos estaduais. Aprendi muito com  linguagem do povo humilde. Como venho de uma família sem recursos, de origem pobre, compreendia perfeitamente o que queriam dizer-me. A língua brasileira sempre me encantou.

Por isso, em homenagem ao povo brasileiro – e em particular ao povo mineiro – desta vez não recomendarei uma música. Nestes tempos difíceis para mim, tenho divertido-me com a maestria de uma artista mineira, a Cida Mendes. Ela criou uma personagem que se chama Concessa. É uma dona de casa simples e inteligente, que fala do jeito do brasileiro. A artista a representa nos teatros pelo Brasil afora, e também num programa denominado “Tecendo Prosa “, no canal do You Tube. E, como todo ano no mês de setembro há a campanha de prevenção ao suicídio – Setembro Amarelo – escolhi um programa dela que fala sobre isso.

http://www.setembroamarelo.org.br/o-suicidio/

Para rir e aprender com a Concessa caro(a) leitor(a), se você não a conhece, bastará clicar no link abaixo:

Inês do Amaral Buschel, em 22 de agosto de 2018.

Lula Livre!

 

Anúncios