Filme/animação “Com Amor, Van Gogh” – (Loving Vincent)

No início do mês de dezembro do ano passado, 2017, eu fui ao cinema para assistir a esse filme. Vivi quase duas horas de puro encantamento! É de uma beleza incomparável, tal qual o é a pintura de Vincent Van Gogh. Fiquei pensando no poder da arte e de como ela nos ajuda a viver num mundo quase inóspito.

Esse filme na verdade é uma animação, feita com base na vida e obra de Van Gogh. O cinema, que por si já é uma arte – a sétima – , nesse filme condensa a arte duplamente. Já o assisti novamente, por DVD. Ele recebeu vários prêmios e chegou a ser indicado para o Oscar, mas não venceu.

Quem concebeu a ideia dele foi a artista – ela também é pintora –  e produtora polonesa Dorota Kobiela. Junto a seu companheiro, o britânico Hugh Welchman, cineasta e também produtor, decidiram filmar com artistas reais todo o roteiro que seguiu a temática de inúmeros quadros de Van Gogh.

Depois de realizada a filmagem que foi dirigida por eles, houve um recrutamento de pintores  que trabalhavam com óleo. Dos cerca de cinco mil candidatos (as), foram escolhidos 125. Estes se dedicaram a pintar os 65.000 quadros (frames) individuais do filme. Depois desse primoroso trabalho foi criada a animação genial.

Para que você caro(a) leitor(a) tenha uma vaga ideia da magnitude desse trabalho, poderá clicar no link abaixo e verá parte do making off :

 

Vincent Wilhem Van Gogh (1853-1890) era o filho mais velho de uma família de classe média holandesa, cujo pai era pastor evangélico. Quando jovem ele trabalhou no comércio de pinturas e por isso foi familiarizando-se com a arte. Visitava museus com muito interesse. Não tendo se habituado a esse cotidiano, acabou por perder vários empregos. Tentou seguir os passos do pai e foi aprender a ser pastor.

Passado algum tempo, também não deu certo. Perdeu as colocações que obtivera. Tornou-se um ser errante, aflito por trabalhar sem o conseguir. Queria formar família e ter filhos, foi repudiado por suas namoradas. Era figura excêntrica e esquisita. Bebia muito e fumava cachimbo sem parar. Não cuidava muito bem de sua higiene. Certamente, sofria de alguma enfermidade mental desde sempre. Enfim, um dia começou a aprender a desenhar.

Ele e Théo, seu irmão quatro anos mais novo, eram amigos íntimos. Théo era marchand em Paris e, um dia sugeriu ao irmão Vincent que se dedicasse definitivamente à arte do desenho e pintura, e que ele o ajudaria a manter-se. Assim começa a vida artística do grande pintor Vincent, aos 29 anos de idade. Nós, os apreciadores da arte de Van Gogh, devemos muito ao seu irmão Théo.

Depois de muitas idas e vindas pra lá e prá cá, de cidade em cidade, finalmente ele se radica no sul da França, na cidade de Arles.  Vincent vivia, modestamente, em pensões ou quartinhos sempre sozinho desenhando e pintando compulsivamente. Escrevia cartas para seu irmão quase todos os dias. E Théo lhe respondia e enviava dinheiro. Essa sua proximidade com o serviço de correios, lhe fez ficar muito amigo do carteiro Joseph Roulin e toda sua família. Pintou retratos de vários deles.

Depois desse pequeno resumo, quero lhe dizer caro(a) leitor(a) que o filme animação se atém a esse período final da vida de Vincent. Na narrativa, o carteiro Roulin já idoso, pede para seu filho Armand ir em busca de Théo, para lhe entregar uma última carta escrita por Vincent, e que fora encontrada tardiamente. O filho obedece, viaja a Paris e lá descobre que Théo morrera uns seis meses após a morte do irmão. Já estava doente e não suportou a perda do irmão.

E daí então, Armand começa a intrigar-se com a vida que levou Vincent Van Gogh e culminou com seu suicídio aos 37 anos. Parte em busca das pessoas que conviveram com ele. Nessa caminhada vamos conhecendo, magicamente, os lugares e paisagens magníficas pintadas por ele. Suas cores exuberantes. Sua inteligência e humildade. Sua inadequação a este mundo “civilizado” e nada acolhedor. Sua paixão pela natureza.

Eu não tive educação artística, infelizmente. Mas sei apreciar a beleza. Desde que conheci os trabalhos de grandes pintores, na época final de minha adolescência, passei a admirar demais os quadros e a sensibilidade de Van Gogh. Li bastante sobre ele. Em 1991 fui até Amsterdam para, além de passear e conhecer a bela cidade, visitar o Museu Vincent Van Gogh criado em 1973 por seu sobrinho, filho de Théo que recebera o mesmo nome de seu tio. Achei bonito demais tudo o que vi. Caso você caro(a) leitor(a) queira visitar virtualmente esse museu, dê uma clicada no link abaixo:

https://www.vangoghmuseum.nl/en

E, se puder e quiser, procure ler o livro que contém as cartas que Vincent escreveu ao seu irmão Théo. Há tradução para o português, com edição da L&PM. Lendo “Cartas a Théo” passei a amá-lo ainda mais. Era uma pessoa muito sofrida, sensível e solitária. Foi vítima de preconceito e bullying, como se diria hoje em dia. Ele sofreu alguns surtos maníacos durante a vida. Após seu amigo Gauguin desentender-se com ele, num momento de muita raiva cortou parte de sua própria orelha esquerda.

A intolerância e a incompreensão da maioria das pessoas que não aceitavam sua enfermidade mental o isolaram. Em Arles chegaram a encaminhar uma petição, assinada por muitos cidadãos (ãs), para o prefeito da cidade dizendo que era perigoso aquele homem perambular solto pela comunidade. Ele foi obrigada a retirar-se. No final de sua vida estava morando na cidade de Auvers-sur-Oise, mais perto de Paris.

Aliás, até hoje, a enfermidade mental não é bem aceita e compreendida em qualquer sociedade humana, infelizmente.

Van Gogh começou a ser reconhecido como pintor impressionista no final de sua vida. Mas o esplendor de sua arte só passou a ser valorizado após sua morte em 1890.

No ano de 1990 – cem anos após a morte de Van Gogh – o mestre e diretor de cinema Akira Kurosawa (1910-1998) retribuiu o amor que Vincent tinha pelas gravuras japonesas, focalizando sua obra num dos episódios de seu lindo filme “Sonhos”:

http://artenarede.com.br/blog/index.php/van-gogh-em-sonhos/

A vida de Van Gogh já foi tema de vários filmes e documentários. Destaco entre esses trabalhos, o longa-metragem dirigido por Vincent Minelli e George Cukor intitulado ” Sede de Viver“, lançado em 1956, e cujo protagonista foi o grande ator norte-americano Kirk Douglas. Há outro ótimo longa produzido em 1990, dirigido pelo diretor Robert Altman, cujo título é ” Vincent Van Gogh – A Vida e Obra de um Gênio “.

Para finalilizar este post, trago aqui para você caro(a) leitor(a), dois traillers do filme animação “Com Amor, Van Gogh “:

 

 

 

Inês do Amaral Buschel, em 14 de julho de 2018.

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