RECEITA DE ANO NOVO E FELICIDADE

Chegamos a mais um final de ano, felizmente! Ao menos para mim que, concretamente, vivo um dia de cada vez. Isso há exatos onze anos, desde quando a natureza notificou-me de que meu prazo de validade esgotara-se. Com a competente ajuda do pessoal da área médica e a inestimável força dos afetos, preces e torcida dos que me querem bem, consegui negociar uma prorrogação sine die. Com essa inestimável ajuda, estarei entrando no décimo primeiro ano desse segundo tempo. Isso se tudo der certo até o dia 31 próximo, claro!origami-de-rosas

As pessoas com as quais convivo no cotidiano, bem como os leitores(as) que me acompanham neste blog, sabem dessa minha luta pela sobrevivência após ter descoberto um câncer em meu corpo. Especificamente, era um melanoma ocular que foi corretamente combatido no tempo certo. Todavia, ele deixou rastros que neste ano de 2016, apareceram em forma de metástases. No fígado e no peritônio. Pois bem, como sabem, estou em nova frente de luta, desta vez por intermédio da imunoterapia.

Estou escrevendo estas recordações para dizer-lhes que, felizmente, tenho reagido bem ao tratamento com o medicamente inovador, o Nivolumabe. Claro, a ansiedade reinstalou-se em meu cérebro e a insônia também. Sinto fadiga às vezes, tenho coceira nas pernas, a glicemia aumentou, as plaquetas diminuíram, o intestino prendeu-se e a saliva evaporou-se. Esses efeitos colaterais incomodam, mas não são graves. Vou levando com bom humor.

Já fiz dez aplicações dele, das doze previstas pelo médico. Após a sexta aplicação, submeti-me a uma tomografia do tórax- abdomen-pelve. Para meu alívio, o resultado mostrou-nos que o nódulo maior no fígado (são dois) e que está servindo para o rastreamento, regrediu três milímetros. É uma redução inexpressiva ainda, porém ao menos não cresceu como vinha crescendo, rapidamente, antes do tratamento. Bom sinal. Fiquei mais relaxada, embora a luta continue.

esperanca_florAprendi nestes últimos onze anos de vida, a esperar pelo melhor resultado médico mas, por outro lado, tentar ao menos preparar-me para o pior, pois tudo é possível. A natureza é uma incógnita, e cada um de nós é um organismo vivo singular. Entretanto, cultivo com todo o carinho a flor da esperança. Confio no futuro. Até inventei uma data para morrer: quando tiver 76 anos. Faltam sete, portanto. Elaborei o seguinte raciocínio surreal: (1) minha avó paterna, Emília, faleceu devido a um câncer no estomago, aos 76 anos; (2) a atual expectativa de vida da mulher brasileira é de, aproximadamente, 76 anos. Então, acho bem razoável reivindicar o direito de também viver até lá…rsrs

Detesto esportes radicais, mas tive de aprender a viver perigosamente…rsrs. Espero me sair bem deste atual combate. Ao lado disso, tenho também um coração “recauchutado ” por uma ablação. Um broken heart, portanto. Porém, pelo que tenho percebido ele aprendeu a bater no ritmo certo. Conquistei, minimamente, uma coerência cardíaca!

É este o meu balanço do exercício de 2016. E está muito bom! Ainda ganhei neste ano a minha linda neta Violeta!! Que poderia eu querer mais? Fiquei muito feliz com tanta alegria! Agora, desejo apenas continuar respirando, pulsando, enfim, vivendo!

Por outro lado, o que vem me aborrecendo seriamente é a situação política do Brasil. Estou muito, mas muito triste com dalitudo que está acontecendo conosco, notadamente com o povo pobre e batalhador brasileiro. Após um golpe de Estado, houve a imposição de uma agenda política de direita, o neoliberalismo e seu Estado Mínimo, pelos nossos atuais governantes golpistas – Legislativo, Executivo, Judiciário e MP. Eles mostram o quanto são cruéis e cínicos com essa agenda. Não sabem o que é a dor da fome e da miséria. São egoístas e mesquinhos, e não se importam nada com isso. Adoram acumular riquezas e poder. E para isso estão destruindo a nação brasileira.

Mas, nós que não concordamos com esse estado de coisas e resistimos à opressão, haveremos de encontrar uma forma democrática e justa de mudar esses rumos da atual política-social-econômica. Todos os nossos direitos humanos duramente conquistados, deverão ser preservados como pontos sagrados de nossa cidadania. A Constituição Federal deve ser respeitada por todos, por mais poderosos que sejam. O regime democrático deve ser defendido bravamente.

relogio-de-sol2Bem, mas estou escrevendo agora este post para não deixar passar em branco este período de festas natalinas. Como podem imaginar, não tenho tido muito ânimo para escrever e manter este blog atualizado. Queria, todavia, contar-lhes como estão as coisas pro meu lado e, por outra parte, agradecer, imensamente, toda atenção e carinho que recebi de todos os(as) leitores(as) deste blog durante este ano! Muito, mas muitíssimo obrigada mais uma vez! Desejo paz, saúde e muitas felicidades a todos(as)!

Neste momento, me veio à mente dois poemas lindos. Um do meu caro amigo português, o poeta Fernando Pessoa (1888-1935), que traduz bem o meu estado d’alma atual. Esse poema é conhecido pelo título de “Felicidade ” e diz assim:

Se estou só, quero não estar,

Se não estou, quero estar só,

Enfim, quero sempre estar

Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.

E aquele não é feliz,

Porque pensa dentro dele

E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer

Daquilo que não é nada,

Mas falha se o não fizer,

Fica perdido na estrada.

 

Caso você caro(a) leitor(a) queira ouvir esse poema declamado por Teresa Faria, dê um clique no link indicado abaixo:

http://multipessoa.net/labirinto/fernando-pessoa/10

O outro poema bonito que desejo oferecer a você caro(a) leitor(a) neste final de ano, é de autoria do grande poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Intitula-se ” Receita de Ano Novo” e poderá ser encontrado no livro “Discurso de Primavera e Algumas Sombras “, da editora Cia. das Letras, SP, 2014. E diz assim:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Encontrei no You Tube uma bela apresentação desse poema, declamado lindamente por pessoa desconhecida, e com belíssimo fundo musical do qual também desconheço título e autoria. Valerá a pena clicar no link abaixo e ouví-lo:

 

 

BOAS FESTAS! E MUITA ALEGRIA E SAÚDE PRA TODOS(AS) NÓS!!

Inês do Amaral Buschel, em 07 de dezembro de 2016

 

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