DESASSOSSEGO: o meu e o do poeta Fernando Pessoa (1888-1935)

Desde criança sou desassossegada, desinquieta. Talvez a asma brônquica de que padeço desde muito pequena, tenha a ver com essa inquietude, haja vista interferir na normalidade da respiração do doente. Pode ser que, com o sofrimento provocado pela asma, haja alguma mudança na personalidade da pessoa. Ou, talvez, no meu caso eu fosse mesmo uma criança hiperativa. Só sei que por causa desse desassossego, apanhei muito em casa.castigo

No tempo de minha infância, vigorava em plenitude o costume social que autorizava os pais a corrigirem seus filhos com surras, puxão de orelhas. beliscões, sacudidelas, croques na cabeça, cascudos, tapas etc. Eu sofri demais com muitas cintadas e chineladas na bunda, bem como puxões de orelhas.

Na escola eu não primava pelo bom comportamento, pois falava muito e ria sem parar. Houve um dia, já no período ginasial, que uma professora de matemática irritada com meu falatório e risadas, atirou um apagador de lousa de madeira em direção à minha cabeça. Rapidamente, abaixei o corpo e escapei do “tiro”. Fui retirada da sala de aula, claro.

boas-maneiras-2Cresci e aprendi um pouco a me comportar socialmente e a controlar minhas emoções. Mas, espiritualmente, permaneci com minh’alma desassossegada. E desinquieta. Decifrar o que vinha a ser o tempo, por exemplo, estava no centro de minhas preocupações e continua a ser um mistério para mim. Daí a me apaixonar na juventude pelo desassossegado poeta português Fernando Pessoa, foi algo natural, –  como se diz em latim – uma vis attractiva (força atrativa).

Aprendi sobre o poeta nas aulas de literatura portuguesa, durante o ensino médio na minha adolescência. E, lendo suas poesias, tomei conhecimento de que ele tinha as mesmas dúvidas existenciais que eu tinha, e ainda muito, muito mais! Passou a ser para mim, um caro companheiro de jornada. Além disso, ele tinha medo de trovão e eu também tenho. Mas, Fernando Pessoa também tinha interesse pelo mundo místico e esotérico, temas que nunca me interessaram. Esse lado do poeta nunca me atraiu.

Quando as dúvidas me assaltavam, eu me lembrava do “Poema em linha reta ” escrito por ele, mas assinado pelo heterônimo Álvaro de Campos. Se você caro(a) leitor(a) quiser ouvir nosso saudoso e grande ator Antonio Abujamra (1932-2015) declamando-o, dê um clique no link abaixo:

 

Bem, mas para quem não conhece o poeta português, passarei a fazer um pequeno resumo de sua vida. Nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888, numa família católica e de classe média. Foi o primeiro filho do casal Maria Madalena fernando-pessoaP.Nogueira e Joaquim de Seabra Pessoa. No mês de janeiro de 1893, nasceu seu irmão Jorge. Quando Fernando completou cinco anos de idade, morreu seu pai vitimado pela tuberculose. E, meses após, morreu também o bebê Jorge com apenas um ano de idade.

Poucos anos mais tarde, em 1895, sua mãe casa-se novamente, desta vez com o comandante João Miguel Rosa, que exercia as funções de cônsul de Portugal em Durban, África do Sul. Por essa razão, logo no início do ano de 1896, Fernando parte com sua mãe para a cidade de Durban. Ele contava, portanto, com sete anos e meio nessa época. Só falava a língua materna, o português. E, ali, em Durban teve de alfabetizar-se na língua inglesa. Fez o ensino médio no Liceu de Durban e, após, matriculou-se na Commercial School. Nesse período escolar lê as obras de Shakespeare, Milton, Whitman, Dickens, Byron, Shelley, Keats, Poe etc.

Somente em 1905, contando já com dezessete anos de idade,  retorna sozinho e  definitivamente, para Lisboa. Passou a morar com suas tias, e com sua avó paterna Dionísia a quem queria muito bem. Ele tentou ingressar num curso superior de Letras, mas acabou desistindo. Trabalhou como correspondente comercial, traduzindo cartas comerciais em inglês nos escritório contábeis.

fernando_pessoaConforme seus parentes idosos vão morrendo, ele se vê em dificuldades financeiras e passa a morar em quartos alugados. Tem muitos amigos poetas e escreve artigos e poesias nas horas vagas, publicando-as em revistas literárias. Vive modestamente e sempre sozinho. Teve um único amor, uma namorada chamada Ofélia. Um amor platônico que durou pouco.

Tinha três meio-irmãos – outros morreram ainda bebês – por parte de mãe: Henriqueta (Teca), Luís Miguel (Michael) e João Maria (John). Com o passar dos anos, Fernando fuma demais e começa a abusar de bebidas alcoólicas. Era descuidado com a própria saúde. Um dia, no mês de novembro de 1935, sente dores agudas no abdômen e amigos levam-no para o Hospital de São Luis dos Franceses. Ali, numa certa hora pede um lápis e papel e escreve a seguinte frase em inglês: ” I know not what tomorrow will bring.” Depois de dois dias de  internação hospitalar acaba falecendo, provavelmente, em razão de uma pancreatite. Não há, porém, consenso quanto a sua causa mortis. Fernando Pessoa morreu contando com apenas 47 anos de idade, no dia 30 de novembro de 1935.

Escreveu compulsivamente. Criou os famosos heterônimos – que não é o mesmo que pseudônimo –  Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares – que assinam seus escritos. Há registros que apontam ter ele criado cerca de cento e vinte e sete heterônimos.

autobiografiaBem, essas são algumas poucas informações sobre a vida do poeta português. Se você caro(a) leitor(a) for brasileiro e desejar saber mais sobre a rica vida intelectual dele, recomendo-lhe a leitura de um bom livro escrito por um apaixonado pela obra do poeta, o advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, cujo título é “Fernando Pessoa – uma quase autobiografia “, Editora Record, RJ, 2011, com 736 páginas.  Esse livro também poderá ser encontrado em audiolivro, em MP3 (dez horas), produzido pela Universidade Falada, editora Alya, SP.

E, recomendo-lhe, ainda, a leitura do livro “Fernando Pessoa – Antologia Poética “, com organização, apresentação e ensaios da Profª Cleonice Berardinelli, Editora Casa da Palavra, RJ, 2012. Essa professora é uma “imortal “, pois faz parte da Academia Brasileira de Letras. É uma grande estudiosa da vida e obra do poeta fernando-pessoa-antologia-poetica-cleonice-berardinelli-8577342832_200x200-pu6ebac68b_1português.

E, naturalmente, caro(a) leitor(a), recomendo a leitura do único livro de Fernando Pessoa que foi publicado em vida, no ano de 1934: ” Mensagem “. Trata-se de uma imagem da história de Portugal, vista pelo poeta e escrita em versos. Há inúmeras edições desse livro pelo mundo afora. Tenho comigo a edição da editora 7 letras, RJ, 2008, preparada segundo o exemplar de 1934, corrigida pelo punho de Fernando Pessoa. A apresentação é da Profª Cleonice Berardinelli, com organização dela e de Maurício Matos.

hq-pessoaTodavia, se você caro(a) leitor(a) desejar fazer apenas uma ligeira leitura sobre a vida e a obra do poeta, sugiro ler um HQ primoroso, intitulado “Eu, Fernando Pessoa “, escrito pela Profª Susana Ventura, com quadrinhos elaborados por Guazzelli. Foi publicado pela editora Peirópolis, SP, 2013, 68 páginas.

Fernando Pessoa sonhava ainda, com um outro projeto, de um dia vir a publicar um livro que se intitularia ” Livro do Desassossego “. Mas, esse desejo nunca chegou a realizar-se em vida. Entretanto, deixou centenas de textos escritos em prosa e distribuídos em folhas esparsas, que deveriam compor esse futuro livro. Nesses papéis avulsos, ele algumas vezes anotava no alto a inscrição “L.D.”

Muitos anos se passaram após sua morte em 30 de novembro de 1935, quando alguns estudiosos de sua obra, foram juntando esses escritos e tentando criar um critério para dar-lhes coerência e seqüência. Somente no ano de 1982 foi, pela primeira vez, organizado em forma de livro por Jacinto do Prado Coelho, tendo como autor o heterônimo Bernardo Soares. Foi publicado em Portugal, pela editora Ática. Hoje já há inúmeras outras edições desse livro, que foi traduzido e editado em várias línguas, inclusive. É nesse livro que consta a célebre frase de Fernando Pessoa: ” Minha pátria é a língua portuguesa.”

No Brasil, uma primeira edição do “Livro do Desassossego ” foi lançada pela Profª Leyla Perrone-Moisés, publicada pela editora Brasiliense, em 1986. Encontra-se esgotada essa edição. Há outras mais. Eu li uma recente e bela edição desse livro, organizada pelo pesquisador Jerônimo Pizarro, e publicada em um volume só pela  Editora Tinta-da-China Brasil, livro-do-desassossego2013, com 608 páginas. Gostei muito, apesar da toda melancolia ali contida. Contudo, reconheço que se trata de um “livro” de difícil leitura. É um desassossego só, do começo ao fim…

Há em Lisboa uma instituição que cuida do acervo deixado pelo poeta Pessoa, denominada “Casa Fernando Pessoa “, e que no ano de 2010, instituiu um prêmio com o título de ” Ordem do Desassossego “, que será concedido àqueles que se distinguirem no estudo e divulgação da obra do poeta. Duas personalidades brasileiras já foram agraciadas com esse prêmio: a Profª Cleonice Berardinelli e a cantora Maria Bethania.

Para saber mais sobre o poeta, visite os sítios:

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/

https://omeupessoa.wordpress.com/

A Maria Bethânia é uma artista apaixonada pelos versos de Fernando Pessoa, e já declamou e cantou inúmeras vezes suas poesias. Se você, caro(a) leitor(a) quiser ouvi-la cantando a poesia ” Segue seu destino “, com música composta por Sueli Costa, bastará clicar no link abaixo:

 

 

Eu gostaria de deixar registrado aqui que, desde os anos 80 eu ouço as poesias de Pessoa musicadas pelos mais diversos compositores brasileiros, e cantadas por muitos de nossos grandes artistas. Tenho uma fita K7  do selo Som Livre, de 1985, intitulada “A Música em Pessoa ” , projeto de Elisa Byington, que ouvi centenas de vezes. Esse K7 foi relançado em CD , pela Biscoito Fino em 2002.

mensagem_fernado_pessoaE tenho também um CD do selo Gravadora Eldorado, datado de 1997, intitulado  ” Mensagem “, com músicas compostas só pelo cineasta-músico-compositor André Luiz Oliveira, gravadas na voz de ótimos cantores. Este CD é fruto de um LP igual, datado de 1986.

Alem desses há, ainda, outros CDs com gravação de versos do poeta musicados. Um deles, intitulado ” Dois em Pessoa “,  com músicas de Renato Motha e Patrícia Lobato é muito bonito, e outro intitulado “Cancioneiro “, musicados por Jardel Caetano, gravado nas vozes de maravilhosos artistas. Possuo alguns outros CDs trazidos de Portugal. E da “Coleção Poesia Falada”, vol. 7, Luzes da Cidade, datado de 1999, há o CD  produzido e idealizado por Paulinho Lima, com a gravação dos versos de Pessoa na voz do saudoso e grande ator Paulo Autran.

Por fim, quero lhe dizer caro(a) leitor(a) que o compositor baiano-brasiliense André Luiz Oliveira deu seguimento ao seu projeto “Mensagem ” e, recentemente, no segundo semestre do ano de 2015, relançou o CD do mesmo nome agora bauacompanhado de outros dois CDs numerados como “Mensagem ” 2 e 3, acompanhados dos respectivos DVDs da gravação.

É uma obra monumental gravada por excelentes músicos e maravilhosos cantores. Linda e impecável!  E poderá ser adquirida em volumes avulsos ou os três CDs juntos, acondicionados numa primorosa caixa de madeira feita à semelhança do baú de papéis de Fernando Pessoa, e a que se deu o nome de “Baú Mensagem“.

O nosso artista André Luiz Oliveira faz jus ao recebimento, num futuro breve, do prêmio “Ordem do Desassossego“!!

Para homenagear o André e apresentá-lo a quem não o conheça, trago aqui para você caro(a) leitor(a) ouvir, a gravação na própria voz do compositor, do poema “Mar Português “, de Fernando Pessoa. Bastará clicar no link:

 

 

E eu continuo desassossegada como sempre fui, asmática, e também não sei o que o amanhã trará.

Inês do Amaral Büschel, em 25 de outubro de 2016

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