AS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS frente aos cínicos e aos bem nutridos cães de guarda

Primeiramente, Fora, Temer!

É muito sério isto. Sinto-me muito mal em estar vivendo neste período em que um golpe de estado branco, um golpe parlamentar ousou usurpar 54 milhões de votos de brasileiros, entre eles o  meu. Minha vontade é de gritar, tal qual faz o rapaz da famosa publicidade do antigo xarope S.João.

Não será possível viver em paz sob um governo federal que assume, cinicamente, o cargo de Presidente do país,  nessa grotesca situação. Sim, o rito jurídico procedimental foi seguido. O Direito, infelizmente, também serve às más causas com suas interpretações contorcionistas. Em épocas passadas justificou o nazismo na Alemanha e o apartheid na África do Sul, por exemplo. Nessas interpretações jurídicas favoráveis ao golpe parlamentar,  destacam-se os discursos retóricos dos arautos da razão cínica.

Agora nos imporão o neoliberalismo – o Estado mínimo – ou seja, tudo para os proprietários e nada para o povo pobre. E esse não foi o programa governamental que foi vencedor nas urnas. Em vez de uma reforma tributária honesta, enfiarão goela abaixo a reforma da previdência. A carga tributária maior deste país pesa sobre os ombros da classe dos trabalhadores, da classe média inclusive. Não é a classe dos proprietários quem carrega o país nas costas. Isso é injusto.

Neste momento de crise econômica local e mundial, por que o Congresso Nacional não lança mão da CPMF da qual já se cogitou? Não, de jeito nenhum! Tiraremos mais dos trabalhadores. Uma parcela dos brasileiros abastados, em tempo de crise e com relação aos parcos recursos públicos, agem como aves de rapina. “Farinha pouca, meu pirão primeiro“. Vão, deliberadamente, fazer os pobres brasileiros ficarem mais pobres ainda.  Nada de investimento em saúde pública ou educação. Atitude política escandalosamente desumana.

fabulaE os apoiadores da farsa que foi o procedimento do impedimento da ex-Presidenta da República, sejam profissionais do direito, jornalistas, parlamentares etc,  nem sequer se envergonham das explicações cínicas que dão. Respondem aos questionamentos na maior frieza e cinismo. Alguns até riem.

Muitos desses profissionais me fazem lembrar de uma das fábulas antigas, inspirada em Esopo, e que se refere ao diálogo entre um lobo e um robusto cão. Esses profissionais preferem ser escravos do poder, a ter opinião livre que possa vir a desagradar seus patrões. E, no caso de agentes públicos, temem contrariar a chefia fiel ao governo da vez. Todos almejam benesses e melhorias salariais substanciosas. Engordar é o que importa. A liberdade de opinião que se dane.

Ando desalentada.  Sinto-me impotente para enfrentar tanto cinismo jurídico. Asco é o que sinto ao perceber que colegas de profissão, que se declaram apolíticos, agem, cinicamente, com razões partidárias. E com suprema vaidade. É grande a minha desilusão com o Direito. E com a vergonhosa omissão de muitos adultos que se acovardam.

Há muita má fé, mas também muita ignorância jurídica. Do Presidente ao Procurador percebe-se a ausência de uma cultura humanista sólida. Em regra são incultos, grosseiros e autoritários. O período de 21 anos de ditadura civil-militar no Brasil, deixou-nos como herança esse comportamento violento e mesquinho em grande parte de nossa sociedade letrada. Falta-nos o amor ao conhecimento e à liberdade de espírito. Muitos agentes públicos desprezam o regime democrático.

Abaixo trago a você, caro(a) leitor(a) uma versão da fábula mencionada, na versão escrita por Fedro:

 

O LOBO E O CÃO

 

Vou expor sucintamente o quanto é doce a liberdade.

Um lobo, desfigurado pela magreza, encontrou-se casualmente com um bem-nutrido cão. Pararam e, após cumprimentarem-se mutuamente, o lobo perguntou: ” De onde lhe vem toda essa gordura?cao-e-o-lobo

Que tipo de comida lhe dá tanta robustez? Eu, que sou bem mais forte, estou definhando de fome.”

E o cão com bonomia: “Você estaria no mesmo estado que eu, se pudesse prestar a meu dono serviço igual ao que presto.”

“Que serviço?”, pergunta o lobo. “O de guardar sua porta, o de defender-lhe a casa dos ladrões à noite.

O pão me é dado, sem que eu peça, meu dono me dá ossos de sua própria mesa, os criados me atiram petiscos e todas as iguarias que sobram. Assim, meu estômago se enche sem nenhum esforço de minha parte.”

“Realmente”, diz o lobo, “eu estou preparado. Se agora eu suporto a neve e as chuvas, levando na floresta uma vida duríssima, o quanto me seria mais fácil viver sob um teto e matar a fome com farta comida, sem precisar fazer nada!”

“Então, venha comigo.” Enquanto caminham, o lobo percebe no pescoço do cão a marca deixada pela coleira.

” E isso, aí amigo? O que é?” “Não é nada.” “Mas diga assim mesmo.” “É que como pareço muito agitado, prendem-me durante o dia, para que eu descance e esteja bem desperto quando a noite chega.

No fim da tarde me soltam e eu vagueio por onde quero.”

“Bem, e se lhe der vontade de sair por aí, você tem permissão?” “É claro que não.” “Então, amigo, usufrua os bens que você louva; a mim não interessa ser rei, se a condição é não ter liberdade.”

 

Texto copiado do belo livro “A Tradição da Fábula – De Esopo a La Fontaine“, organizadora Maria Celeste Consolin Dezotti. Coleção Anquitas da Imprensa Oficial SP e UnB, ano 2003,  pág.82.

 

Inês do Amaral Buschel, em 15 de setembro de 2016.

 

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