ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS: um caso de amor com a vida

Escrevo este texto neste mês de janeiro, caro(a) leitor(a), para celebrar a vida. E desabafar. Aqui, mais um capítulo da novela cheia de emoções fortes, em que se transformou a minha existência. No dia 9 p.passado completaram-se dez anos da cirurgia/braquiterapia a que me submeti, para fulminar um tumor no olho esquerdo. E estou muito contente em estar viva e ter conseguido ultrapassar vários obstáculos.

Resta-me, ainda, completar os quinze anos necessários para afastar de vez – quem sabe? – a “espada de Dâmocles ” que permanece sobre minha cabeça. Essa “espada ” significa uma eventual metástase. Entretanto, o que me importa mesmo é que perdi o olho mas preservei minha vida. Eu gosto de viver. Não desejo partir.

Estou bastante ciente da minha inexorável finitude. Nenhuma ilusão quanto a isso. Tal qual a efêmera florada de uma cerejeira, eu sei que um dia não estarei mais aqui. E não acho graça alguma nisso. Todavia, diariamente, eu dou batalha para viver bem enquanto tenho forças. Não desejo tornar-me uma pessoa amarga. Quero mais é ser feliz! E espalhar bom humor ao meu redor.

Há dez anos, exatamente, vivi momentos dramáticos. Sobrevivi, felizmente, e continuei respirando nestes últimos dez anos. Hoje, posso afirmar que vivo bem, tenho momentos de alegria e também – como qualquer um – momentos de tristeza. Devo confessar, mais uma vez, que sinto saudades de meu companheiro Vicente, homem a quem muito amei. E sei que fui amada por ele.

coraçãoNas duas décadas e meia que vivemos juntos, tivemos episódios de intenso amor e carinho, entremeados por alguns conflitos e dores. Fomos felizes, todavia. Ríamos muito. Um do outro, inclusive. E, para minha felicidade, ele deixou-me de herança um tesouro: nossa única filha Beatriz, a quem amo muito.

Há pouco tempo uma médica-cardiologista disse-me que, fisicamente, meu coração é um pouco grande. Tamanho G. Atrevo-me, então, a afirmar para você caro(a) leitor(a) que, espiritualmente, o tamanho do coração do meu querido Vicente era GG. Este post é também uma pequena homenagem que faço a ele.

Não irei mencionar tudo que me  aconteceu pois, quem acompanha este blog já conhece bem os detalhes. Apenas, destacarei agora o fato de, no final do ano de 2005, eu ter recebido o diagnóstico de um melanoma raro e devastador no olho esquerdo e, concomitantemente, meu companheiro Vicente receber o dele, de leucemia. A minha impressão à época, era de que nós dois tínhamos entrado, por engano, num trem-fantasma cheio de sustos.

Apesar da doença dele ter respondido bem ao tratamento medicamentoso ele acabou perdendo a vida, meses depois,  por causa de um infarto no dia 22 de maio de 2006. No entanto, era o meu prognóstico o pior, dada a gravidade do tumor. Mas, a vida nos prega peças e o acaso embaralha o jogo. Nunca sabemos o que o dia de amanhã nos reserva.cerejeiras

Dizem por aí que a arte imita a vida. De fato, embora com a inversão do papel do cônjuge, comigo os fatos se passaram com bastante semelhança ao enredo de um belo filme alemão, intitulado “Hanami – Cerejeiras em flor “. Esse filme foi dirigido pela diretora alemã Doris Dörrie e lançado aqui no Brasil em 2009.

É um sensível drama-poético, onde o acaso modificou o destino do casal. Se você caro(a) leitor(a) não conhece esse filme e quiser saber algo, veja o trailer com legendas em inglês, clicando no link abaixo:

 

 

Já disse e repito, que as forças que precisei buscar para sair daquele momento aflitivo de minha vida, eu encontrei no carinho que recebi de meus familiares, agregados, parentes e amigos (as), a quem sou muito grata hoje e sempre. É esse elo amoroso que ainda me mantém viva. Por outro lado,  como bem escreveu nossa poetisa Cecilia Meireles, eu também “Aprendi com as primaveras a me deixar cortar e voltar sempre inteira.”

Sinto gratidão imensa também, pela atenção que recebi dos profissionais da área da saúde, com quem pude contar no passado e continuo contando no presente. Há muita gente neste mundo que se dedica a estudar, com o firme propósito de encontrar meios que possam proporcionar a eliminação e/ou a diminuição do sofrimento humano. Vida longa a todos(as) eles(as) é o que desejo!

barcoTento controlar minha ansiedade e conduzir com calma e leveza, o barco de minha vida . Não tenho mais tanta pressa. Envelheci, e ando mais devagar. No transcorrer desses anos, decidi assumir meus cabelos brancos. Num determinado momento, deixei de tingi-los. E me sinto bem assim. Mantenho a esperança no futuro, e busco encontrar prazer e alegria na vida cotidiana.

Já vivi bastante, bem sei. Intensamente. Mas, gostaria de viver um pouco mais. A tempo, talvez, de ver o povo brasileiro que trabalha e estuda, conquistar melhores condições de vida. Principalmente, respeito e bom atendimento nos serviços públicos de saúde. Esse é um dos meus sonhos na vida coletiva. E era um sonho também do meu companheiro Vicente. Na vida pessoal, a soledade é que tem sido minha companheira inseparável. Não reclamo muito dela não, só de vez em quando. A minha sorte é que gosto de estar em minha própria companhia…

Tive uma tia-madrinha muito querida, cujo apelido era Bebé. Ela faleceu de velhice no mês de agosto de 2013, com 107 anos completos. Certa vez, um médico perguntou a ela como fora chegar até os cem anos de idade, e ela lhe respondeu: Nem percebi, doutor. Fui vivendo. Pois então, se alguém me perguntar hoje como foi viver nestes últimos dez anos, eu responderei: Inacreditável!

Para o título deste post tomei emprestada a frase contida na bela e famosa versão feita para a língua portuguesa, pelo radialista brasileiro Lourival Faissal, da música composta pelo grande músico porto-riquenho Rafael Hernandez (1891-1965) intitulada “Diez Años “. É essa a música que sempre me vem à mente quando me lembro daqueles momentos tristemente vividos.

Essa canção-bolero fez sucesso na era do rádio no mundo todo, na segunda metade do Século XX. Aqui no Brasil, há diversas gravações, iniciando-se pela cantora Emilinha Borba, depois na voz de Gal  Costa, de Tânia Alves etc. Se você caro(a) leitor(a), não conhece essa bela canção e quiser conhecê-la, bastará clicar no link abaixo, para ouvi-la na bonita interpretação de Tânia Alves:

 

 

trevo4folhas1E viva a vida, mais uma vez!

 

Inês do Amaral Büschel, 24 de janeiro de 2016

Anúncios