AUTOCRÍTICA É SINAL DE SANIDADE: ” CONHECE-TE A TI MESMO “

Incomoda-me, por vezes demasiadamente até, conversar ou observar uma pessoa que só tem certezas e nenhuma autocrítica. Digo autocrítica, mas sem autoflagelo. Sensatez e equilíbrio são fundamentais para a preservação de nossa autoestima. Mas, devemos usar a razão e avaliar nossos atos cotidianos. Ter a certeza de estar sempre certo, já é um bom indício de erro de ponderação. Penso que autoestima e autocrítica devem caminhar juntas, equilibrando-se.250px-Flagellants

Na atualidade, em tempos de redes sociais virtuais, temos testemunhado o orgulho e a vaidade individual prevalecer, frente a qualquer sinal de humildade pessoal. As pessoas insistem no confronto invés de procurar o diálogo honesto e sincero com o interlocutor. Só há vencedores de lado a lado. Não aprenderam nada com as sábias palavras do cantor-compositor Paulinho da Viola, que num de seus lindos sambas – Perder ou Ganhar – nos diz os versos: “ Perdi, mais uma vez/ agora quero prosseguir em paz/ Tanto que falei e lutei, mas obrigar jamais/ Fazer o que eu fiz/ Nem adianta contar/ Tudo de bom para você/  Eu desejo porque/ Sei perder e ganhar/ Mas eu perdi […]”

socrates3Quando freqüentei o ensino médio,  eu aprendi um pouco de história da filosofia. Logo nas primeiras aulas o professor nos apresentou ao filósofo da Grécia antiga, Sócrates, que viveu, aproximadamente, entre os anos 470 a.C até 399 a.C. Naquele período histórico existiu um templo sagrado, com o nome de Oráculo de Delfos, construído em louvor ao deus Apolo. Logo na entrada desse templo, havia uma inscrição que se tornou muito famosa e que dizia: “Conhece-te a ti mesmo “.

As pessoas iam até ali em busca de esclarecimentos para suas dúvidas. Queriam saber sobre suas vidas e seu futuro, e para isso consultavam as sacerdotisas. Sócrates esteve nesse Oráculo de Delfos e, surpreso, recebeu como resposta que ele era um sábio. Recusou-se a aceitar essa verdade, alegando que tinha noção de que não era um sábio. Fazia questão de afirmar: “ Só sei que nada sei “.

Estou citando essa passagem da história da filosofia grega para dizer que, desde há séculos, muitas pessoas buscam nos outros o conhecimento que deveriam ter sobre si mesmas. Cada um de nós, images (8)notadamente na maturidade, deveríamos saber quem somos. E para conhecer-se melhor será preciso fazer exercícios de reflexão – como olhar-se num espelho, sem uso de máscaras sociais – para conquistar o autoconhecimento. Há que haver honestidade na autocrítica, evitando-se o irresistível autoengano.

Lao-tséNo lado oriental do mundo, também o filósofo chinês Lao-Tsé que viveu no Século VI a.C., já ensinava aos seus discípulos que ” A resposta está no fundo do seu ser. Você sabe quem é e o que quer.”  Essas sábias lições continuam valendo ainda hoje para toda a humanidade.

Segundo o Dicionário brasileiro Houaiss, autocrítica significa ” ato de o indivíduo reconhecer as qualidades e defeitos do próprio caráter, ou os erros e acertos de suas ações.” Portanto, temos de nos conhecer intimamente para admitirmos nossos acertos, e reconhecer nossos erros. Arrepender-se dos próprios erros e aprender a pedir perdão por tê-los cometido, também é ato nobre e muito importante.

Lembro-me agora dos “Doze Passos” adotados pela irmandade do “AA – Alcoólicos Anônimos “, para a recuperação de pessoas que abusam de bebidas alcoólicas. Em seu 4º passo diz: “ Fizemos um minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”. Isso quer dizer que, para a conquista da sobriedade, deveremos ser honestos, primeiramente, para conosco mesmo.espelho-de-mesa

E, se for o caso, precisamos também saber perdoar-nos. O autoperdão muitas vêzes é necessário, para que possamos seguir vivendo em paz consigo mesmo e com os outros. E viver sem o peso da má consciência ou de mágoas guardadas. Porém, deveremos ter cuidado e evitar o sentimento de autopiedade ou da vitimização. Será preciso saber separar o joio do trigo, usando o bom senso.

o leitorHá, ainda a questão da vergonha de si e o sentimento de culpa a nos perseguir. Como exemplo disso, caro (a) leitor(a) quero aqui mencionar o ótimo filme intitulado “O leitor “, dirigido por Stephen Daldry. É uma co-produção EUA/Reino Unido/Alemanha, baseado na obra homônima escrita por Bernhard Schlink. Um drama com 123 minutos de duração, lançado em 2008. O pano de fundo da narrativa é a Alemanha, no período da II Guerra Mundial. Desculpe-me ser desmancha prazeres, mas tenho de contar que dentro da narrativa do filme há a história de uma mulher que era analfabeta, e temia que alguém descobrisse esse segredo em sua vida. Negava, disfarçava ao máximo essa realidade, e por isso acabou prejudicando-se seriamente.

Na vida real isso é um fato. Há muitos adultos analfabetos que se negam a ir à escola, por sentirem vergonha de admitir que não sabem ler e escrever. Não é por orgulho que negam, mas por vergonha de si. Só com muita delicadeza e abordagem humanizada, que conseguiremos convencê-los a admitir a verdade de suas vidas.Terão de enfrentar o problema que os mantém inseguros na sociedade.

Mafalda_conheceteDesde crianças necessitamos aprender a lidar com nossas deficiências, incapacidades, mentiras e defeitos de caráter, enfim, com nossas imperfeições. Devemos saber que ninguém é perfeito, nem os próprios pais. Nós, os humanos, não somos deuses (as) e erramos muito. Porém, com a maturidade, temos de aprender a lidar com a verdade e encará-la sempre que for necessário. Há ocasiões especiais em nossas vidas, que não nos permitem mentir. A honestidade se impõe e deveremos agir com retidão, decência e boa-fé.

Vamos supor, caro (a) leitor (a) que cometemos um crime mas no momento ninguém viu. Mais adiante, alguém desconfia de nossa autoria e nos acusa perante a Justiça Pública. Teremos, então, que contratar um (a) advogado (a) para nos defender. De que adiantará mentir para esse(a) advogado (a)? Para que o advogado possa nos defender, terá de saber a verdade nua e crua. Nosso (a) defensor (a) terá de saber dos fatos reais. Se mentirmos para quem se propõe a nos defender, estaremos nos prejudicando. Agir assim não é uma esperteza, mas sim uma burrice.

Outro exemplo onde será necessário contar a verdade: ficar doente e estando diante de um (a) médico (a) mentir sobre nosso comportamento. Negarmos que bebemos exageradamente, por exemplo, ou que usamos outras drogas. Ou, então, negarmos que, costumeiramente, nos automedicamos. Algumas vezes sem consultar ninguém, outras vezes consultando apenas o balconista da farmácia. Como poderemos obter um bom tratamento de saúde, se o profissional médico (a) nada souber sobre nossos péssimos hábitos?

avestruz-1O fenômeno psíquico da negação é bastante complexo. Todavia, se tivermos o hábito de negar a realidade, ou seja, mentirmos para nós mesmos, ficaremos eternamente parados no tempo. Não compreenderemos sequer a nossa própria história de vida. Penso que o antídoto para isso seja a plena conscientização da realidade de nosso entorno. Nestes tempos em que vivemos hoje, por exemplo, é muito comum as pessoas negarem o seu próprio envelhecimento. Muitos – homens e mulheres – com mais de 60 anos completos, insistem em dizer que ainda são jovens. Podem gozar de boa saúde, porém não são mais jovens. Autocrítica é indispensável.

Imagine-se fazendo parte de um grupo de ajuda-mútua e/ou auto-ajuda, tal qual os Neuróticos Anônimos. Estando lá na reunião, frente aos demais participantes da roda que sofrem dos mesmos problemas, você mente, descaradamente, e nega suas manias e neuroses. Servirá de quê fazer parte desse grupo e representar uma farsa, por exemplo? A ilusão de enganar aos outros não nos serve para nada.coracao_cerebro

Antes de terminar caro (a) leitor (a), citarei uma frase de um escritor que admiro muito, o tcheco Franz Kafka (1883-1924) que, um dia ao ser entrevistado, disse o seguinte:” A verdade é aquilo que todo homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo homem deve extraí-la sempre nova de seu próprio íntimo, caso contrário ele se arruína. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida. “ (Conversas com Kafka, de Gustav Janouch)

Trago aqui para você caro(a) leitor (a) ouvir, a composição do brasileiro Noel Rosa (1910-1937) intitulada “Pra que mentir? “, na maravilhosa interpretação de Paulinho da Viola. Bastará Clicar:

 

Inês do Amaral Buschel, em 29 de outubro de 2015.

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