LUSOFONIA: qual é o  significado dessa palavra

Sou brasileira e, portanto, pertenço ao território latino-americano. É assim que me vejo, como latino-americana. Todavia, tenho ascendência portuguesa ( longínqua) e germânica (neta). Tenho consciência de que penso em português, que é a minha língua materna. Há um fato curioso em minha vida, que gostaria de, inicialmente, contar a você caro (a) leitor (a).

Na minha infância, aqui no Brasil, as emissoras de rádio não paravam de tocar uma canção portuguesa intitulada “Coimbra “, de autoria de Raul Ferrão e José Galhardo. Gravada na voz da famosa cantora Amália Rodrigues (1920-1999), fazia um sucesso esplendoroso no mundo todo. Cresci ouvindo esse fado e gostava demais dos versos que diziam “…a história desta Inês tão linda…” . Não tinha a menor idéia a quem esses versos se referiam, mas gostava de ouvir o meu nome sendo cantado! Foi assim que o fado português entrou para sempre em minha vida. Se você caro(a) leitor(a) tiver interesse em ouvir essa gravação bastará clicar no link:

 

Passou-se muito tempo e, desde há poucos anos, venho observando que em entrevistas com escritores de literatura na língua portuguesa, os entrevistadores costumam perguntar ao escritor(a) qual a opinião dele(a) sobre “lusofonia “. E nas respostas dadas nunca senti muita clareza, pois as opiniões divergem bastante. Então, prometi a mim mesma que um dia ainda faria uma pequena pesquisa sobre o significado político dessa palavra. E esse dia chegou. Comecei pelo dicionário brasileiro Houaiss onde encontrei a definição do vocábulo:

(1) conjunto daqueles que falam o português como língua materna ou não; (1.1) conjunto de países que têm o português como língua oficial ou dominante [A lusofonia abrange, além de Portugal, os países de colonização portuguesa, a saber: Brasil, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe; abrange ainda as variedades faladas por parte da população de Goa, Damão e Macau na Ásia, e ainda a variedade do Timor na Oceania.]

Depois, fui conferir na Wikipédia e compreendi um bocadinho mais: hoje, em 2015, estima-se que já somos, aproximadamente, duzentos e oitenta milhões de falantes da língua portuguesa no mundo.  Isso significa que o português já é a 5ª língua mais falada. Clique no link se desejar saber mais:

https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_portuguesa

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lusofonia

MartinhoDescobri e li o livro “Os Lusófonos “, um romance de autoria de nosso escritor-compositor-cantor Martinho da Vila, lançado em 2006, pela Editora Ciência Moderna Ltda./RJ. Nessa obra, que tem como pano de fundo Portugal e alguns países da África que são ex-colônias de Portugal, Martinho diz a certa altura que ” o princípio filosófico [da lusofonia] visa ao interconhecimento e à interligação afetiva entre os povos lusoparlantes. A teoria fundamenta a principal filosofia da comunidade formada por países de língua portuguesa, que envolve ações de solidariedade e intercâmbio cultural.” (pág.4)

Aliás, por falar em Martinho da Vila, ele gravou um CD com o título de “Lusofonia “, lançado em 2000. Nesse disco há canções de sua autoria em parceria com outros compositores brasileiros, bem como musica_2reúne músicas de compositores de outros países lusófonos: de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e Angola.

Mais adiante, acabei por lembrar-me também de ter assistido a um filme brasileiro cujo título é ” LÍNGUA – Vidas em Português “, dirigido pelo cidadão “lusófono” – cineasta moçambicano, nascido em Portugal e que vive há mais de 25 anos no Brasil –  Victor Lopes. Lançado em 2004, tem duração de 105 minutos. Foi filmado em seis países de quatro continentes: Portugal, Moçambique, Índia, Brasil, França e Japão. Trata-se de histórias da língua portuguesa e sua permanência entre culturas variadas do planeta. Caso você caro(a) leitor(a) tenha interesse em assistir ao trailer desse belo e importante filme, está disponibilizado no You Tube. Bastará clicar no link indicado abaixo:

 

Veio-me à mente também a lembrança de um livro precioso que  li anos atrás, de autoria do brasileiro um-rio-chamado-atlantico_alberto-da-costa_silva (1)Alberto Costa e Silva – diplomata, poeta, escritor, historiador que recebeu o Prêmio Camões em 2014 – livro esse intitulado “Um Rio Chamado Atlântico – A África no Brasil e o Brasil na África “, lançado em 2003, pela Editora Nova Fronteira/UFRJ, Rio de Janeiro. Esse livro reúne 20 ensaios sobre as relações históricas entre o Brasil e a África Atlântica. Mostra como o Brasil e África eram um mundo só. O que se passava de um lado influenciava o outro. Penso que sua leitura é uma das chaves para compreendermos a lusofonia. Para nós brasileiros, indubitavelmente, todos os caminhos nos levam à África.

LusitanidadePara entender melhor o conceito de lusofonia, também li e quero aqui recomendar a leitura de outro bom livro sobre o tema, intitulado ” Da Lusitanidade à Lusofonia “, de autoria do professor português Fernando Cristovão, Editora Almedina/Coimbra, 2008.

É preciso lembrar que o Brasil tornou-se independente do Reino de Portugal em 1822, portanto, há quase dois séculos. Entretanto, as ex-colônias portuguesas do continente africano, somente conquistaram sua independência de Portugal em meados da década de 1970 (Guiné-Bissau em setembro de 1973 e todos as outras no ano de 1975). Destacando-se o caso de Timor Leste que, após a independência em 1975, sofreu uma invasão pela Indonésia, e somente no ano de 2002 reconquistou sua independência.

Ao lado disso, temos de observar entre nós, os povos lusófonos, as importantes diferenças culturais, de fé religiosa inclusive. Em Portugal e no Brasil ainda há a predominância do catolicismo. Mas, o mesmo não se dá nos países africanos. Não se pode trilhar o caminho da religiosidade cristã e iludir-se com um irreal  sonho de “irmandade “. O regime democrático e a autodeterminação dos povos prevalecerá sempre. O que nos une e é a nossa riqueza comum: a mesma língua, embora com variações e muitos hábitos sociais semelhantes, como na culinária, por exemplo. Não existe para nós a barreira da língua. Parafraseando o poeta português Fernando Pessoa, “nossa pátria é a língua portuguesa “.

Aqui no Brasil, enquanto colônia portuguesa, no ano de 1757, o despótico Conselheiro de Estado Marquês de Pombal proibiu a população brasileira de continuar a falar a língua geral, que era derivada da língua originária Tupi. Essa língua indígena fora devidamente organizada, gramaticalmente, pelo  Padre José de Anchieta. Ele era jesuíta – da Companhia de Jesus –  e viveu no Brasil desde 1553 até sua morte em 1597. Dessa forma, nós brasileiros fomos obrigados a adotar a língua portuguesa a partir dali. Claro que há nações indígenas no território brasileiro que, felizmente, mantém até hoje suas línguas originais com a proteção da Constituição Federal de 1988. Mas os povos indígenas do Brasil também tem de aprender a língua portuguesa, pois essa é a nossa única língua oficial.

logoTodavia, nos países africanos de língua oficial portuguesa, as coisas não se passam assim. Grande parte de sua população sequer conhece a língua portuguesa e, portanto, não se comunica nessa língua. Há outras línguas de povos originários que também devem ser respeitadas. Para defender os interesses políticos-sociais-econômicos-culturais dos povos lusófonos da África é que foi criada, em 1979, uma Comunidade desses países africanos que se denomina PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Para saber mais caro(a) leitor(a), clique no link abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pa%C3%ADses_Africanos_de_L%C3%ADngua_Oficial_Portuguesa

Refletindo sobre esses fatos históricos observo que, entre os  países lusófonos ainda há muita assimetria. Por isso, para caminharmos juntos e em paz, teremos de enfrentar as diversidades e encontrar nossas semelhanças. E, num futuro próximo, poderemos sim nos fazer entender condignamente. Oxalá esse futuro chegue logo. Para Portugal a situação é mais confortável, mas para todos nós que fomos povos colonizados há ainda muitas arestas a serem aparadas. Claro que podemos sentarmo-nos à mesa para dialogar, mas é preciso estar sempre atento à equidade no tratamento. Lembrando que no Brasil não houve guerra civil e que já empreende parcerias com Portugal em várias áreas há mais tempo.

Penso que a lusofonia é um processo histórico inexorável e em construção. Aprendi que por parte do governo brasileiro no final da década de 80, surgiu a idéia de reunir os países que usavam a língua portuguesa, para criar uma comunidade internacional lusófona e multicultural. Em grande parte fomos influenciados pela utopia do pensador português, Prof. Agostinho da Silva (1906-1994), que viveu no Brasil entre os anos 1947-1969 e que sonhava com isso. Agiam politicamente com esse ideal, o ex-Presidente José Sarney e o seu Ministro da Cultura José Aparecido de Oliveira (1929-2007) que, posteriormente viria a ser Embaixador do Brasil em Portugal. Mais tarde, o ex-Presidente de Portugal Mário Soares abraçaria a ideia e também os governantes dos países que compõe a PALOP.

os-lusc3adadasDesse ideário surgiu, primeiramente, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa – IILP, no ano de 1989. Somente depois, no ano de 1996, é que se institucionalizou a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.  Desde o ano de 2014, com o ingresso da Guiné Equatorial, a CPLP congrega nove países membros. Para saber mais sobre o IILP e a CPLP, clique no links abaixo:

https://iilp.wordpress.com/

http://www.cplp.org/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_membros_da_Comunidade_dos_Pa%C3%ADses_de_L%C3%ADngua_Portuguesa

É no transcorrer desse processo histórico que Portugal apresenta a proposta de um novo Acordo Ortográfico que, finalmente, foi firmado ano de 1990 entre os sete países lusófonos à época: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Posteriormente, em 2004, o Timor Leste também aderiu. Esse Acordo altera apenas a ortografia da língua escrita, mas não a linguagem falada com seus sotaques e variações regionais. O Brasil aprovou por Decreto Legislativo esse Acordo no ano de 1995. Para saber mais, clique no link abaixo:

http://www.brasil.gov.br/educacao/2014/12/acordo-ortografico-so-entrara-em-vigor-em-2016

Nós, brasileiros, temos bastante informações culturais dos povos angolanos, moçambicanos e talvez também dos timorenses. Todavia, pouco sabemos sobre Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e menos ainda sobre a Guiné Equatorial. Precisamos conhecer mais desses países e seus povos, e nos aproximarmos. E vice-versa, claro. O Brasil já deu mais um passo nessa meta com a criação, em 2010 pelo ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, da Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira:

http://www.unilab.edu.br/

E, na capital do estado de São Paulo, por iniciativa do Governo Estadual e da Fundação Roberto Marinho, foi inaugurado em 20 de março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa:

http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/

Para ajudar nessa “viagem”, escolhi trazer aqui para você caro(a) leitor(a) um documentário muito bonito filmado em Cabo Verde, dirigido pelo diretor brasileiro Alê Braga, com 26 minutos de duração: Bastará clicar no link:

 

E, para completar este pequeno passeio que fiz sobre a lusofonia,  para aqueles que gostam de cinema, indico dois filmes. Um deles intitula-se “Timor Leste – O massacre que o mundo não viu ” (Timor Lorosae), documentário dirigido pela brasileira Lucélia Santos, com 75 minutos de duração e lançamento em 2002.

 

O outro bom filme intitula-se “Palavra e Utopia “, dirigido pelo célebre diretor português Manoel de Oliveira (1908-2015), drama lançado em 2000, com 130 minutos de duração. Trata-se da história do Padre Antonio Vieira (1608-1697), representado na película também pelo ator brasileiro Lima Duarte.

 

Antes de finalizar este post quero contar a você caro(a) leitor(a) duas outras estórias engraçadas que se passaram comigo. Quando ingressei na escola, no curso primário, eu ouvia as pessoas dizendo a expressão coloquial: “Inês é morta “. E ficava chocada! Não gostava nem um pouco de ouvir isso. Reagia dizendo “Estou bem viva!”

Mais à frente, quando já freqüentava o ensino médio tive um ótimo professor de língua portuguesa, a quem chamávamos, carinhosamente, de Profº Terrinha (Luiz Alberto Sarmento Terra). Eu sempre gostei de falar e rir muito. Daí que promovia uma certa algazarra no fundo da classe. O Profº Terrinha identificava minhas risadas. Enquanto escrevia na lousa, de costas para os alunos, algumas vezes ele declamava em voz alta os versos de Camões:”..estava linda Inês posta em sossego…”. Era a senha para eu ficar em silêncio. E assim fui crescendo e apaixonando-me pela bonita língua portuguesa. Gosto muito de ouvir o som da nossa fala portuguesa, bastante musical.

Para encerrar, convido-o (a) a ouvir a maravilhosa música de A. Travadinha (1941-1987), um violinista popular de Cabo Verde. Era autodidata e tocava canções tradicionais locais, as mornas e coladeras. Escolhi um lindo samba deles intitulado ” Flor Formosa “.  Para ouvi-lo bastará clicar no link abaixo indicado:

 

E você, caro(a) leitor (a), tem alguma opinião sobre a lusofonia?

Inês do Amaral Buschel, em 23 de setembro de 2015.

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