ALTRUÍSMO: qual é o significado dessa palavra  

Desde ainda jovem intrigava-me a atitude de benemerência praticada por pessoas públicas de notório mau caráter. Grandes sonegadores (as) de impostos, empresários e políticos corruptos (as) ou pessoas de famílias abastadas mas de péssimo comportamento social – no passado e no presente –  tinham e tem seus nomes gravados em lindas placas metálicas, que adornam os pátios de entradas de prédios públicos ou privados. Daí pensava eu com meus botões: que bonito, hein!! Tão espertos que conseguem se passar por benevolentes!altruismo-reciproco-thumb-500x356-211852

A partir de então, mantenho um pé atrás de ações de caridade. Procuro sempre saber qual é a motivação da pessoa que assim age desprendidamente, com abnegação. E aos poucos descobri que, como regra, são boas pessoas que almejam apenas entrar no reino dos céus e ter paz na eternidade. De uma maneira geral, são pessoas religiosas que praticam atos de caridade com prazer, e outras como uma espécie de penitência ou sacrifício. Fazem o bem sem olhar a quem.

Bom Samaritano, por Van Gogh

Bom Samaritano, por Van Gogh

Na minha caminhada, todavia, também observei que por outro lado há milhares de pessoas anônimas ou não, que tem comportamento cooperativo com qualquer outra pessoa, mesmo que essa outra pessoa seja um estranho. Ajudam aos outros, aparentemente sem nenhum interesse pessoal. São cidadãos (ãs) ateus ou religiosos, indistintamente. Prestam ajuda muitas vezes assumindo riscos a si próprios. Penso que assim agem, porque entendem que é assim que todos os seres humanos deveriam agir numa sociedade civilizada.

Há pouco tempo, decidi estudar o assunto. Li vários livros e artigos sobre o princípio do altruísmo e descobri que o tema é muito complexo e, para minha surpresa, bastante político-filosófico-econômico. Por exemplo, quando comecei a pesquisar essa palavra “altruísmo”, caro (a) leitor (a), fiquei pasmada.

Há muitos cidadãos(ãs) brasileiros(as) – não por acaso maioria de paulistas – que fazem parte da classe dos bem de vida e, por isso, tem a sua disposição os espaços midiáticos para defenderem o ultraliberalismo econômico. Eles condenam, veementemente, a menor possibilidade de altruísmo.  De fato o povo tem razão ao repetir o refrão: “Quanto mais rico, mais ridículo.”sangue2

Essas pessoas egoístas querem que os altruístas vão para o meio do inferno e, se pudessem, os jogariam todos ao mar. Enaltecem o egoísmo individualista e  consideram essa atitude como a mola propulsora do progresso social, da produção de riquezas!! Acho que a máxima que rege a vida desse pessoal é aquele velho ditado europeu que diz: “Cada um por si e Deus contra todos“.

Bem compreensível aliás essa postura deles, haja vista que o princípio que orienta o sistema capitalista é o individualismo egoísta, visando a acumulação da riqueza. Se possível, fazendo isso por intermédio do sistema financeiro, pois nesse nicho do mercado vige a lei do menor esforço, não se exigindo do investidor muito trabalho. Não é preciso ocupar-se com a  produção industrial e criação de empregos para os proletários. Danem-se os pobres.

Auguste ComteEmbora ter encontrado essa turma liberal sem ética alguma tenha me aborrecido bastante, prossegui pesquisando e aprendi muitas coisas boas. Por exemplo, uma delas é que o princípio do altruísmo existe no mundo desde sempre, mas demorou para ser nomeado. Os registros históricos nos dão conta de que, a palavra altruísmo foi criada pelo filósofo francês Auguste Comte (1798-1857). Foi pensada a partir da palavra francesa “autrui “, de origem latina “alter ” que significa “outro”, daí resultando em altruisme (altruísmo).

A intenção de Comte foi criar um novo vocábulo para contrapor-se ao egoísmo individualista e, também, em oposição à caridade que ele repelia. Ele foi o criador do Sistema de Política Positiva e também fundou a Religião da Humanidade. Publicou, em 1852, o Catecismo Positivista para essa religião civil, e ali mencionou a expressão “vivre pour autrui “, ou seja “viver para outrem”, que viria a ser a máxima moral do Positivismo.

Ele era um pensador de linha conservadora e, por incrível que possa parecer, jamais se contrapôs ao sistema capitalista. Ele discordava da tese do pensador inglês Thomas Hobbes (1588-1679) sobre a natureza humana, resumida numa sentença latina: “O homem é o lobo do homem ” .

Tendo sido criada no contexto político-social pós-Revolução Francesa, na primeira metade do Século XIX, naturalmente, o significado dessa palavra já sofreu alguma evolução semântica. Vejamos sua definição atual no Vocabulário  Técnico e Crítico da Filosofia (André Lalande, Edit. Martins Fontes,1993):

(A) Psic. Sentimento de amor para com o outro: quer seja aquele que resulta instintivamente dos laços que existem entre os seres de uma mesma espécie, quer aquele que resulta da reflexão e da abnegação individual. Compreende segundo o Quadro do Catecismo positivista a dedicação, a veneração, a bondade;

(B) Ética. Doutrina moral, oposta ao hedonismo, ao egoísmo e numa certa medida ao utilitarismo (na medida em que este não requer, em princípio, nenhuma outra instância moral além da procura, por parte do agente, do seu verdadeiro interesse): teoria do bem que coloca no ponto de partida o interesse de nossos semelhantes enquanto tal como objetivo de conduta moral. Cf. as fórmulas de Comte: “Viver para outrem – O Amor como princípio, a Ordem como base, o Progresso como objetivo, etc.”

E o que se entende por egoísmo? Vejamos isso no mesmo Vocabulário (André Lalande) :Egoismo

(A) Metafísica. A doutrina que considera a existência dos outros seres como ilusória ou duvidosa. Wolff divide os idealistas em egoístas e pluralistas: tendo esta utilização caído em desuso, apenas nos servimos hoje do termo neste sentido ao dizer egoísmo metafísico e tende-se mesmo a abandonar essa expressão pela de solipsismo;

(B) Psic. Amor de si, tendência natural para se defender, se manter, se desenvolver. É nesse sentido que, entre os sentimentos, se opuseram as inclinações ou as emoções egoístas às inclinações ou as emoções altruístas, sem introduzir nestas palavras nenhuma intenção apreciativa (Comte, Spencer). Alguns psicólogos evitam contudo este uso da palavra devido ao sentido “C” que é o mais usual, e dizem inclinações pessoais ou individuais;

(C) Moral. Amor exclusivo ou excessivo de si; característica daquele que subordina o interesse de outrem ao seu próprio e julga todas as coisas do seu ponto de vista;

(d) Ética. Teoria que faz do interesse individual o princípio explicativo das idéias morais e o princípio diretor da conduta.

0,,26204016-FMM,00Penso que uma atitude altruísta é o inverso da egoísta e, antes de qualquer coisa, pressupõe a decisão livre e autônoma de uma pessoa a aceitar o fato de que ela é apenas um indivíduo, que vive no meio de uma pluralidade de outros indivíduos semelhantes. Por isso, ao identificar-se como os demais, na necessidade ajuda-os mesmo tratando-se de indivíduos estranhos a ele (a). Faz essa escolha certamente baseando-se numa norma moral internalizada.

Um indivíduo altruísta jamais será um racista, pois ele identifica-se com todos os seres humanos sejam eles de quaisquer etnias. Lembrei-me agora da palavra africana “ubuntu“, sobre a qual já escrevi neste blog, e que significa ” Uma pessoa é uma pessoa por intermédio das outras pessoas”. É esse conhecimento filosófico que, certamente, impulsiona o agir de um altruísta em prol de alguém que necessita de sua ajuda.

Há cientistas e pesquisadores da teoria evolucionista darwinista que buscam algum indício de genes altruístas nos seres humanos. Baseiam-se em algumas espécies animais que, comprovadamente, agem com altruísmo, tais como os golfinhos, algumas aves, abelhas, formigas etc.

Parece-me que o princípio do altruísmo é gênero do qual as virtudes e sentimentos humanos são espécies. Por exemplo, você pode ser uma pessoa generosa, mas não necessariamente uma pessoa altruísta. Você pode tomar atitudes generosas por sentir dó, piedade ou disposição para ajudar. Mas faz isso só vez ou outra. Por outro lado, a generosidade pode mascarar um interesse pessoal futuro. Observe, então, caro (a) leitor (a) que o altruísmo não é singelamente um sinônimo de solidariedade, caridade, generosidade, gentileza, filantropia, benevolência ou beneficência.

Haiti

Nem sempre o comportamento fraterno praticado entre membros de uma família ou entre amigos, poderá ser identificado como atitude altruísta. Isso porque nesses casos, em regra, há interesse pessoal na proteção ao grupo específico. A generosidade é para com os seus apenas.

Essas são virtudes e sentimentos voluntários de seres humanos movidos pela boa vontade e, por que não, às vezes com algum interesse pessoal; ao passo que altruísmo tem a conotação de um dever racional de humanidade, disposição consciente e não baseada na virtude. É escolha livre de conduta pessoal perene. É uma forma peculiar de colocar-se no mundo.

Antes de prosseguir, trago aqui para você caro (a) leitor (a) um link para que possa assistir – se desejar, claro – a uma palestra do monge budista Matthieu Ricard, gravada em outubro de 2014 na plataforma TED/USA, com duração de 16 min e legendas em português. Bastará clicar abaixo e desfrutar da simpatia e sabedoria dele:

https://embed-ssl.ted.com/talks/lang/pt-br/matthieu_ricard_how_to_let_altruism_be_your_guide.html

Esse pesquisador acaba de lançar um livro de sua autoria, aqui no Brasil, com o título de ” A Revolução do Altruísmo “, pela Editora Palas Athena/SP.

Muito profundo tudo isso, não achas? Mas, trata-se de assunto muito sério e devemos compreender seu significado para não errarmos. Penso até que nossa sobrevivência neste mundo moderno e ao mesmo tempo tão arcaico e conturbado, dependerá dessa compreensão. Não poderemos continuar nos matando ou prejudicando uns aos outros. Isso é atitude irracional. Todos sucumbiremos e não haverá ninguém para contar como foi que tudo aconteceu. A maldade existe, é real e concreta. Precisa ser combatida, diuturnamente, por todos aqueles que aceitam o princípio do altruísmo.

O filósofo grego Aristóteles ensinou-nos que ” Os extremos são vícios. No meio deles é que está a virtude.” Portanto, nem tanto ao mar e nem tanto à terra. Temos de ponderar nosso altruísmo e nosso egoísmo. Menos exagero no auto-sacrifício para que outros vivam bem, e menos ganância deixando a maioria das outras pessoas a ver navios.Dom Quixote

Vamos raciocinar coletivamente, tomando um exemplo interessante. Se você caro (a) leitor (a) já andou de avião, certamente ouviu a advertência feita pela aeromoça instruindo-nos de que “em caso de despressurização máscaras individuais de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma delas para liberar o fluxo, coloque sobre o nariz e a boca, ajuste o elástico e respire normalmente, auxilie crianças ou pessoas com dificuldade somente após ter fixado a sua. Coloque primeiro a sua e só então auxilie quem estiver a seu lado” .

Nesse caso, pode parecer-nos uma atitude egoísta, todavia é de extrema importância que sigamos a regra, pois poderemos em seguida auxiliar os seres vulneráveis que estejam a nossa volta. Para poder ajudar aos outros, primeiro temos de estar bem.

Numa outra situação, diametralmente oposta a essa acima,  sabemos que há um crime denominado “omissão de socorro“. Não prestar socorro é crime. Qualquer pessoa, mesmo o leigo na área da saúde, tem o dever de ajudar um necessitado ou acidentado ou chamar socorro de autoridade pública. Esse crime está previsto nos artigos 135 e 135-A do Código Penal Brasileiro, bem como no artigo 304 do Código de Trânsito.

Então, socorrer a estranhos em situação difícil é uma obrigação. Se você for egoísta ou indiferente à dor alheia, será criminalizado por essa atitude. Trata-se de um comportamento covarde e reprovado pela maioria das pessoas.

Os PensadoresO incentivo para a tomada de atitudes altruístas é muito antigo. O mestre chinês Confúcio, que viveu entre os anos 551 e 479 a.C, já ensinava aos seus discípulos o seguinte: “Aquilo que não desejas para ti, também não o faças às outras pessoas “.

Esse ensinamento correu mundo e acabou sendo apropriado pelas religiões ocidentais monoteístas, tais como o judaísmo: “Não faças aos outros o que tu não queres que te façam“; e o cristianismo: “Tudo o que vocês querem que as pessoas façam a vocês, façam-no também a elas “.

Por fim, também o filósofo alemão Kant (1724-1804) criou o imperativo categórico ético: “Age de tal modo que tu uses a humanidade, tanto em tua pessoa quanto na de qualquer outra pessoa sempre como um objetivo e nunca como um simples meio ” .

Compreender o princípio do altruísmo é bastante difícil. Espero ter conseguido transmitir um pouco daquilo que aprendi.

Para finalizar, trago aqui para você caro (a) leitor (a) o link de um maravilhoso momento musical, gravado pela TV Globo no ano de 1981. Clicando ali, você poderá ouvir nosso saudoso cantor Nelson Gonçalves cantando a canção “Dono das Calçadas“, ao lado de um dos compositores da música, o genial Nelson Cavaquinho que a compôs em parceria com o grande Guilherme de Brito:

 

Inês do Amaral Buschel, em 18 de julho de 2015.

E viva outro Nelson, o Mandela, um ser altruísta! Hoje celebra-se no mundo o Mandela Day, data de seu nascimento: http://www.mandeladay.com/

 

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