É MELHOR ACENDER UMA LUZ, QUE RECLAMAR DA ESCURIDÃO

Gosto muito de provérbios, ditados populares, sentenças latinas etc. Penso que, muitas vezes, essas frases nos ajudam a compreender ou explicar melhor uma situação mais complexa. Por vezes essas locuções são utilizadas como simples clichês, mas também é possível usá-las com sabedoria. A organização ANISTIA INTERNACIONAL por exemplo, utiliza como seu lema a frase em inglês: “It is better to light a candle than to curse the darkness ”  que, traduzida para a língua portuguesa, é a frase que dá  título para este post. O pessoal da Anistia foi muito feliz ao escolher esse ditado popular.anistia_internacional

Nunca fui uma pessoa com o hábito de reclamar de tudo ao meu redor. Nem por isso deixo de reivindicar o que me é de direito. Mas neste caso não se trata de reclamação à toa. Acho aborrecido ocupar o tempo dos outros reclamando, reclamando de tudo e de todos. Prefiro tomar alguma atitude e dar fim a uma situação que, porventura, esteja me provocando angústia.

Procuro sempre arranjar alguma saída nobre, dou a volta por cima e sigo meu caminho. Sem alarde e sem reclamar. Sem ser rabugenta. Evito aborrecer a vida dos outros. A vitimização é paralisante e não me agrada. Detesto transferir a culpa de erros meus para os outros. Aprendi a reconhecer meus erros, pedir desculpas e procurar – quando ainda possível – reparar o prejuízo causado. E toco meu barco.

constituicao_port_cataMinha inspiração constante é o princípio da legalidade escrito no artigo 5º, II, da Constituição brasileira: ” ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;”.  Quando, numa situação normal de paz, alguém me contraria e quer obrigar-me a fazer algo que não desejo, logo pronuncio esse mandamento constitucional em minha defesa. Se não há lei que me obrigue a fazer algo, só faço se quiser e se for da minha conveniência. Evito constranger alguém e não gosto de ser constrangida.

Quando me vejo numa enrascada, lembro-me do saudoso e admirável advogado sul-africano Nelson Mandela e penso: se ele estivesse nesta mesma situação em que me encontro, o que ele faria, como agiria? E sempre me vem à mente alguma solução razoável para meu dilema.

Bem, mas não é só disso que desejo falar agora. É que ando aflita com a progressão da delinquência juvenil neste mundo moderno em que vivemos. Tenho parado para refletir, pois não quero só ficar reclamando, reclamando da violência urbana. Em vez de reclamar temos de pensar sobre esse fenômeno social e achar solução para ele. Sei que desde que o mundo é mundo, há crimes cometidos por jovens. Mas hoje, com a enorme rapidez dos meios de comunicação social de superpopulacao_realidade_abre325x167massa, logo tomamos conhecimento desses fatos. E, agora, temos também o problema da superpopulação, pois já ultrapassamos o número de 7 bilhões de seres humanos no planeta, bem como há o esgotamento dos bens ambientais oferecidos pela natureza.

E o pior de tudo: escasseiam-se a cada dia os empregos formais. Não há trabalho digno para todos. Nesse vácuo entra o crime organizado que explora o tráfico de drogas, e dá “emprego” aos nossos jovens. Sobre essa calamidade social, livro7recomendo a leitura do livro “Vidas Arriscadas – O cotidiano dos jovens trabalhadores do tráfico “, de autoria da psicóloga paulista, Marisa Feffermann, editora Vozes/RJ, 2006. Essa obra trata de uma ampla pesquisa de campo feita pela autora, na periferia da cidade de São Paulo.

Por que alguns adolescentes cometem crimes bárbaros? O que se passa em seus cérebros e mentes para optarem pela trilha do crime? Nascem predestinados? Receberam educação adequada mas recusaram os ensinamentos recebidos? Por que? Como poderemos evitar ao máximo a ocorrência desse comportamento criminoso? Isso é possível? Precisamos proteger futuras vítimas e cuidar daquelas que já sofreram danos assim como seus familiares.

Darei alguns exemplos de crimes recentes, ocorridos no Brasil e fora dele, sobre os quais neste momento reflito: (1) há pouco mais de um mês, quatro adolescentes pobres e um adulto foragido da Justiça, juntaram-se para atacar, estuprar e matar quatro meninas-adolescentes, todos moradores numa cidade pobre chamada Castelo do Piauí, localizada no estado do Piauí, região nordeste do Brasil. Uma das meninas morreu e as outras três sobreviveram; (2) no mês de maio p. passado, uma menina de doze anos, foi vítima do crime de estupro praticado por três outros colegas adolescentes, dentro do banheiro da escola pública onde todos frequentavam, localizada num bairro da zona leste da cidade de São Paulo, estado de SP; (3) há poucos dias um jovem de 21 anos, estadunidense, branco, de classe média, disparou uma arma e matou nove pessoas que rezavam dentro de uma igreja da comunidade negra localizada na cidade de Charleston, no estado da Carolina do Norte, na região sudeste dos EUA; (4) recentemente temos recebido notícias que nos dão conta de que vários jovens, de classe média, – homens e mulheres – tem fugido de casa para juntarem-se aos bandos de fanáticos filme-poesia6islamitas que cometem atrocidades no Oriente Médio; (5) o ótimo filme sul-coreano “Poesia “, dirigido por Lee Chang-dong, lançado em 2010, nos dá conta de um fato real ocorrido em Seul, pois narra sobre um crime de estupro cometido por vários adolescentes, contra uma colega também adolescente, dentro do ambiente escolar.

É claro que muitos comportamentos desviantes são fruto do abuso de álcool e outras drogas, conjugado com o fácil acesso a armas de fogo ou  facas. Todavia, além disso, vê-se que alguns desses delinquentes sofrem de transtornos psíquicos não tratados, e outras vezes eles vivem na pobreza extrema. Por vezes são de famílias de classe média, mas que são desestruturadas ou negligentes com seus filhos. Há muitos adolescentes abandonados em virtude de doença,  morte ou prisão de seus genitores etc etc Há, ainda, muitos outros adolescentes problemáticos, sendo criados por suas avós idosas, viúvas e solitárias, que não tem forças e autoridade para orientá-los, controlá-los ou reprimi-los quando necessário. Os pais desses adolescentes não raras vezes trabalham muito, e em lugares distantes da moradia da família.

Ao lado disso tudo, há o universal problema da maternidade precoce, fruto da gravidez em adolescentes que são abandonadas por seus parceiros, muitos deles também adolescentes. Sem esquecer que essas mães podem ter sido vítimas de abusos sexuais, crimes – infelizmente – corriqueiros no mundo todo. Essas crianças que são frutos da violência sexual cometidas contra suas mães, nascem em situação de extrema vulnerabilidade emocional. Nem sempre são bem recebidas por seus familiares e sofrem a rejeição.

Enfim, quero concluir dizendo que muitos desses jovens delinquentes vivem em ambientes bastante hostis e sem afetos. E também vivem sem assistência social alguma, nem médica, nem psíquica ou nutricional. Nada disso justifica seus atos criminosos e, é lógico, que deverão responder por seus atos infracionais perante a Justiça Pública. Devem ser processados e julgados. Porém,  essas situações acima descritas, podem nos dar pistas e caminhos para compreender seus comportamentos anti-civilizatórios. Com esses dados poderemos, ao menos, tentarmos encontrar uma luz no fim do túnel. Precisamos, urgentemente, evitar a repetição desses crimes no futuro. Não adianta apenas blasfemar, reclamar, xingar ou ameaçar linchamentos. É preciso agir com inteligência.

e-tarefa-de-uma-aldeia-clinton-hillary-No meio desses meus pensamentos, veio-o me à mente um outro bom provérbio, lá da África, que diz: “Para educar uma criança é preciso uma comunidade inteira “. Aliás, por falar nesse provérbio, a advogada e política estadunidense Hillary Clinton escreveu um livro contando suas experiências no campo educacional e, inspirada nesse ditado, deu ao livro o título “It takes a village “, que traduzido para a língua portuguesa tornou-se “É tarefa de uma aldeia” (1997, Editora Revan/RJ).

Penso, sinceramente, que a sociedade moderna tem negligenciado os cuidados necessários à toda e qualquer criança, seja ela oriunda de família pobre, rica ou remediada. Não podemos deixá-las sob a responsabilidade apenas de suas famílias nucleares e tampouco só das escolas. Elas precisam de mais que isso. Necessitam sentir que noroeste_38pertencem de fato a uma comunidade inteira e que dentro delas estarão protegidas. Devem aprender que tem direitos e também tem deveres para com os outros. E deveremos ensinar-lhes, desde pequenos, brincadeiras, jogos coletivos, música e canto, enfim, esportes, arte e cultura. Aliás, como sempre fizeram os povos indígenas brasileiros com suas crianças (curumins). Deveremos ter a humildade de aprender com eles.

Nenhum a menosAs escolas públicas, privadas ou filantrópicas deveriam guiar-se também pelo exemplo mostrado no lindo filme chinês ” Nenhum a menos “, dirigido por Zhang Yimou, lançado em 1999. Nessa história, o professor preocupado com a evasão escolar, impõe a regra do extremo cuidado para que nenhum aluno desista das aulas. E, se por acaso, isso vier a ocorrer, o (a) professor (a) deverá sair em busca desse aluno, sem medir esforços.

E como faremos isso? Bem, mais uma vez digo-lhe caro (a) leitor (a), que não conheço o caminho do céu. Portanto, teremos de pensar juntos. Cada um de nós deve cooperar para uma cultura de paz e o sentimento do justo. Há muitos adolescentes fora da escola e distantes da prestação de serviços voluntários, bastante conhecida como geração ” nem-nem “, ou seja,  nem estudam, nem trabalham. E, ao lado disso, ocorre também o oposto, que é o crime do trabalho análogo à escravidão, praticado por adultos contra crianças e jovens. Enfim, acontece muita coisa errada em nossa sociedade nada cordial. Mas uma coisa é certa, para começarmos essa luta pela paz social, inevitavelmente, teremos de prestigiar nossos professores que são tão maltratados hoje em dia e, por outro lado, fortalecer a infraestrutura de nossas escolas.

Li, recententemente, um belo livro intitulado “O manifesto do Altruísmo – Questionamentos políticos, sociais e filosóficos sobre o individualismo e a necessidade do coletivo “, de autoria do cientista-biólogo francês Prof. Philippe Kourilsky , obra traduzida para o português por Luana Pagin, e publicado pela editora Elsevier/Campus/RJ, 2012. O autor centra seu o manifestotrabalho na questão da “altruidade” um neologismo que criou em paralelo à palavra altruísmo. Altruidade para ele é um  dever racional que se contrapõe ao excessivo liberalismo atual, enquanto o altruísmo é uma virtude humana que é praticada, voluntariamente, por pessoas generosas que vão em auxilio de seus semelhantes. Vale a pena sua leitura. Nos inspira e ajuda a pensar.

Finalizando, penso que construir uma nação desenvolvida é tarefa de cada um de seus cidadãos, sejam eles pobres, classe média ou milionários, sem exceção alguma. Cada um faz a sua parte com seriedade e alegria. Mãos à obra.

Caso você caro (a) leitor (a) tenha tempo para isto, ouça a linda música de autoria do nosso compositor Chico Buarque, intitulada ” Meu guri “, na linda voz e interpretação de nossa sambista Beth Carvalho. Dê um clique no link abaixo:

 

E você caro (a) leitor (a), ajuda alguém ou só reclama de tudo e de todos?

Inês do Amaral Buschel, em 22 de junho de 2015.

 

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