EU SE FIZ POR SI , ou “self-made-man/ woman “: a ilusão dos individualistas

Embora a expressão acima escrita esteja gramaticalmente incorreta, foi a maneira mais fácil e engraçada que encontrei para me fazer entender. Há tempos venho refletindo sobre a ilusão de muitas pessoas, que acreditam ter alcançado o lugar almejado por elas na sociedade em que vivem, por simples mérito pessoal e ajuda divina. Ignoram, solenemente, as políticas públicas do Estado existentes naquele momento de sua conquista individual e, por vezes, também ignoram o incentivo de suas famílias, as contribuições da coletividade no passado e no presente, enfim, atribuem sua “vitória” pessoal ao próprio esforço e muita oração. Acreditam, piamente, que a política governamental vigente e a história da Humanidade nada tem a ver com isso. Santa ignorância política. Não se dão conta de que o Estado interfere até mesmo na sua vida íntima.

Valerá a pena dar um clique no link abaixo, que se reporta a uma pesquisa em 2014:

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-04-24/maioria-dos-brasileiros-acha-que-a-vida-melhorou-mas-foi-por-esforco-proprio.html

É claro que eu sei que há no mundo muitas pessoas que se esforçam, individualmente, mais do que outras. Reconheço o mérito pessoal. Sei também que ter fé e rezar é de uma ajuda incomensurável para a maioria. Mas o segredo dessas pessoas que vencem obstáculos sociais e realizam seus sonhos, penso eu, é ter usado de sua própria inteligência e ter enxergado as oportunidades que, não só sua família – bem ou mal estruturada – lhe oferece, mas também a infra-estrutura estatal – os genio-da-lampadaserviços públicos – que os governos municipais, estaduais e federal lhes disponibiliza.

Sem isso, só um “gênio da lâmpada ” seria capaz de vencer as dificuldades de sobrevivência que a vida impõe à maioria das pessoas sem herança alguma. Como nos dizia, ironicamente, o nosso Barão de Itararé (jornalista Apparicio Torelly) “ todos os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.”

15059282Pesquisa realizada  por Renato Meireles e Celso Athayde, autores do ótimo livro “Um país chamado Favela “, Editora Gente/SP, ano 2014,  mostra o quanto os moradores das favelas brasileiras também desconhecem a presença do Estado/Poder Público em sua trajetória. E negam o peso das lutas por conquistas de direitos empreendidas no passado por outros cidadãos, e que influenciaram positivamente as suas vidas. Também atribuem ao esforço pessoal e à ajuda divina suas conquistas individuais, ignorando as políticas públicas. Para 14% dos moradores das favelas a família é a principal responsável por sua evolução. Deus é citado por 40% deles. E para 42% desses moradores, sua ascensão social é resultado do próprio esforço. Para saber mais, clique no link :

http://datafavela.com.br/

O Estado, como instituição pública que organiza a sociedade civilizada, é imprescindível para a vida de todas as pessoas, sejam elas ricas, remediadas ou pobres. Embora os anarquistas odeiem a instituição estatal, o fato é que sem a presença do Estado haveria muito mais selvageria na sociedade humana. É o que penso. A presença do Estado regula, minimamente, nossos impulsos destrutivos. Porém, todas as pessoas devem estar bem informadas sobre as ações do Estado e suas políticas públicas, para assim poderem interferir em sua implementação. Como todos sabemos, o Estado pode destruir vidas também. Ele, dependendo das intenções de quem o dirige, pode causar bem-estar ou mal-estar à população. Cabe aqui lembrar do poeta Augusto dos Anjos quando disse: “A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

Aqueles que hoje são ricos e milionários, caso tivessem um surto de honestidade, admitiriam que sem a ajuda do Estado não teriam tido a oportunidade de acumular tanta riqueza. O apoio do Estado, com suas linhas de crédito, subsídios e Estado empreendedorincentivos fiscais etc, sempre lhes foi necessário. Até mesmo o regime de escravidão do povo negro, legitimado à época pelo Estado, lhes gerou uma riqueza infinita, que vige até hoje por intermédio de heranças. Se você caro (a) leitor (a) desejar saber mais sobre o poder do Estado, indico-lhe a leitura do livro “O Estado Empreendedor – Desmascarando o mito do setor público vs. setor privado“, de autoria de Mariana Mazzucato, editora Cia. das Letras, 2014.

Por outro lado, como poderiam os empresários contratar empregados para trabalhar para eles – na maioria das vezes com baixo salário – se o Estado não oferecesse escolas públicas e educação gratuita para as pessoas comuns do povo, os deserdados? Só assim os trabalhadores podem aprender a ler e escrever. Com o aprendizado adquirem competência para, ao menos, ler os manuais das máquinas e trabalharem para os outros. E, dessa forma, ganharem o próprio sustento. Esta é a realidade.

sala-de-aulaE quem sustenta essas escolas públicas? TODOS NÓS, o povo, a coletividade. Nós recolhemos impostos para que o Estado possa manter os serviços públicos e investir na infra-estrutura que poderá facilitar a vida em sociedade, tais como manter estradas asfaltadas, transporte público, pontes, ferrovias, portos marítimos, iluminação, usinas, hospitais, aparato policial etc etc. Sozinhos, sem a ajuda de alguma forma de serviço público,  estaríamos todos ainda hoje no meio do mato, robinson-crusoeenfrentando as intempéries e os bichos predadores tal qual o personagem literário “Robinson Crusoé“.

É nesse sentido que afirmo que ninguém, mas ninguém mesmo, torna-se uma pessoa civilizada sem a ajuda do Estado/Poder Público. Muitos dirão: sim, temos as igrejas que nos ajudam. Pois então, de fato as igrejas ajudam milhares de pessoas. Mas todas elas, as igrejas, também tem a ajuda indispensável do Estado, pois é ele quem as isenta do recolhimento de impostos. Se esse fato não consiste numa ajuda considerável, não sei o que significa ajuda do Estado. Bastará você examinar o artigo 150, VI, letra “b” da Constituição Federal brasileira, para saber que se proíbe a tributação de “ templos de qualquer culto ”. Mais não é preciso dizer. O Estado está dentro de nós.

Aliás, trago aqui para você caro (a) leitor (a), um vídeo bastante esclarecedor, onde a senadora democrata estadunidense, Elizabeth Warren, fala um pouco sobre isso. Infelizmente, é em inglês, com legendas também em inglês. Mas valerá a pena assisti-lo. Dê um clique aqui:

 

O que aborrece bastante é ver pessoas adultas, bem educadas e mal educadas também, não darem a devida importância para o Estado/governo e concluir que conseguiram tudo o que possuem sozinhas, por esforço próprio e ajuda divina. Estudam em Universidades públicas e acham que esse mérito é só pessoal. São incapazes de imaginar que para a existência de Universidades públicas a comunidade lutou muito antes dele(a) nascer e que ele(a) deve isso a esses batalhadores do passado. Se estudam em Universidades privadas caras e de prestígio social, além do mérito pessoal, também devem essa oportunidade aos familiares que o sustentam, aos empreendedores que as criaram, mas também ao Estado que fiscaliza a qualidade do ensino e organiza a cidade onde vivem esses estudantes .

women_clip_image008E, pior ainda, desconhecem também que, se a gestão governamental for indiferente às pessoas comuns muito pobres, e não combater a obscena desigualdade de renda/social que gera violência na vida em comunidade, dentro de pouco tempo estaremos todos mortos, por tiros, facadas ou pela fome. O Estado, por intermédio dos governos federal, estaduais e municipais, precisa contribuir fortemente para reduzir nossa desigualmente social. Isso, o combate à desigualdade social, para nós aqui no Brasil, por exemplo, é OBRIGAÇÃO constitucional. Manda o artigo 3º, III, da Constituição Federal que, entre os objetivos a serem alcançados em nossa República está “ERRADICAR A POBREZA E A MARGINALIZAÇÃO E REDUZIR AS DESIGUALDADES SOCIAIS E REGIONAIS; ”

É por isso que o governo federal brasileiro criou políticas públicas  de transferência de renda para ajudar os que nada tem. É justo e necessário, para a dignidade das pessoas inclusive, que aqueles que por infortúnio vivam à margem da sociedade desde o nascimento ou por desemprego, desastres climáticos, doenças incapacitantes etc, obtenham uma pequena ajuda básica do Estado. Com isso poderão ter, minimamente, a liberdade de recusar-se à escravidão em troca de um prato de comida, por exemplo.

Quem em sã consciência poderá ser contra essa ajuda mínima? Só os hipócritas que crêem ter conquistado seu próprio bem-estar pelo esforço pessoal e sem a ajuda do Estado ou da coletividade. Fizeram sua “revolução particular ” e dane-se o outro que nada tem.  Falta compaixão e inteligência a estas pessoas. Além de egoístas são idiotas. Não entendem que eles mesmos devem muito à coletividade, ao Estado/governo e muitas vezes às heranças deixadas por seus próprios familiares.

Há um excelente quadrinho de autoria do ilustrador  Toby Morris,  com tradução livre da Catavento que explica bem o que quero dizer:

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Apenas para esclarecer um pouco essas questões, trago aqui caro(a) leitor(a) um link , caso queira compreender melhor o programa brasileiro de transferência de renda para a população que vive na pobreza. Dê um clique:

http://brasildamudanca.com.br/bolsafamilia/mitos/

Muitos estudantes de nível universitário, pertencentes à classe média trabalhadora, por exemplo, ignoram, solenemente, que só ingressaram numa Faculdade porque o Estado/governo regulou a isenção fiscal concedida às Universidades privadas e criou o PROUNI. E, dessa forma, propiciou a abertura de vagas para os estudantes pertencentes às famílias de baixa renda, e que se submeteram ao exame público do ENEM.

http://prouniportal.mec.gov.br/o-programa

Muitos estudantes do PROUNI ou com bolsas do FIES ignoram a intervenção estatal que proporciona a melhoria da vida deles. É lastimável. Não sabem sequer quem são seus verdadeiros adversários ou mesmo inimigos. Muitos são despolitizados e votam sem plena consciência social. Alguns, após terem ingressado numa Faculdade, começam a identificar-se com os colegas de classe média abastada,  mimetizando seus padrões de consumo, moda e comportamento. Esse fenômeno social poderá significar um desastre no parco orçamento familiar e trazer sofrimento.

estudoEnfim, fico desolada com a falta de conhecimento político de grande parte do povo brasileiro adulto e escolarizado. Penso que essa desinformação é devida a falhas das instituições públicas e privadas. Não só da escola e dos partidos políticos, claro, mas também da radiodifusão, pois numa sociedade de massas os meios de comunicação eletrônicos tem sua parcela de responsabilidade na prestação de serviços públicos educativos.E, por que não dizer, há muita displicência e falta de interesse das pessoas em aprofundar-se nos estudos, para conquistar novos conhecimentos. Mas o que percebo também entre nós, na maior parte das vezes, é a propagação da idolatria ao dinheiro, à acumulação da riqueza. Como bem diz um empresário brasileiro, Ricardo Semler (PSDB), o culto ao “King Cash “, ou seja ao “Rei Dinheiro “. Só podemos concluir que vigora por estas terras o capitalismo selvagem, sem freios.moeda-300x207

Um famoso jornalista estadunidense chamado H.L. Mencken ( 1880-1956) até inventou uma palavra bem agressiva, mas interessante, para denominar as pessoas que possuem bastante dinheiro mas nada entendem de política, os “booboisies “. Essa palavra foi por ele composta usando duas outras: a francesa “bourgeoisie ” (burguesia) e o adjetivo inglês “boob ” (estúpido). Cidadãos tolos, caipiras e simplórios.

O Estado brasileiro só não é mais rico e organizado porque sempre houve e continua havendo, muita corrupção praticada no âmbito público e privado. E, principalmente, em conseqüência da sonegação dos impostos, que se constitui num crime contra a ordem tributária, previsto em lei e com pena de reclusão. Para ler o texto desta lei bastará clicar no link a seguir :

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8137.htm

E, se desejar saber mais sobre sonegação de impostos, dê um clique no link indicado abaixo:

http://www.quantocustaobrasil.com.br/

Pessoalmente, acho que muita gente desconhece o poder contido no seu próprio voto e acabam elegendo qualquer candidato para os cargos do Poder Executivo e Legislativo. E os nossos governantes eleitos podem, tanto nos ajudar na vida pessoal e comunitária como também nos prejudicar muitíssimo. Os demais administradores do Estado que não são eleitos pelo voto, mas obtém seus cargos por concurso público, tais como os integrantes do Poder Judiciário (juízes de Direito) e membros do Ministério Público (promotores/procuradores de Justiça), também podem nos causar bem-estar e mal-estar coletivo. Por isso suas atuações devem também ser observadas e controladas de perto por todos nós, os cidadãos/jurisdicionados.

Finalizando, convido você caro(a) leitor(a) a alegrar-se ouvindo uma bela canção brasileira, cujo título é “Pecado Capital”, de autoria do nosso grande sambista Paulinho da Viola, em sua própria voz:

 

E você caro(a) leitor(a), fora o Imposto de Renda, claro, percebe o poder do Estado no cotidiano de sua vida?

 Inês do Amaral Büschel, em 25 de março de 2015.

 

 

 

 

 

 

 

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