OLIVER SACKS, nunca te vi, sempre te admirei

No último dia 19 de fevereiro de 2015, fui tomada pelo impacto ao ler a carta de despedida do Dr.Sacks. Nela, com o título de “Minha própria vida “, ele faz uma declaração de amor à vida e confessa que tem pouco tempo pela frente. Descobriu, após uma biópsia, que há uma metástase grave no seu fígado, derivada de um tumor maligno – um melanoma – encontrado em seu olho direito no final do ano de 2005.

Li sua carta e desatei a chorar. Chorei muito. Chorei por ele e por mim. Depois de um tempo, enxuguei minhas lágrimas, respirei fundo e segui em frente. Na rotina diária. Chorar nos faz bem, é um momento de desabafo da angústia sentida, mas não podemos nos exceder. A vida tem de ser vivida e sem muito choro. Afinal, como dizia Benjamin Franklin, pensador e cientista estadunidense do Século 18, “Amas a vida? Então não desperdices o tempo, pois é dele que a vida é feita.” É bonito viver. Ao menos quando não se sente muita dor. A dor física, quando grande e inevitável, nos faz mudar de idéia. Neste caso já não será tão bonito viver. É o que penso.

As palavras escritas por Dr. Sacks são de uma grandeza humana indescritível. Aqui, de tão longe, fico torcendo para que ele não sinta dor física, e consiga viver feliz o tempo que lhe restar. Se você caro (a) leitor (a) não teve oportunidade de ler essa carta, poderá lê-la integralmente, em português, clicando no link abaixo:

http://jornalggn.com.br/noticia/minha-propria-vida-por-oliver-sacks

Conheci o Dr. Sacks apenas em 1990 quando do lançamento do excelente filme “Tempo de Despertar ” (Awakenings). Esse filme foi dirigido por Penny Marshall e o roteiro elaborado por Steven Zaillian foi baseado no livro do mesmo nome, escrito por Oliver Sacks e publicado no ano de 1973 nos EUA. Dr. Sacks é inglês por nascimento, mas desde 1960 vive na cidade de Nova Iorque. É médico neurologista, psiquiatra, antropólogo, professor universitário e escritor. Um homem sensível, de bom humor e muito inteligente. Se você caro(a) leitor(a) deseja saber mais sobre o filme acima mencionado, clique aqui:tempo_despertar

http://pt.wikipedia.org/wiki/Awakenings

Depois de assistir ao filme, eu passei a ler seus livros que foram sendo traduzidos e publicados pela editora paulista Cia. das Letras. Aprendi muito, emocionei-me com os casos relatados por ele e também ri bastante. Ele escreve muito bem sobre ciência, numa linguagem acessível para leigos entenderem. Veja os livros dele já lançados no Brasil, clicando aqui:

http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00429

No ano de 1997, quando esteve visitando o Brasil para promover o lançamento de um de seus livros, Dr. Sacks gravou uma entrevista para a TV Cultura, no programa Roda Viva. Se desejar assisti-lo bastará clicar no link:

 

No ano de 2001 foi lançado o ótimo e premiadíssimo documentário brasileiro “Janela da Alma “, dirigido por João Jardim e Walter Carvalho, onde há dezenove entrevistas de pessoas com problemas visuais ou com modos peculiares de enxergar. E, entre elas, está lá o Dr. Sacks dando seu depoimento sobre a questão da nossa memória visual e sua umbilical ligação com nossa emoção. Ele ainda estava bem de saúde. Vale a pena conferir este filme. Informe-se clicando aqui:Capa_JaneladaAlma

http://www.copacabanafilmes.com.br/index.php/cinema/janela-da-alma/

Um dia, já há alguns anos, li uma notícia no jornal dizendo que ele estava enfrentando problemas sérios na visão. Procurei saber detalhes mas não consegui. Fiquei curiosa porque eu também estava enfrentando sérios problemas na visão do olho esquerdo. No mês de dezembro de 2005, aos 58 anos de idade, recebi o diagnóstico de melanoma de coróide. No mês seguinte, no dia 9 de janeiro de 2006 submeti-me à braquiterapia no Hospital A.C. Camargo aqui em São Paulo. A vida seguiu. No ano de 2009 minha filha criou este blog para eu escrever livremente o que desejasse. Num determinado dia, no ano de 2010, eu escrevi sobre o câncer, de uma maneira geral. Naquele texto apenas mencionei o que se passara comigo.

https://blogdaines.wordpress.com/2010/01/28/cancer-o-tumor-e-nao-o-signo/

Olhar da menteNo final daquele ano de 2010, ocorreram dois fatos importantes para mim: um internauta chamado Vitor, português residente em Algarve, leu aquele texto que escrevi e fez um comentário no sentido de que enfim encontrara alguém que tinha o mesmo problema de saúde dele: um melanoma da coróide; e, ao lado disso, eu terminara de ler o último livro publicado pelo Dr. Oliver Sacks, com o título ” O olhar da mente ” e descobrira, atônita, que ele também recebera o mesmo diagnóstico e fizera a braquiterapia no mesmo dia que eu fiz, mas lá no Hospital Memorial Sloam-Kettering, em Nova Iorque. Ele contava na época com 72 anos de idade e relata toda essa triste história num capítulo desse livro, nas páginas 131 a 178, com o título “Persistência da Visão – um diário“. Tanto o Vitor, como eu e o Dr. Sacks ficamos apenas com a visão monocular.

Na época fiquei muito emocionada com aqueles fatos. Refleti. Pensei em quantos casos semelhantes haveria no mundo. Imaginei a solidão dessas pessoas, pois como esse tipo de tumor no olho é raro, aqueles que sofrem desse mal não tem com quem trocar idéias sobre seu sofrimento. Decidi responder ao comentário do Vitor, lá de Portugal, e passamos a trocar experiências vividas. Até que um dia, inspirada também pelo relato do Dr. Sacks, eu resolvi abrir meu coração. Fiz um relato pormenorizado do meu caso e publiquei neste  blog. Serviria de alento para quem estivesse buscando alguma esperança.

Ao escrevê-lo chorei muito, doía-me a alma. Todavia, foi uma boa atitude e serviu-me como uma catarse. Ademais disso, a partir dali comecei a receber comentários de dezenas de internautas que, ou eram vítimas desse tumor ou algum parente o era, e assim acabei fazendo inúmeros amigos (a) virtuais. Esses fatos ajudaram-me muito e ajudam-me até hoje a tocar o barco de minha vida com mais leveza.

https://blogdaines.wordpress.com/2011/01/04/melanoma-de-coroide-c-69-3-ou-uma-pedra-no-meio-do-caminho/

Por tudo isso, fiquei muito tocada com a carta de despedida do Dr. Sacks. Lamento por ele e confesso que sinto medo por mim. Nada a fazer senão seguir em frente. Meu amigo virtual, o Vitor, também sofreu metástase no fígado e já deve ter falecido. A última notícia que recebi dele foi no mês de janeiro de 2012. Ele estava muito mal de saúde, com dores, e mesmo assim pela internet ainda enviava-me forças para enfrentar a cirurgia de enucleação do globo ocular, que eu faria no mês de fevereiro de 2012, porque meu melanoma ressuscitara. Tem muita gente boa neste mundo, felizmente. O Vitor lá de longe, do outro lado do Atlântico, com seus comentários bem humorados neste blog ajudou-me a suportar dissabores.

Conclusão: morre-se. Somos mortais. Seja por ordens da natureza, por acidente, por vontade própria ou alheia, um dia morreremos. E não gostamos de nos lembrar disso. Não sou uma pessoa mórbida que gosta de falar na morte, mas viver acreditando que somos imortais é para mim prova de insanidade mental. Uma alucinação. A humildade de reconhecer que estaremos neste mundo apenas por um tempo, é necessária para podermos viver em paz com os outros e conosco mesmo.

Ao Dr. Oliver Sacks só tenho a agradecer por tudo que nos mostrou e ensinou. Pela prazer que proporcionou e proporcionará aos leitores de suas obras. Pelas virtudes do bom humor e da humildade que sempre teve. E pela delicadeza de sua carta de despedida, tratando-nos como se fossemos seus amigos diletos e merecêssemos uma explicação. Foi dessa maneira que li sua carta, como se fosse uma sua amiga muito próxima. Ele estará para sempre dentro de meu combalido coração.

Para terminar, peço licença para reproduzir o final de sua carta que para mim é belíssimo:

“… Sinto cada vez mais consciência, nos últimos dez anos ou mais, de mortes entre os meus contemporâneos. A minha geração está partindo, e cada morte que eu tive, senti como um descolamento, a rasgar parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas também não há ninguém como qualquer outra pessoa, nunca. Quando pessoas morrem, elas não podem ser substituídas. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino – o genético e neural – de todo ser humano ser um indivíduo único, a encontrar o seu próprio caminho, para viver a sua própria vida, para morrer a sua própria morte.
 
Eu não posso fingir que não tenho medo. Mas o meu sentimento maior é de gratidão. Eu tenho amado e tenho sido amado. Eu tenho recebido muito e dei alguma coisa em troca. Eu li, e viajei, e pensei, e escrevi. Eu tive uma ligação com o mundo, aquela especial, entre escritores e leitores. 
 
Acima de tudo, eu tenho sido um ser sensível, um animal pensante neste belo planeta. O que, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.”arvore

 

De fato, cada um de nós é um ser único neste vasto mundo. Cada organismo humano reage de um jeito diferente frente às vicissitudes oferecidas pela vida. Por isso é imprescindível o respeito às nossas diferenças pessoais.

VIVA A VIDA! VIVA OLIVER SACKS!

ATUALIZANDO: Acaba de ser lançada no Brasil, mais uma obra escrita por Oliver Sacks. Trata-se de sua autobiografia, publicada pela Editora Cia. das Letras/SP, 2015, com tradução de Denise Bottmann.

Dr. Oliver Sacks faleceu no dia 30 de agosto de 2015.

 

Inês do Amaral Buschel, em 09 de março de 2015.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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