Filme ” O MERCADO DE NOTÍCIAS “, um documentário brasileiro

Em meados do segundo semestre do ano passado (2014) fui assistir a esse filme e gostei muito. Um documentário inteligente que provoca reflexão sobre o assunto. Se você caro (a) leitor (a) é uma pessoa interessada em acompanhar o noticiário diário, seja lendo jornais impressos ou pelas emissoras de rádio e TV, recomendo que assista a este filme. Ele exibe uma peça teatral e, concomitantemente, apresenta entrevistas com treze jornalistas brasileiros escolhidos pelo cineasta-diretor do filme, o gaúcho Jorge Furtado. O filme foi produzido em 2013 e tem a duração de 94 minutos.

A peça de teatro filmada é uma comédia de autoria do dramaturgo inglês Ben Johnson (1552-1637), contemporâneo de William Shakespeare (1561-1616) e intitula-se ” The staple of news “, tendo sido traduzida para o idioma português como ” O Mercado de Notícias “. A trama se desenvolve numa agência de notícias, em torno de dois pretendentes à mão de uma jovem rica que se chama, sugestivamente, Pecúnia. Ela tem quatro amas cujos nomes também são engraçados: Tagarela, Expectativa, Censura e Prazeres. No desenrolar da história vê-se a crítica do autor à credibilidade da notícia, bem como a avidez da sociedade por fatos corriqueiros.

Foi o próprio cineasta Jorge que encontrou esse texto por acaso, enquanto fazia pesquisas sobre o tema e, em parceria com professora Liziane Kugland, traduziram a peça para a língua portuguesa. Essa obra foi escrita em 1625, poucos anos após o início da atividade jornalística impressa no Reino Unido, que se deu a partir de 1622.

O documentário dirigido por Jorge Furtado já recebeu alguns prêmios e, se você caro (a) leitor (a) não conseguiu assistir ao filme nos cinemas pois, de fato, ficou muito pouco tempo em cartaz nas salas de cinema comerciais, poderá acessá-lo em locadoras virtuais ou adquirir o documentário em DVD. Foi o que eu fiz para poder revê-lo quando desejar. Para obter maiores informações sobre a peça teatral,  bem como para assistir às entrevistas dos jornalistas brasileiros na integralidade, sugiro a você clicar nos link:

http://www.omercadodenoticias.com.br/

Sou suspeita para dar opinião sobre as obras desse cineasta brasileiro, pois gosto de quase todas, sobretudo do premiadíssimo curta-metragem “Ilha das Flores “:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_das_Flores_%28curta-metragem%29

E gostei demais também –  não perdi um capítulo sequer – da telessérie  de catorze capítulos intitulada “Doce de Mãe ” exibida no início do ano de 2014 pela TV Globo, dirigida por ele e protagonizada por nossa grande artista Fernanda Montenegro:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Doce_de_M%C3%A3e_%28teless%C3%A9rie%29

Mafalda.radioBem, mas voltemos ao tema. Eu sou movida pela busca do conhecimento e de informações. Desde muito jovem ouvia rádio diariamente, logo ao despertar pela manhã para ouvir músicas. Até o vetusto programa noturno “A Voz do Brasil ” eu costumava acompanhar. Ainda criança ria muito ouvindo o famoso programa humorístico PRK-30. Depois, durante o ensino médio, iniciei-me na leitura dos jornais e revistas impressos e nunca mais os abandonei até hoje. Atualmente, também leio bastante e consumo noticiário utilizando a internet.

Mas, com o passar do tempo, o rádio e a TV foram perdendo a graça para mim. Não há mais a pluralidade de gosto e de idéias.Tornaram-se meios excessivamente comerciais e sua programação, em regra, tornou-se aborrecida, emburrecedora e indigesta. Já há algumas décadas não consigo ter prazer ouvindo rádio e muito menos assistindo TV. Acho que o excesso de publicidade está sufocando a ambos. Eu entendo que fazer programas de som e imagens seja muito custoso, e que é preciso buscar patrocínios para pagar os salários dos trabalhadores. Todavia é preciso ponderação nesse mercado pois, caso contrário, matarão “a galinha dos ovos de ouro”. Os ouvintes e telespectadores acabarão por abandoná-los.

Parece-me que houve uma “pasteurização ” da radiodifusão brasileira. Aliás, os jornais impressos também seguem essa mesma triste trilha. Todos, com raríssimas exceções, transmitem um pensamento único na linha neoliberal da economia. Ignoram, solenemente a lição de nosso dramaturgo Nelson Rodrigues que, um dia escreveu que toda unanimidade é burra. Só falam no mundo das finanças e há especulações político-partidárias conservadoras em demasia. É sempre o mesmo nhenhenhém.imprensa

Perderam a mão fazendo muitas futricas, fofocas, superficialidades, notícias criminais como espetáculo e muito entretenimento de gosto duvidoso. Espalham o medo. Sinto desânimo ao abrir o jornal pela manhã. Um desgosto sem fim para uma leitora contumaz. Tenho me desfeito de assinaturas de jornais e revistas. Resta-me apenas um. Não sei até quando. Lembrarei com saudades do tempo em que a mídia brasileira era mais diversificada, e eu sentia prazer ao ler os jornais, tomando o café-da-manhã.

Os comunicadores/prestadores de serviços dos oligopólios da mídia passaram a criminalizar a política diuturnamente e estão ferindo de morte a nossa jovem democracia. O que se seguirá não sei. Mas temo pelo pior, pelo estabelecimento do fascismo entre nós, os brasileiros. Os democratas convictos precisam começar a entoar a canção italiana “Bella ciao “, para ao menos exorcizar essa possibilidade. Se você não conhece essa música, dê um clique aqui e cante junto, pois seu ritmo é arrebatador:

 

Quero lhe contar uma história, caro (a) leitor (a). Logo após terminar o bacharelado em Direito, ingressei no ano de 1974 no curso de mestrado na Faculdade de Direito da USP, tendo como área de concentração o estudo do Direito Internacional. Essa é uma das áreas jurídicas que, mesmo estando hoje muito distante dela, aprecio demais. Todavia, devo dizer que à época essa disciplina era, pejorativamente, apelidada pelos alunos de “perfumaria jurídica “. Bom, mas o que quero lhe contar é que, num dos semestres do curso tivemos aulas com o professor emérito Vicente Marotta Rangel e, nessa aulas, ele nos introduziu nas questões candentes já àquela época, que era a poluição do meio ambiente humano.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Confer%C3%AAncia_de_Estocolmo

Contou-nos esse professor que na Conferência de Estocolmo realizada pela ONU no ano de 1972, a Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, uma das grandes preocupações era com a exigência do livre fluxo de informações científicas. Claro, porque sem informação de boa qualidade, como nós os seres humanos poderemos progredir na conquista de proteção e paz para toda a coletividade? Havia naquele tempo pouquíssimas agências noticiosas internacionais que tinham excelente acesso às informações privilegiadas, tais como a Associated Press, Reuters Ltd, Agence France-Press (AFP).

E, se essas agências internacionais não fornecessem aos países em desenvolvimento as informações, como poderíamos nós, por exemplo, países da América Latina, termos acesso aos progressos das pesquisas científicas? Ali, naquele momento aprendi uma lição: o poder político imenso que detém uma agência de notícias. Dali por diante nunca mais me esqueci disso, e passei a dar mais atenção ainda às questões da qualidade e da veracidade do noticiário cotidiano.

E a democratização do acesso à informação tornou-se para mim uma luta indispensável. Caso você caro (a) leitor (a), tenha interesse em saber mais, poderá clicar no link indicado abaixo e conhecer os termos da Declaração de Estocolmo, notadamente seu princípio nº 20 que se refere ao livre fluxo da informação:

http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Meio-Ambiente/declaracao-de-estocolmo-sobre-o-ambiente-humano.html

imprensa-2A liberdade de expressão e o livre intercâmbio de idéias são indispensáveis num regime verdadeiramente democrático. A liberdade de imprensa também. Eu me filio entre os estudiosos que distinguem a liberdade de expressão, da liberdade de imprensa. São direitos diferentes. A primeira garante ao indivíduo, pessoa física o livre direito de manifestar seu pensamento e, a segunda refere-se ao direito das empresas de jornalismo/pessoa jurídicao mercado de notícias – de publicar o que desejar sem censura prévia estatal. Ambos, pessoa física e jurídica, todavia, devem responder por seus excessos na forma da lei.

Garante-se também a estas empresas, constitucionalmente, a isenção tributária (artigo 150 da CF, inciso VI, letra “d”, sobre livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão).

Entendo, entretanto, que o perigo hoje não está mais na eventual censura estatal, mas sim na real censura privada cometida pelos donos dos jornais e concessionários de rádio e TV. Essas empresas muitas vezes, por interesses próprios, manipulam informações e desinformam propositalmente seus leitores, ouvintes e telespectadores, visando moldar a opinião pública. Escondem notícias importantes para o público. Muita vezes até mesmo mentem descaradamente e induzem o leitor em erros. Eu já escrevi um pouco sobre a liberdade de expressão e manifestação do pensamento, bem como sobre o direito de antena neste blog. Se desejar ler esses posts dê um clique nos links abaixos:

https://blogdaines.wordpress.com/2014/08/05/o-direito-de-antena-o-que-essa-expressao-significa/

https://blogdaines.wordpress.com/2014/02/09/a-liberdade-de-expressao-e-manifestacao-do-pensamento/

Penso ser muito importante e necessária a urgentíssima regulação do poder econômico das empresas de mídia, nos termos já definidos pela Constituição Federal do Brasil em seu artigo 220, § 5º que dispõe: ” Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.” Com a futura regulação desse mercado de notícias, haverá a possibilidade do retorno e o incentivo à pluralidade e diversificação das informações. De fato, poderá haver então o livre intercâmbio de idéias e, com isso, a reconquista de leitores, ouvintes e telespectadores.

Para finalizar, trago aqui para você assistir o link do trailer oficial desse excelente filme aqui noticiado:

 

 

 

E você caro (a) leitor (a), acredita que o rádio, a TV e o jornal impresso estão feridos de morte após a invenção da internet?

Inês do Amaral Buschel, em 23 de fevereiro de 2015.

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