PENSAMENTO BINÁRIO E AS COMPLEXIDADES DA VIDA REAL

Quando eu era jovem – portanto, há muitas décadas!!! – costumávamos chamar de bitolada (o) a pessoa que não conseguia compreender coisas complexas ou simplesmente complicadas, bem como aquelas pessoas que não entendiam as novidades, os novos tempos. Ou, então, pessoas inseguras, que morriam de medo de tudo. Por exemplo, quando um amigo (a) tinha medo de cabular a aula para ir ao cinema – um hábito tão inocente! –  e se recusava a nos acompanhar nessa desviante aventura, dizíamos: – Ah!, deixa ele (a), é um bitolado (a)! Não sai da linha por nada deste mundo.PENSAMENTO DO DIA

Para quem não sabe, a palavra “bitolado” deriva-se da palavra bitola, que é uma medida padrão. Na gíria usada no passado, queríamos dizer que a pessoa era limitada tanto no pensamento como na própria conduta. Estava sempre “dentro das medidas” previamente estabelecidas. Nesse tempo também usávamos a expressão “cú-de-ferro” – o famoso CDF –  e não o estrangeirismo “nerd “, que se usa atualmente para desmerecer o estudante que é aplicado demais.

No tempo atual utilizamos a palavra “binário” para criticar alguém, querendo dizer mais ou menos a mesma coisa que “bitolado”. Aquele que tem preguiça de pensar e usa o senso comum para opinar sobre quaisquer questões, sejam elas simples ou complexas. Como num código de barras, onde há somente dois elementos/unidades (0 e 1) uma pessoa com raciocínio binário pensa mais ou menos assim: ou é branco ou é preto;  ou é bom ou é mau; ou é claro ou é escuro; ou é do bem ou do mal; ou é sim ou é não; se não for a favor é contra; bonito ou feio. Em geral essas pessoas gostam de usar a famosa expressão: se não está comigo está contra mim; se não pensa igual a mim é um otário. Se a questão for levemente complicada, com preguiça de pensar reagem quase sempre com um “como assim?” etc. Essas pessoas vivem de certezas. Aliás, adoram repetir o clichê “com certeza” para quaisquer situações, como um vício de linguagem.

cerebro2Darei um exemplo concreto, de um fato que aconteceu comigo. No início da década de 90, engajei-me na luta pelo respeito aos direitos dos cidadãos que sofrem de doença mental. Estudava bastante sobre o tema e participava de inúmeras reuniões, conferências e palestras. Num certo dia, num desses eventos, encontrei um colega meu da área do Direito e nos cumprimentamos. Ele fazia parte do movimento de luta antimanicomial e, entusiasmado, expôs-me suas idéias. Eu ouvi.

Daí expliquei a ele que eu militava na área da saúde mental, mas não concordava com todas as premissas daquele movimento antimanicomial. Ele olhou-me estupefato e lançou a pergunta: você é a favor dos manicômios?? Tive vontade de responder-lhe: Sim palhaço, mas só para internar pessoas simplistas como você, que tem diploma de nível superior e não conseguem compreender sequer um ponto de vista divergente! Mas fiquei em estado de choque, pasmada.

Como era possível que ele, um profissional gabaritado pudesse pensar tão binariamente assim? Então, se alguém fosse contra a calamitosa existência de manicômios, só poderia escolher o movimento antimanicomial para expressar sua irresignação? Não poderia pensar diferente e estar do mesmo lado na luta por reformas sanitárias? Para os seres binários isso é impossível. Não compreendem essa complexidade. Eles entendem que as pessoas de bem, o cidadão (ã) decente, tem de rezar na mesma cartilha deles, caso contrário vêem no outro um inimigo a sua frente. Aliás, para esses seres de pensamento binário não há adversários, só inimigos. Defendem a liberdade de expressão, mas somente a expressão deles. Nem imaginam que essa liberdade humana – a de pensar diferente – assegurada nas sociedades ditas civilizadas, deve primeiro ser admitida para o outro que não pensa exatamente igual a você.tragédia

Em parte, esse método simplista de pensamento, deve ser uma herança do maniqueísmo persa, que se alastrou durante o Império Romano e que consistia numa filosofia de dualismo religioso: o bem e o mal, a luz e as sombras/trevas. O ex-Presidente dos EUA, George W Bush, por exemplo, é um ser de raciocínio binário. Lembra-se caro (a) leitor (a) da ideia do Eixo do Mal (países não alinhados à política norte-americana) que ele lançou durante o seu governo? Pois então, Bush é um lídimo representante do pensamento do profeta Maniqueu, que viveu no Século III. Se um país não se alinha com os EUA, será considerado um inimigo maligno.

Aliás, para ser justa, preciso dizer que também uma expressiva maioria dos integrantes das forças de segurança brasileiras – incluindo nossas Forças Armadas – que desgovernaram o Brasil durante os 21 anos de ditadura empresarial-militar (1964-1985), agiram na época com raciocínio binário. Não tinham talento para pensar com complexidade. Os que não pensavam igual a eles eram taxados de comunistas e ponto final. E, no caso, o comunismo era o grande mal a ser combatido sem tréguas, nos termos determinados pelo governo dos EUA. Era preciso torturar e matar os adversários que, para eles, representavam inimigos malignos. Cercearam a liberdade de expressão – bem como todas as outras liberdades civis – no país inteiro.

cerebro3Todos temos de aprender a pensar com complexidade. Isto não é complicado. Em vez de sair replicando o que um outro diz, ou reproduzir automaticamente o pensamento do outro – seja professor, líder religioso, pai, mãe, juiz de Direito, promotor de Justiça, médicos, profissionais dos meios de comunicação etc – bastará prestar bastante atenção aos dados/informações que você detém sobre determinado assunto. Após, observar se essas informações são falsas ou verdadeiras, e se contém contradições.

Claro que deveremos levar em conta as opiniões contrárias a nossa. Há muita notícia falsa e tendenciosa espalhada pelo mundo, mas precisamos analisá-las. A mídia tem “donos ” e eles, em regra, tem grandes interesses comerciais. Depois de analisar as eventuais contradições, use sua inteligência e faça um esforço para trabalhar com o princípio da razoabilidade. Há muitas variantes a serem consideradas. Temos de evitar informações mutilantes ou manipuladas. Por isso será preciso ler as notícias com olhos bem abertos.cubo

Com ponderação você poderá concluir sua opinião pessoal pensada, refletida e não simplesmente copiada ou mimetizada. Todavia, ainda assim, haverá sempre a possibilidade de estarmos errados. Mas nosso erro já não será por irracionalidade ou ignorância. É preciso aprender a pensar. Fazer esse esforço. Infelizmente, isso não tem sido uma prática no mundo moderno, onde vivemos, literalmente, em alta velocidade. Também não é um hábito comum nos lares ricos, remediados ou pobres, e tampouco em muitas escolas públicas, filantrópicas e privadas. Pensar e usar diariamente nossa inteligência é um hábito saudável. Manter a autocrítica em stand-by também é.

MorinSe houver interesse de sua parte caro (a) leitor (a), recomendo a leitura de um pequeno e valioso livro sobre o tema, escrito pelo pensador francês Edgar Morin, com o título de “Introdução ao Pensamento Complexo“. Foi traduzido por Eliane Lisboa e publicado pela Editora Sulina/Porto Alegre/RS, 4ª edição em 2011.

O costume de reduzir tudo a um senso comum, desviando-se da complexidade em razão de dificuldade encontrada para aceitar a ambigüidade, tem levado a Humanidade a errar constantemente. É preciso enfrentar a complexidade das coisas, do comportamento dos seres humanos. Há muitas coisas que são boas e ruins ao mesmo tempo. Como diz o dito popular “Há males que vem para bem “. Nem sempre é assim, mas às vezes é. Entre pretos e brancos há os mestiços e os não-brancos. Nada é simples nesta vida. Aliás, há um escritora inglesa bem inteligente, que vem ganhando muito dinheiro com sua ideia de 50 tons de cinza, transformada em livro…

Por exemplo, tornou-se lugar comum ao menos para nossa civilização ocidental, o endeusamento da natureza. Parece para muitos que a natureza não nos poderá causar mal algum. No entanto, estão aí as catástrofes naturais produzidas pelo vento, pela água, pela seca e pela própria terra, nem sempre provocadas pela intervenção inapropriada da ação dos seres humanos. A natureza exige respeito e, ao cuidarmos dela, para nos proteger, precisaremos utilizar o pensamento complexo senão faremos asneiras.N mafalda Y SUSANITA 2

Outro exemplo. Se você conhece os quadrinhos do cartunista argentino Quino, saberá que a personagem Susanita tem pensamento binário e a Mafalda tem complexidade em seu pensamento. Essa é a graça em vê-las conversando. Uma é superficial em suas conclusões e a outra é profunda demais. Imagine você então, como é complexo o pensamento do criador dessas duas criaturinhas, o Quino!

pensandoParei para pensar e escrever este texto, porque estou bastante preocupada com o que as pessoas andam falando sobre o recente atentado em Paris. Dois irmãos, fanáticos muçulmanos, assassinaram por fuzilamento 12 (doze) pessoas do jornal iconoclasta Charlie Hebdo, incluindo um policial que fazia guarda no local e que era muçulmano. E, logo em seguida, outro fanático islamita assassinou 5 (cinco) pessoas num mercado judeu ali em Paris. Os três assassinos eram jovens franceses pobres, filhos de emigrantes e dois deles já tinham cumprido pena de prisão. Agiram com muito ódio, talvez por conta própria ou a mando de chefes terroristas. Será preciso investigar esses fatos para saber. Ao que parece, o que os moveu foi a grande irritação em ver, freqüentemente, charges do jornal insultando o profeta Maomé. Mas, para mim, é claro que não pode ser só isso. As charges serviram apenas de pretexto para eles darem vazão ao ódio e, ao mesmo tempo, causarem espetáculo midiático. Há mais coisas no ar. Temos de descobrir com o uso da inteligência.

Sair falando à torto e à direito que foi um atentado à liberdade de expressão ou, então, que aqueles que foram fuzilados dentro da sede do jornal, provocaram os fanáticos com suas charges é um raciocínio binário. Trata-se de uma tragédia inominável, um ataque terrorista. Talvez, de fato, os chargistas tenham sido imprudentes e subestimaram demais o poder de fogo de fanáticos. Porém, absolutamente, não são os culpados por suas mortes. Foram vítimas do fanatismo religioso cruel. É preciso pensar, refletir, buscar informações sobre o modo de vida dos assassinos e de suas famílias, analisar dados históricos, investigar como obtiveram as armas de grosso calibre etc etc. Enfim, é tudo muito triste e complexo. Melhor não dar palpite infeliz. Se não tiver nada a acrescentar ou a esclarecer, melhor ficar calado.imagesFB3H0TF5

Mas continuo pensando e buscando mais informações. Essa tragédia poderá vir a repercutir em nosso país. Usando as redes sociais, muitos jovens fanáticos muçulmanos ou não, nem sempre pobres ou mal educados, estão sendo aliciados em todo o mundo por outros fanáticos muçulmanos, com a finalidade de engrossar as fileiras de ataques sangrentos e cruéis contra pessoas inocentes. Atuam nos EUA, no Paquistão, na Nigéria e em todas as partes do mundo que bem entenderem. Falsamente, em nome do Islã e da vingança às violações cometidas pelos países ocidentais, contra países do mundo árabe, eles vem praticando horrores. Estão tomados pelo ódio à democracia liberal e aos direitos das mulheres à igualdade. São machistas. Como faremos para estancá-los não sei. Mas penso que a pobreza obscena, gerada pela incoerência do sistema capitalista e a prepotência dos Senhores do Universo, tem muito a ver com essa reação violenta.

Há muita ignorância por aí. Não podemos correr o risco de culpar e atacar todos os muçulmanos, pois a grande maioria do povo que professa essa religião não está de acordo com essa violência praticada por fanáticos. Todavia, já percebo que há entre nós muitas pessoas ignorantes e binárias, que começam a assediar mulheres que usam a vestimenta típica de muçulmanas. Elas são alvos fáceis para os seres de raciocínio binário e covardes. É bom ficar atento e defendê-las nas ruas.

Como há pouco tempo estive passeando pela África, busquei conhecer os belos provérbios da rica cultura oral dos povos africanos. Encontrei um provérbio do povo tutsi de Ruanda, que aborda a ignorância e que diz assim: ” A estupidez é muito pior que a demência “. Concordo plenamente com essa sabedoria popular.

Para finalizar este texto, escolhi a delicada canção de autoria de John Lennon, “Imagine “, para fazer aqui um singelo tributo aos mortos de Paris, Nigéria, Paquistão e  de tantos outros lugares, bem como aos seus familiares. O autor dessa bela música, Lennon, também foi assassinado por um outro tipo de fanático. Ouça uma versão coletiva, produzida por Playing for Change Foundation, clicando no link abaixo:

Esta é a tradução livre da letra da música: Imagine que não haja o paraíso/ É fácil se você tentar/ Nenhum inferno abaixo de nós/ Sobre nós só céu/ Imagine todas as pessoas/ Vivendo para o presente/ Imagine não haver países/ Não é difícil de tentar/ Nada para matar ou morrer/ E nenhuma religião também/ Imagine todas as pessoas/ Vivendo a vida em paz/ Você pode dizer, eu sou um sonhador/ Mas eu não sou o único/ Eu espero que algum dia você se junte a nós/ E o mundo será como um só/ Imagine não ter posses/ Imagino que você consiga/ Sem necessidade de ganância ou fome/ Uma Irmandade humana/ Imagine todas as pessoas/ Compartilhando o mundo todo/ Você pode dizer, eu sou um sonhador/ Mas eu não sou o único/ Eu espero que algum dia você se junte a nós/ E o mundo será um só.

 

Inês do Amaral Buschel, em 22 de janeiro de 2015.

 

 

 

 

 

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