AFRICA DO SUL, Saravá! I am glad to meet you! (Parte II)

Continuando meu relato de viagem, passarei a contar-lhe agora caro (a) leitor (a), nossa visita à Cidade do Cabo (Cape Town), a terra natal do cardiologista Dr. Christiaan Barnard (1922-2001). Essa cidade pertence à província do Cabo Ocidental (Western Cape), e é a capital legislativa do país. Ali se localiza o Parlamento Nacional. É a segunda cidade mais populosa com, aproximadamente, 3.500.000 habitantes. Escolhemos ir de Johannesburgo até lá de trem, para desfrutar da paisagem pelo longo caminho. Viajamos pelo ” Premier Classe ” cujo percurso leva 25 (vinte e cinco) horas.  Existem outras alternativas de trens mais simples ou mais luxuosos. Ficamos confortavelmente instaladas numa cabine dupla. Antes do embarque fomos recebidas numa ala de espera bem agradável, onde são oferecidos bons lanches e, evidentemente, o delicioso chá “Rooibos“. Minha filha logo notou que, a maioria de nossos companheiros de viagem eram pessoas de “cabelos brancos ” iguais aos meus…portanto, estávamos em segurança e em boa companhia!trem

Dentro do trem fomos muito bem recebidas pelos funcionários da ferrovia e, para “quebrar o gelo” entre os viajantes, nos ofereceram no vagão-refeitório um coquetel com vinhos sul-africanos e canapés. Foi ótimo. Nessa oportunidade conhecemos duas senhoras noruegueses, que eram amigas e viajavam pela primeira vez pela África do Sul. Foi com elas que passamos a dividir a mesa de refeições durante a viagem. Foram boa companhia para nós. Com gestos e meu sofrido inglês, nos entendemos bastante bem, pois minha filha sempre vinha em meu socorro. Uma delas também não sabia onde se localizava nosso país, o Brasil! Paciência. Salientei a elas que a Noruega é um norte para nós, pois é o país primeiro colocado no Índice de Desenvolvimento Humano. Elas nos contaram que viver numa sociedade igualitária de fato, é o desejo da maioria do povo norueguês.

Tudo estava indo tão bem até que, por volta das 5 (cinco) horas da manhã, fomos despertadas por um funcionário que pedindo-nos desculpas, nos comunicou que a locomotiva sofrera uma pane elétrica. Oh céus! Oh azar! Haviam estacionado numa estação longínqua numa pequena cidade, para que pudéssemos ao menos usar os banheiros dela, pois sem energia nada funcionava dentro do trem. Um técnico eletricista já fora chamado para consertar a locomotiva, porém demoraria algumas horas para chegar. Então, ofereceram a quem o desejasse, a opção de seguir de ônibus até Cape Town, ônibus esses que estariam em breve à disposição dos viajantes. Nós optamos por seguir pela rodovia. Nossas amigas noruegueses preferiram esperar o conserto do trem e seguir nele.

Enquanto esperávamos dentro da nossa cabine, nos divertíamos olhando pela janela e vendo alguns turistas – homens e mulheres –  andando tranquilos pela plataforma da estação indo em direção ao banheiro, vestindo os roupões de banho brancos e calçando os chinelinhos de pano também brancos, que ficavam à disposição dos viajantes nas cabines.  Não estavam nem aí para quem quer que fosse. Eram seres de espírito livre e felizes apesar do incidente. Mas, houve também aqueles mais mal humorados, que gritaram e ofenderam funcionários do trem, como se eles fossem os culpados pelo ocorrido. Há de tudo nesse mundo, gente feliz e livre, e outros aprisionados em si mesmo, irritados e furiosos. Nessa hora, não importa sequer o grau de instrução de cada um. Pode ser doutor ou operário, as reações pessoais independem da classe social a que pertença o indivíduo. A gentileza e a delicadeza são virtudes pessoais que cada um aprimora se quiser.

parque-eólicoA paisagem que vimos era constante: as savanas e as montanhas. Poucas regiões habitadas, pequenos lugarejos empobrecidos. Víamos ao longe, antílopes e avestruzes correndo livremente pelos campos. Num determinado local pudemos ver um grande parque eólico, com os aerogeradores de captação de energia através do vento.  Ao nos aproximarmos da Cidade do Cabo a paisagem já mudava um pouco, surgindo os grandes vinhedos e, ao longe, já se avistava a majestosa Montanha da Mesa (Table Mountain). É tudo muito bonito. Admirar a bela paisagem, a natureza em estado bruto, através da janela de um trem vagaroso é pra mim um grande prazer que a vida nos oferece. Fiquei feliz em fazer esse passeio ferroviário. Alimentei a esperança de um dia, poder fazer um passeio igual em minha terra de campos tão vastos e onde, no entanto, predominam as rodovias e não as ferrovias, infelizmente.

Chegamos à cidade em torno das 18 horas da sexta-feira, dia 14 de novembro. Pouco movimento naquele local, onde a rodoviária fica ao lado da ferroviária. Os táxis na África do Sul toda não são bem organizados pelo Poder Público, e paira um ambiente de improvisação nesse setor. Causa insegurança ao turista. Mas fazer o quê? Ficar parado, rezando não dá. Entramos num táxi cujo motorista era jovem e confiamos nele. Sem problemas. Logo chegamos no Hotel Holiday Inn onde nos hospedamos, numa rua bem centralizada. Em frente ao hotel existe um bom restaurante de comida italiana, sempre lotado e onde jantávamos à noite. Durante a semana toda, menos aos domingos, há uma feira de artesanato africano nessa mesma rua. Nas cercanias, há também uma praça (Greenmarket Square) muito frequentada por turistas, onde há outros bons restaurantes e mais uma feira de artesanato. A beleza das peças expostas era atrativa. Fizemos a riqueza circular por ali!

Na Cidade do Cabo existe um ótimo serviço de transporte público chamado “City Sightseeing ” , que leva você a todos os sightseeingcantos da cidade por um bom preço. Compramos os tickets e saímos a passear. Percebi logo que o racismo ali não esconde a cara. Por outro lado, observei algo muito positivo: naquela cidade os homossexuais são mais bem aceitos. Ao que parece não há tanta homofobia, como é comum no país. E um vento forte faz parte da vida local. Como venta naquela cidade! Até as árvores crescem meio tombadas para um dos lados. Bem, o Cabo das Tormentas é vizinho, portanto nada a reclamar.

Ao dar mil voltas pela cidade dentro do ônibus de turismo, achei-a muito parecida com a cidade estadunidense de Miami/Flórida. É a “Miami” da África do Sul. Tive a nítida impressão de que há muitos milionários, proprietários de moradias monumentais e barcos explêndidos por ali. Tudo é lindo e impecável, exceto a água do mar que é gelada. Fiquei chocada, pois não imaginava ver toda aquela ostentação de riqueza e tanta disparidade social, numa cidade que também é conhecida pelo alto índice de violência contra mulheres. Com certeza a obscena desigualdade social/racial/econômica tenha muito a ver com isso. Acrescente-se o abuso de álcool e outras drogas, bem como o uso de armas de fogo e o machismo.

SouthAfricaTrip-VictoriaAlbert_waterfront-Misc11-CapeTown (1)Vimos de perto a majestosa Montanha da Mesa, mas não subimos até o topo dela pois havia uma fila enorme para usar o teleférico. Seguir a trilha à pé nem pensar! Fomos conhecer a vinícola mais antiga, chamada “Constantia” e pelo caminho vimos uma grande favela (township). Ao longe observamos o estádio “Green Point “ e também o Hospital  Groote Schuur onde trabalhava o Dr. Barnard. E paramos no point daquela cidade, o “Waterfront “. Ali tudo acontece. É muito agradável andar pelas ruas, parar para tomar café ou cerveja nos belos bares, visitar Shoppings Centers, lojas de artesanato, mercado, monumentos. Há músicos tocando e pessoas dançando ao ar livre etc. Muitos jovens empurrando os carrinhos com seus bebês. Fomos visitar o grandioso “Two Oceans Aquarium “, onde conhecemos inúmeras espécies de peixes, tubarões e os bacanas pinguins-africanos.

Num grande armazém coberto, via-se vários stands de artistas locais mostrando suas artes e vendendo peças. Tudo muito bonito e bem organizado! Nele conhecemos um belo trabalho artesanal, que se utiliza de saquinhos de chá usados. É desenvolvido por mulheres/artistas de baixa renda, e se denomina Original T Bag Designs. Se desejar conhecer essa iniciativa, dê um clique no linkhttp://www.tbagdesigns.co.za/

Conhecemos a centenária Catedral de são George, igreja anglicana onde o pacifista e simpático Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, exerceu o arcebispado. Visitamos também o Museu da Escravidão, denominado “Iziko Slave Lodge “. No século XVII, era nesse local que se abrigava os escravos que seriam vendidos. Hoje, felizmente, é um local público onde se divulgam os direitos humanos. Ali tivemos a oportunidade de assistir alguns bons vídeos, entre eles um sobre a época da escravidão na Cidade do Cabo. Aprendi também o significado da palavra africana “IZIKO”, da língua isiXhosa. Tentarei explicá-la a você caro (a) leitor (a). Ela contém a idéia de um local aconchegante e caloroso. Simbolicamente, representa o melhor lugar de uma comunidade ou de um lar. Está associada ao sentimento de respeito pelos espíritos ancestrais, local onde se contam histórias passadas e onde se prepara a refeição que será servida aos presentes.

1386370317000-robben-island-entranceBem, mas o que me levou a essa cidade foi a vontade de conhecer o antigo presídio agora transformado em museu, mais conhecido por Robben Island (Ilha das Focas). Ali, entre os famosos presos políticos negros – só os negros eram aprisionados ali – viveu encarcerado por 18 (dezoito) longos anos – o líder sul-africano, o advogado Nelson Mandela. Por isso eu estava lá, para conhecer esse local sinistro. Essa ilha localiza-se a 11 km da costa e, para chegar nela faz-se a travessia por grandes barcos turísticos. Na ida seguimos tranqüilamente num barco a vapor. No retorno, porém, numa catamarã e num mar agitadíssimo! Senti medo e permaneci em silêncio durante os 40 (quarenta) minutos da volta. Naquele momento o continente me parecia muito mais distante do que apenas 11 km!

Ao chegarmos na ilha, um ônibus estava à espera dos turistas para levá-los a percorrer o longo território. Havia um guia que nos foi contando a história daquele local. Anos atrás já fora um retiro para leprosos, um manicômio etc. Ali, numa reserva ambiental, existe uma colônia de pingüins. Ao descer do ônibus e avistar o presídio senti uma péssima sensação de horror. Lembrei-me dos detalhes das humilhações sofridas pelos presos, as quais Mandela relatou em sua autobiografia – que se transformou no livro “Longo Caminho para a Liberdade” – e, de repente, perdi o interesse por aquele local.farol

Arrependi-me de ter ido lá. Entrava e saia dos ambientes feito um robô. Fiquei anestesiada. Minha filha em silêncio, sem tirar fotos. Eu sentia vontade de chorar, mas segurei a emoção. Quanta tristeza! Nem prestei atenção na cela que fora ocupada por Mandela. Sentia uma opressão no peito. Queria sair dali, rapidamente. As pessoas ao meu lado tiravam fotos e eu achava tudo aquilo surreal. Lembrava-me de Mandela e seus companheiros presos e me perguntava: como sobreviveram a tudo aquilo? Como superaram os ressentimentos? Como perdoaram seus algozes? Quanta injustiça! Somente a vigência de uma paz social duradoura entre negros, mestiços e brancos na África do Sul, lhes fará Justiça.

mandelacamisetasa-2767196Caso você tenha interesse, acaba de ser lançado no Brasil o DVD do novo filme baseado na autobiografia de Nelson Mandela, e que não foi exibido em nossos cinemas. Intitula-se “Mandela – O caminho para a Liberdade“, co-produção do Reino Unido e África do Sul. Dirigido por Justin Chadwuick e protagonizado pelo ator Idris Elba.

Na terça-feira, dia 18, partimos de avião para a cidade de Durban, localizada no norte do país. Pertence à província de KwaZulu-Natal, na costa do Oceano Índico. Sua população é de, aproximadamente, 2.700 milhões de habitantes. É a cidade do mundo onde vivem mais indianos fora da própria Índia. (tal qual no Brasil, notadamente na cidade de São Paulo, onde vive a maior população de japoneses fora do Japão). Foi nessa cidade que o advogado indiano M. Gandhi viveu. Também viveu ali, dos 8 (oito) anos de idade até os 17 (dezessete), o grande poeta português Fernando Pessoa e sua família. Naquela região costeira e portuária, além dos indianos e mestiços, predominam os integrantes do povo Zulu.

Nessa cidade nos hospedamos numa ótima “Guest Lodge Goble Palms “, no bairro de Morningside. Esse bairro é lugar de moradia de classe média predominantemente branca. Só os empregados dos estabelecimentos comerciais e da própria guest house eram pessoas de pele negra ou morena. Durban é bem diferente das outras 3 (três) cidades que havíamos conhecido. Havia indianos e muçulmanos por todos os lados. Pareceu-nos menos habitada e mais silenciosa. Havia poucas pessoas nas ruas no bairro que estávamos. Os moradores locais se locomovem de automóvel particular. Os trabalhadores não sei. Talvez usem vans. O transporte público pareceu-me resumir-se aos táxis e às linhas de ônibus turístico, a ” People Mover “, que utilizamos e é bastante boa. Passeamos durante o dia, tranquilamente, pelas redondezas caminhando a pé. Encontramos até uma rua com meu nome, com dois “n”: Innes.

Moses Mabhiba StadiumAndamos bastante e passamos em frente ao belo estádio Moses Mabhida. Paramos ali para admirar sua arquitetura.Tomamos o ônibus turístico e fomos conhecer uma praia próxima, frequentada pela população local. Almoçamos num restaurante praiano e ficamos mirando as águas do Oceano Índico, vendo as pessoas brincando nelas. De volta ao ônibus, fomos conhecer o famoso e antigo “Victória Street Market “. Trata-se de um centenário mercado de especiarias e tudo o mais que você possa imaginar. Ferve de tanta gente. Quando avistamos toda aquela movimentação e vendedores ambulantes para todos os lados, sentimos insegurança por estarmos desacompanhadas e passamos direto. Nem sequer descemos do ônibus para conhecer o local. Preferimos seguir adiante, admirando os edifícios históricos daquela cidade. No outro dia fomos passear no maior Shopping do país, o Gateway. Compramos alguns CDs, almoçamos e conversamos bastante com as pessoas. Vimos uma cena divertida: muitas crianças pequenas de uma escola, tirando fotos de formatura diante do belo cenário da entrada do Shopping. Elas não paravam quietas e davam muito trabalho para os fotógrafos. Foram cenas bem engraçadas.Amandla

Fim da viagem em território sul-africano. De Durban partimos de avião para Moçambique. Olho para trás e fico contente por ter realizado meu desejo de conhecer, ao menos um pouco, o bravo povo da África do Sul com suas 11 (onze) línguas oficiais! Uau!

Para finalizar, recomendo a você caro (a) leitor (a) assistir ao vídeo indicado logo abaixo, e ouvir a famosa cantora sul-africana Yvonne Chaka Chaka, cantando a canção “Umqombothi ” num estádio em Cape Town, no ano de 2003:

 

 

FELIZ NATAL E ÓTIMO 2015!

Inês do Amaral Buschel, em 24 de dezembro de 2014.

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