A ESPERANÇA NÃO É UMA ILUSÃO

A esperança é a última que morre. Quem já não falou ou ouviu essa frase? Este é um ditado popular muito repetido pelas pessoas em vários países do Ocidente. Talvez sua origem esteja ligada ao mito grego conhecido como a “Caixa de Pandora “, no qual ela, Pandora, sem querer abre a caixa e de dentro dela escapam os males – e os bens, segundo alguns – que irão vicejar no mundo. No entanto, ela fecha a caixa rapidamente e a Esperança permanece ali dentro, protegida. Há, ainda, um provérbio africano que diz ” A esperança é o pilar do mundo“.

As pessoas melancólicas são céticas com relação à esperança. Desconhecem o verbo “esperançar ” que significa dar ou ter esperança, animar ou estimular alguém. Essas pessoas mais pessimistas devem pensar que a esperança é uma ilusão. Mas, estão enganadas. A esperança existe e é esse sentimento humano que nos dá a força diária, para enfrentarmos o cotidiano da vida. A ilusão consiste num erro de percepção ou entendimento, ou seja, ocorre quando confundimos a aparência com a realidade, o falso com o verdadeiro. De uma maneira geral, a ilusão está interligada com a ignorância, com o desconhecimento do real e com a ingenuidade.  A esperança, ao contrário, é concreta tal qual uma mola que nos impulsiona.mola3

Talvez a esperança seja até mesmo uma virtude, um valor social e não tão somente um sentimento humano. Penso que ela consiste num desejo individual, numa expectativa de ver algo tornar-se realidade. Não posso afirmar que a esperança exista só em relação a desejar coisas boas ou bens imateriais. Há sempre aqueles que tem esperanças em acumular dinheiro e consumir muito, e outros que alimentam a esperança no campo da maldade. Praguejam com esperança.

Por exemplo, aqueles que adoram guerrear – e eles existem aos montes – alimentam-se da esperança de sempre ganhar. Todavia, isto já se trata de uma ilusão deles, pois nem sempre venceremos em nossos combates. Com relação às guerras, há uma paródia latina bem apropriada, que se refere aos fabricantes de armas e que podemos traduzir assim: Enquanto há guerra há esperança !

caleidoscópioPara não nos iludirmos, antes de esperançar deveremos observar bem se o que almejamos poderá mesmo estar ao nosso alcance um dia, se estamos preparados para a caminhada e temos instrumentais básicos para tornar realidade nosso sonho de olhos abertos. Sim, pois só os que sonham de dia, bem despertos e lutam por seus sonhos tem esperanças!

E aqui vejo um perigo. Sonhar acordado não é o mesmo que delirar. O delírio é um sonho louco, exagerado e é, portanto, uma ilusão, um erro de percepção que ocorre, por exemplo com pessoas apaixonadas. Gosto de pensar que um delírio é como “um sair dos trilhos “, perder-se. Os sonhos do personagem criado pelo maior escritor espanhol, Cervantes, o famoso cavaleiro da triste figura Dom Quixote de la Mancha, eram sonhos impossíveis, eram delírios.

Por falar em Dom Quixote, por acaso você, caro (a) leitor (a) já teve oportunidade de assistir ao ótimo filme “O homem de la Mancha “? Trata-se de uma co-produção da Itália-EUA, baseado na obra de Cervantes, lançado em 1972, protagonizado pelo ator Peter O’ Toole, com a participação da atriz Sofia Loren. Há DVD para vê-lo. Clique no link logo abaixo e assista um trecho emocionante desse filme no trailer:

É bastante conhecida também a obra teatral de Calderón de la Barca, outro dramaturgo espanhol que viveu entre os anos 1600-1681. Ele é o autor da tragicomédia “La vida es sueño “, na qual profetiza ” que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son.”

Percebemos, portanto, que os sonhos diurnos fazem parte de nossa existência. Todos nós, p.ex., sonhamos em ser amados. Necessitamos do afeto do outro para viver bem. E sempre mantemos a esperança de, num certo dia na vida, conhecermos o amor. A maioria das pessoas busca uma vida melhor e mais feliz. A solidariedade por exemplo, que é um valor social, apoia-se no amor entre as pessoas, na compaixão. É daí que desponta a felicidade de um ser humano.

esperança3Acho interessante registrar aqui a engraçada opinião de uma menina de oito anos, colombiana, sobre o que significa sonho para ela: “Que os colégios não existam, que a gente nasça com mente pra saber tudo.” (livro Casa das Estrelas – O universo contado pelas crianças, de autoria do prof. colombiano Javier Naranjo, com tradução para o português de Carla Branco, Edit.Impressos e Digitais/RJ, 2013). Pesquisando um pouco sobre a esperança, descobri que há um inseto – da família do grilo – que se chama Esperança, o qual eu desconhecia. É da mesma cor que representa a esperança: verde. Será que é por ser verde que recebeu esse nome?

Voltemos então à questão da esperança concreta a que me refiro. Ela está ligada à fé, à confiança que cada um de nós desenvolve na vida. Porém, não se iluda caro (a) leitor (a) pensando que só existe uma fé, a religiosa. Nós poderemos viver com fé, mesmo sem acreditar ou pertencer a qualquer doutrina religiosa ou igreja. Nossa fé – ou espiritualidade como preferem alguns – poderá concentrar-se nas ciências, na política, na humanidade, nas artes, na música, na literatura etc. Mais ou menos como diz nosso grande compositor e cantor, o músico Gilberto Gil na canção de sua autoria “Andar com fé “. Dê um clique:

 

Há um filósofo alemão chamado Ernst Bloch (1885-1977), estudioso dos escritos de Karl Marx, que embora fosse ateu foi quem mais teorizou sobre a Esperança. Ele escreveu uma obra imensa intitulada “O Princípio da Esperança ” publicada na língua alemã em 1959. É recente sua tradução para a língua portuguesa, feita no Brasil por Nélio Schneider, e publicada em três volumes a partir do ano de 2005, numa parceria entre as editoras Contraponto e UERJ. Nessa obra ele une esperança e utopia concreta e realizável, afastando-se da idéia de que a utopia seria apenas uma idealização paralisante.Ernst

Sua idéia de esperança/utopia está bastante direcionada ao sonho de um mundo melhor, socialmente mais justo e humano. Para ele um novo mundo é possível, ao contrário daqueles que um dia proclamaram o fim da nossa história. Há muito ainda a ser conquistado pelos povos. Sem esperança ficaremos paralisados e conformados. É preciso manter a utopia e continuarmos a busca por uma vida melhor, pois há a possibilidade de transposição.

Não se trata de ilusão, mas sim de sonhar de olhos bem abertos e lutar diariamente pelo respeito à dignidade humana de todos. Aqueles que tem fome e tem esperanças de encontrar alimentos ou beleza, mobilizam-se para busca-los. Aquelas (es) que tiveram filhos (as) e netos (as) desaparecidos em razão de crimes comuns ou políticos, lutam sem cessar até localizá-los. Sonhar e desejar alcançar algo ficando na sua espera sem agir, não nos levará a lugar algum. Ter esperança não significa apenas esperar, mas sim sair em busca.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano nos conta que um amigo dele, o cineasta argentino Fernando Birri, certa vez, numa palestra em que ambos faziam parte da mesa, respondeu com sagacidade a uma pergunta sobre “Para que serve a utopia ? “. Ele respondeu dizendo que a utopia está em nosso horizonte e nos serve como um guia para caminhar e seguir adiante. Dê um clique no link e assista a um trecho de sua entrevista:

Pense nisso um pouco, caro (a) leitor (a). Se todos fossemos desesperançados não haveria progresso científico nem político. Por exemplo, não teríamos sequer água encanada, energia elétrica, radiodifusão, anestesia etc. Não teríamos criado a democracia e o regime republicano. Devemos esses ótimos inventos e criações àqueles que sonharam um dia em realizar suas idéias, objetivando melhorar a própria vida e a dos outros.

A história da humanidade demonstra que tivemos muitos avanços – tal qual a  invenção da internet no final do século XX – e que as condições de vida humana melhoraram bastante. Nossa perfeição como seres humanos, todavia, ainda está a léguas de ser alcançada. Caso tenha curiosidade, consulte o pequeno e divertido livro intitulado “Como fazíamos sem….“, de autoria de Bárbara Soalheiro, Editora Panda Books, 1ª edição em 2006, e ali aprenderá muito sobre nossa história cotidiana que o farão rir bastante.

É na distribuição dessas melhorias que andamos mal. Há povos  que ainda hoje não usufruem dessas benfeitorias, e muitos ainda vivem em condições análogas a de escravos. A luta social, portanto, deve continuar para beneficiar essas pessoas. Só a esperança concreta poderá ajudá-los a lutar e conquistar melhores condições de vida e, por que não, também o direito ao ócio com dignidade.

Mães da Plaza de Maio

Mães da Plaza de Maio

Penso que mais não é preciso dizer para concluirmos que é prá frente que se anda, você não acha? E com esperança concreta.  Sem ela nada seremos, não caminharemos e não haverá futuro. Para bem viver será preciso sonhar e ter esperança em algo. E correr atrás disso. E se esse teu sonho objetive melhorar a vida de todos neste mundo terrestre, será bem possível que um dia venha transformar-se num anseio coletivo e que possamos, finalmente, viver a paz.

Eu não pertenço ao grupo dos ” sonháticos “, pois tenho meus pés bem fincados no chão duro e sei que são demais os perigos desta vida. Não sou apolítica. Detesto tiranias de qualquer cor e cheiro. Acredito na política partidária da democracia representativa, mas também creio no movimento coletivo organizado e consciente, que saiba o lugar onde quer chegar . Não creio no ativismo autoral, menos ainda no voluntarismo ou bloco do “eu sozinho”. Isto para mim são delírios.

Avó e seu neto argentino

Avó e seu neto argentino

Dentre meus sonhos está ver num futuro próximo uma multidão clamando nas ruas pelo respeito, incondicional, aos direitos humanos de todos. Que na sociedade brasileira a Justiça Pública seja mais próxima do seu povo e não haja lugar para o racismo, a miséria, a intolerância religiosa, a praga da violência contra mulheres e os milhares de assassinatos na zona rural e urbana.

Que o Brasil se transforme numa grande democracia real, num Estado laico de fato e num lugar de paz social. Vês, caro (a) leitor (a) que eu sonho alto, mesmo estando acordada! E mantenho a esperança. É esta a minha utopia concreta.

Se desejar ouvir uma bela música brasileira intitulada “Serra da Boa Esperança “, composta por Lamartine Babo (1904-1963), na interpretação ao vivo, de voz e piano de nossa querida Cida Moreira, dê um clique no link   abaixo:

E você, alimenta alguma esperança na sua vida, sonha acordado?

Inês do Amaral Buschel, em 1º de setembro de 2014.

 

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