ENCARANDO A PRÓPRIA FINITUDE

Desde muito cedo eu conheci a morte dos outros, começando com a de minha avó paterna, que faleceu num hospital após um  período doente. A vó Emilia já era idosa. Eu tinha sete anos de idade e me lembro bem disso. Mais tarde, na pré-adolescência quando já freqüentava a escola, estando no final do ensino fundamental, eu tomei conhecimento de um suicídio. Uma jovem aluna do ensino médio do mesmo Colégio Estadual onde eu estudava, atirou-se de cima do Viaduto do Chá, no centro da cidade de São Paulo. Aquilo para mim além de trágico, tornou-se um enigma, chocante.

morte-dignaDepois dessas primeiras impressões pessoais sobre a morte, muitos familiares e amigos meus já faleceram. E, há alguns anos, eu mesma encarei a possibilidade de minha morte. Agora já não se tratava da morte dos outros, era a minha mesmo. Por causa de um melanoma devastador alojado em meu olho esquerdo, ao receber o diagnóstico médico eu pensei que chegara ao fim dos meus dias. Felizmente, graças ao progresso científico, eu ainda estou viva e posso lhe assegurar caro (a) leitor (a), que tenho uma vida com boa qualidade. Amo viver. Tal qual o autor Régis de Morais escreveu num livro e o prof. Rubem Alves o repetiu: eu também tenho “um caso de amor com a vida “!Pietá

Faço essa introdução para lembrar que a morte faz e sempre fez parte da vida de qualquer um de nós. Encaro-a apenas com certa tristeza, às vezes com angústia, porém nunca com morbidez. Não é nada fácil aceitar a morte dos outros que amamos, e muito menos a nossa possibilidade de morrer. E, no entanto, todos sabemos que somos mortais. Mas, costumamos negar esse fato para nós mesmos.  E a morte é necessária, por incrível que isso possa nos parecer. Se você tem dúvida, para conferir e refletir leia o livro “As intermitências da Morte “, escrito pelo prêmio Nobel José Saramago, publicado no Brasil no ano de 2005, pela editora Cia. das Letras/SP. A narrativa refere-se a um país imaginário, onde as mortes foram suspensas.

Na juventude interessei-me pelas notícias trazidas dos EUA, com relação ao Dr. Jack Kevorkian, um médico de origem armênia, apelidado, maldosamente, de “Dr. Morte “. Ele inventou uma máquina – mais parecida com uma geringonça – com a qual auxiliava as pessoas com sofrimento insuportável e que desejavam morrer, que conseguissem fazê-lo e pudessem morrer condignamente, ingerindo medicamentos apropriados. Não cobrava honorários médicos por isso.

Seria eutanásia, suicídio assistido ou morte com dignidade? Ainda bem jovem, eu buscava saber como o Direito Penal brasileiro enquadraria esse comportamento. Descobri que para nós, em todo o território nacional, mesmo atendendo ao pedido do paciente, tratava-se – e ainda hoje se trata – de um homicídio doloso, mas privilegiado (com redução da pena). Lá nos EUA, como o direito penal é regido por leis estaduais, em cada estado da federação americana a tipificação desse ato era diferente. Todavia, não tão diferente do nosso. Havia enorme polêmica sobre a atividade desse médico que, acabou sendo processado criminalmente e condenado por homicídio. Cumpriu pena até 2007. Faleceu aos 83 anos de idade, no ano de 2011.

JackApesar de sua condenação criminal, sempre o admirei. Agiu com sabedoria e compaixão pelos pacientes, com trabalho voluntário. Para mim foi um homem corajoso e altruísta. Deixou-nos a lição preciosa de que é preciso ter mais atenção para com o sofrimento atroz, a agonia das pessoas doentes e seus desejos de morte. É preciso tomar uma atitude positiva, não só ficar pelos cantos lamentando a má sorte desses seres humanos. O sofrimento faz parte da vida, mas não pode ser obrigatório! Trata-se de uma liberdade individual, um direito humano.

Deixo aqui uma dica. Assista ao ótimo filme, datado de 2010 e dirigido por Barry Levinson, feito para a TV HBO e lançado em DVD com o título “Você não conhece JACK – A vida e as mortes por Jack Kevorkian “. O ator que o representa é Al Pacino, que teve atuação magnífica. O Dr. Kevorkian chegou a assistir ao filme e disse que em algumas cenas já não sabia se era ele ou Al Pacino na tela! Melhor elogio esse ator não poderia receber, não é mesmo?  No filme você poderá ver esse médico fazendo, pessoalmente, a sua própria defesa frente ao Ministério Público em audiência.

Esse tema da eutanásia/suicídio assistido/morte com dignidade me veio à mente agora, após ter assistido, no mês de maio deste ano, a um documentário sobre a vida do querido educador-pensador-escritor brasileiro Prof. Rubem Alves que, infelizmente, veio a falecer aos 80 anos por falência múltipla dos órgãos, no dia 19 de julho de 2014. Nesse bonito documentário feito no ano de 2013, ele faz referência ao sofrimento de um amigo de 92 anos, que diante de dores insuportáveis pediu a seu médico uma dose maior de morfina para amenizar seu sofrimento. O médico negou-lhe essa ajuda, dizendo ao paciente que não praticaria a “eutanásia “.

Rubem Alves, que já estava acometido do mal de Parkinson e temia pela sua própria velhice sem autonomia, era a favor da eutanásia e ficou indignado com esse fato ocorrido com seu amigo. Para assistir a esse vídeo dirigido por Dulce Queiroz, clique aqui:

Cá entre nós, a responsabilidade médica nesses casos é enorme. Os médicos poderão ser acusados criminalmente, mesmo tendo sido autorizados a fazê-lo, uma vez que não há previsão legal para essa atitude no arcabouço jurídico nacional. E, mesmo quando existe previsão legal, é preciso levar-se em conta que os médicos tem direito à objeção de consciência. Eu já escrevi sobre esse tema no ano de 2009. Clique no link abaixo se desejar ler esse artigo:

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2812:dicionario190109&catid=19:dicionario-da-cidadania&Itemid=56

Que fazer? Não somos avestruzes. Somos seres humanos e nada do que é humano nos poderá ser indiferente. É o que penso. Com todo respeito àqueles que tem fé religiosa e que por isso se recusam a admitir – para si e para os outros – auxilio médico que venha proporcionar morte digna aos que sofrem dores lancinantes ou humilhações e desejam morrer, temos de legislar permitindo. Penso que nós brasileiros deveríamos mirar no exemplo de alguns países europeus – Holanda, Bélgica, Suíça, Luxemburgo – que, de uma forma ou outra, legalizaram esses atos médicos. Essa discussão deve ser pública. As questões envolvidas são dificílimas, pois envolvem afetos e respeito à dignidade das pessoas. Mas temos de encará-las como adultos que somos.

Nos EUA já existem alguns estados que também legalizaram essa conduta médica, que proporciona morte digna àqueles pacientes terminais que sofrem demais e desejam apressar sua morte. No estado de Oregon, p.ex., é assim desde 1994. Vê-se que a luta de Dr. Kevorkian não foi em vão, deixou um legado. Há um filme feito em 2011 para a TV HBO, dirigido por Peter Richardson que, sem morbidez e com bastante clareza apresenta-nos as questões humanas enfrentadas nessa hora íntima ali em Oregon. Esse filme, intitulado “Como morrer no Oregon ” foi vencedor em sua categoria, na 27ª edição do Festival de Sundance. Você poderá assistir ao trailer com legendas em português, clicando aqui: 

Há, no Brasil, projetos de lei do Senado – parados na Câmara dos Deputados – no sentido de permitir, sem deixar dúvidas, a prática da ortotanásia, que significa outra coisa. Consiste em oferecer apenas cuidados paliativos – assistência permanente, meios ordinários e medicamentos possíveis – àqueles pacientes terminais, que se recusam a receber tratamentos médicos extraordinários que prolonguem sua vida em condições precárias, ligados à máquinas, por exemplo. Tanto o Papa João Paulo II como o ex-governador paulista Mário Covas, no final de suas vidas optaram por cuidados paliativos.

Na cultura chinesa, entre as cinco felicidades que se deseja a todos, está a longevidade e a morte natural. De fato, viver bastante, envelhecer com boa saúde, autonomia pessoal preservada e, num determinado dia, partir tendo uma morte natural sem grandes sofrimentos é o que todos almejamos. Mas, e quando não acontece assim conosco ou com as pessoas que amamos? Como agir? Eu, por exemplo, já fui “notificada” pela natureza de que o “meu prazo de validade ” venceu. Obtive, com a ajuda dos profissionais da área da saúde, o beneplácito da prorrogação do prazo sine die. Para a hora de minha morte conto com uma falha fatal de meu broken heart. Mas, se isso não acontecer, desejo uma morte com dignidade e sem sofrimentos atrozes.

socrates-no-leito-de-morteO filósofo Sócrates que viveu na cidade de Atenas, na Grécia antiga, foi condenado à morte e faleceu ingerindo o veneno natural denominado cicuta. Poderia ter fugido e contava com a ajuda de amigos para fazê-lo, mas recusou-se. Para ele, a morte digna era preferível a ter de viver no ostracismo e sentir-se humilhado.

Por fim, há para ver alguns outros filmes que abordam essas sérias questões do final da vida, tais como “A bela que dorme “, “As invasões Bárbaras “, “Menina de Ouro ” etc, mas eu gostaria de indicar a você caro (a) leitor (a), um bom filme espanhol cujo título é “Mar Adentro “. Foi lançado em 2005, dirigido por Alejandro Amenábar e recebeu inúmeros prêmios. Baseado em fatos reais ocorrido com o cidadão espanhol Ramón Sampedro, que no filme é representado pelo excelente ator Javier Bardem. Trata-se ali do suicídio assistido dele, que era tetraplégico.mar adentro

E se desejar aprofundar-se nos estudos, há dois bons livros para ler: (a) “Distanásia “, de autoria do teólogo brasileiro Leo Pessini, publicado em 2001 pelas Edições Loyola/SP; (b) “Eutanásia, Ortotanásia e Distanásia – Aspectos médicos e jurídicos “, de autoria de Antonio C. Lopes, Carolina A.S. Lima e Luciano F. Santoro, 2ª edição em 2014, Editora Atheneu/SP.

Finalizando, recomendo ouvir uma boa música. Se puder ouça a belíssima composição do brasileiro Nelson Cavaquinho, “Juízo Final “, um samba, cantado e tocado divinamente nesta recente gravação feita pela jovem cantora israelense Noa Peled e o cantor brasileiro João Borba. Clique no link e confira:

Viver bem o presente é imprescindível, você não acha?

Inês do Amaral Buschel, em 19 de agosto de 2014.

 

Anúncios