COMPLEXO DE VIRA-LATAS & COMPLEXO DE CALIBAN

 O cabeçalho deste post também poderia ser o seguinte: NELSON RODRIGUES, dramaturgo brasileiro & WILLIAM SHAKESPEARE, dramaturgo inglês. O brasileiro Nelson, na condição de cronista de futebol, criou a expressão “complexo de vira-latas ” e o inglês Shakespeare, ao escrever a peça teatral “A Tempestade “, criou o personagem “Caliban “. E é sobre isso que irei escrever. Não conhecia essa peça teatral e aprendi sobre ela pela internet. Só sei que nada sei.  Todos os dias eu aprendo algo. Felizmente.livro a Tempestade

Neste momento em que se realiza no Brasil a “Copa do Mundo” muito se discutiu entre nós brasileiros, notadamente pelos poderosos meios de comunicação, a questão do complexo de inferioridade atribuído a uma parte do povo brasileiro. Vige, entre grande parcela dos brasileiros ricos e remediados, um sentimento social de que nada do que fazemos tem muita qualidade. Quem pensa dessa forma, sempre fala em relação ao Velho Mundo Ocidental.

Demonstram assim pensando, que se auto-desprezam em face, principalmente, dos povos europeus que há cinco séculos nos colonizaram. Parecem ser indivíduos sadomasoquistas que praticam o auto-flagelo sem se dar chicotadas, mas sentindo a dor delas. Nas profundezas de suas almas deliram, imaginando-se como seria bom se fossem verdadeiros europeus. Talvez, para essas pessoas, ser europeu seja o máximo da distinção social…!!??

o espelho de prósperoHá, também, aqueles que deliram, imaginando-se – ao menos! – ser americanos do norte, tais como canadenses ou estadunidenses. Para estes, embora esses povos também tenham sido colônias européias, deram mais certo do que nós sul-americanos, pois tornaram-se países ricos. Por mais que esses brasileiros acumulem riquezas, ainda assim não ficam satisfeitos, pois se sentem marcados por sua origem. É muito complexo mesmo esse sentimento de inferioridade!

Bem, mas vamos ao que nos interessa que é o conhecimento. Nessa briga “do rochedo com o mar ” travada entre os “donos” do poder midiático e seus leitores/expectadores/ouvintes, durante o antes e o depois da realização da Copa, eu acabei aprendendo com comentários de internautas inteligentes que havia uma imbricação entre os “vira-latas ” e os “Calibans “. Agradeço a esses anônimos que me deram a dica sobre “A Tempestade “.

Essa peça-comédia foi a última que Shakespeare escreveu sozinho, por volta do ano de 1611. Para alguns críticos “é considerada a obra mais pessoal e ousada dele. Relata a história de Próspero, duque de Milão, traído pelo próprio irmão e banido para uma ilha na companhia da filha criança. Depois de 12 anos no exílio, Próspero – uma espécie de mago – cria uma tempestade que faz naufragar o navio que leva seus desafetos, e pode finalmente colocar em prática a sua vingança.”

No contexto da peça há um personagem chamado Caliban (que seria um anagrama da palavra canibal), que era o único habitante daquela ilha e que foi escravizado por Próspero. Caliban detesta o seu amo, porém o obedece. E reconhece que aprendeu a linguagem com ele. Apesar de desejar ser livre, não consegue libertar-se, ainda que se rebele buscando a liberdade. Vive a praguejar contra seu senhor.

filme a tempestadePara que você caro(a) leitor(a) possa avaliar melhor essa história sugiro seguir o que fiz e aprendi: a leitura do texto integral da peça, traduzida para o português por Barbara Heliodora, Editora Nova Fronteira, edição Saraiva de Bolso, 2011. E, se puder, assista ao filme dirigido pela estadunidense Julie Taymor, lançado em 2010, com 110 minutos de duração. Nessa comédia-dramática, Próspero é representado por uma mulher – Próspera – protagonizada por Helen Mirren. Trata-se de uma produção ficcional moderna, com muitos efeitos especiais e boa trilha sonora.

Aprendi, ainda pela internet, que há um livro precioso que aborda a questão das idéias, do homem e da sociedade no Novo Mundo, com o título “O Espelho de Próspero “, de autoria do professor estadunidense Richard McGee Morse, que já foi traduzido para o português por Paulo Neves e publicado pela Cia. das Letras em 1988, mas que no momento encontra-se esgotado.

Para aqueles que nada sabem sobre a crônica escrita por Nelson Rodrigues no ano de 1958 – quando vencemos pela 1ª vez a Copa do Mundo – aqui está uma parte do texto:

“[…] Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.[…]

Se desejar ler a crônica integralmente, leia-a no livro “À sombra das Chuteiras Imortais “, coletânea organizada pelo escritor brasileiro Ruy Castro e publicado pela Cia. das Letras no ano de 1993. Obra também esgotada. Ou, se preferir, clique aqui: http://www.releituras.com/nelsonr_viralatas.aspChuteiras_Nelson

Há um recente curta-metragem dirigido por Leandro Caproni e produzido por Cabrueira Filmes e Sem Cortes Filmes, lançado em 2014, que é bastante abrangente e instrutivo sobre esse nosso “complexo de vira-latas”. Para assisti-lo clique no link abaixo:

http://outrocine.blogspot.com.br/2014/06/documentario-complexo-de-vira-latas.html

Finalizando, quero deixar bem claro que tenho alma Tupi e nunca sofri desse complexo. Tenho avós paternos germânicos que imigraram para o Brasil no final do século XIX, porque na Alemanha àquela época a vida estava muito difícil. Meus pais são brasileiros e eu nasci no bairro do Tatuapé (palavra tupi que significa “caminho dos tatus”), na cidade de São Paulo. E está tudo certo assim.

Sou muito feliz sendo brasileira e vivendo em solo pátrio. Não seria feliz fora daqui. E nunca achei que os povos estrangeiros fossem melhores do que nós. Eles podem ser mais velhos, aí isso sim. E, como povos mais velhos, acumularam sabedoria milenares. Mas, daí incluem-se os povos africanos e os asiáticos também, com os quais tenho muito a aprender, claro. Nunca invejei os povos só porque acumularam riquezas. É ridículo sentir isso. Temos de lutar para desenvolver o Brasil.

Perdemos a Copa desta vez. Fiquei triste sim. Mas amanhã será outro dia. O Sol nascerá de novo. Seguiremos em frente, pois há muitas coisas a fazer por aqui ainda. E, para celebrar a bela festa que promovemos nesta Copa, trago para você caro (a) leitor (a) uma música brasileira muito conhecida pelos povos estrangeiros, intitulada “Aquarela do Brasil “, de autoria de Ary Barroso, na voz de Gal Costa:

Abaixo o “complexo de vira-latas “! Saia dessa, sô!

Como bem disse nossa Presidenta Dilma, repetindo os versos da música “Volta por cima “, do grande compositor paulista Paulo Vanzolini, “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima! ”

Inês do Amaral Buschel, em 11 de julho de 2014.

 

 

 

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