O SENSO DE HUMOR E OUTROS SENSOS

Quando eu ainda era uma adolescente, no período do ensino médio, o professor de Filosofia recomendou-nos a leitura do livro “Discurso do Método“, do pensador francês René Descartes, aquele famoso pelo conceito de “Penso, logo existo”. Após, iríamos debatê-lo em sala de aula. Ao iniciar a leitura do livro, choquei-me logo na primeira parte, quando ele escreve a seguinte frase: “O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo:[…]

funny-comics-4Parei ali para refletir: como seria possível isso, se naquele exato momento em que eu lia aquilo, o governo dos EUA cometia atrocidades contra o povo do Vietnã e, aqui mesmo, em Terra Brasilis, na minha Sampa, eu havia assistido pasmada a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que percorria o centro da cidade em apoio ao Golpe de Estado no Brasil!! Na minha mocidade e ignorância, conclui comigo mesma: esse Descartes deve ser mais um louco varrido!

Na discussão em sala de aula o mestre nos explicou bem o que Descartes quis dizer com essa pequena e importantíssima obra. Entendi. Bom senso para Descartes era sinônimo de razão. Senso, é a faculdade de distinguir espontaneamente o verdadeiro do falso e de apreciar as coisas pelo seu justo valor.

Hoje, interpretamos bom senso como a faculdade de julgar de maneira sã nas circunstâncias ordinárias e práticas da vida. Capacidade de bem julgar, com medida e sangue-frio, acerca das questões concretas que não são suscetíveis de serem resolvidas com um raciocínio rigoroso. Opõe-se, então, à falta de discernimento, ao excesso de imaginação, ao espírito de sistema.sensodehumor

Mas, a partir da leitura de Descartes, as palavras senso, razão, dissenso, desrazão, sensatez e insensatez sempre me despertam a curiosidade. E, preciso contar a você, caro (a) leitor (a) que, quando já bem madura, no ano de 1996, deparei-me com uma outra obra intitulada “O Erro de Descartes – Emoção, razão e o cérebro humano “, este de autoria do neurologista português radicado nos EUA, António R. Damásio. Rapidamente tratei de lê-lo. E esta leitura influenciou-me muitíssimo. Mudei meu modo de pensar. Não é possível se falar em razão, sem se levar em conta a emoção do indivíduo que  pensa. Lembrei-me da seguinte frase muito antiga:

“Se os sentidos não são verdadeiros, toda nossa razão é falsa.” (Lucrécio, Tito C. – 96-55 a.C. – Poeta italiano)

E, naturalmente, lembrei-me também de Goya quando escreveu a frase “A razão cria monstros”. Emoção é um estado afetivo brusco, passageiro e violento, acompanhado de reações corporais.  Sentimento, por outro lado, significa perceber pelos sentidos, sentir, julgar. Estado afetivo em geral; estado afetivo que tem uma pessoa por objeto (sentimento de ciúme). Paixão ou emoção superior, que tem causas morais (sentimento estético).bom dia

Interessei-me ainda pelo conceito de senso comum, que é um conjunto de opiniões admitidas. São noções comuns a todos os seres humanos. Está na razão, mas não é toda a razão. E um conjunto de opiniões ou crenças admitidas numa sociedade determinada; exercício do juízo que depende dos valores tradicionais, da cultura local. Por exemplo, entre nós, os brasileiros, há a crença de que não se pode tomar leite e comer manga pois nos envenenamos ou, então, ao tomar cachaça deveremos jogar um pouco dela no chão para oferecer ao santo.

MauHUMORÉ, enfim, o conjunto das opiniões tão geralmente admitidas, numa dada época e num dado meio, que as opiniões contrárias aparecem como aberrações individuais, inúteis de se refutar seriamente e de que mais vale nós rirmos delas, se forem ligeiras. Mas, caso se tornem graves será necessário tratá-las seriamente. Por exemplo, nas condutas preconceituosas que discriminam pessoas que se comportam diferentemente da maioria. Poderá até ser um costume local antigo, mas hoje é considerado crime.

E há o senso moral que consiste na consciência moral considerada inata e intuitiva, sentimento inato do bem e do mal. Dizem que até mesmo as crianças o desenvolvem. Sabem que não podem tirar o brinquedo que pertence ao amiguinho (a). Será? Mas, percebo que nem todos os seres humanos aprendem isso facilmente. Será inato mesmo?

E, por aí vai, tem senso crítico, senso de justiça, senso íntimo e o senso de humor que considero importantíssimo para ser feliz nesta vida. Estar de bom humor é sinal de sanidade mental. É impossível viver bem estando sempre de mau humor. A irritação transmite raiva, provoca discórdia. O bom humor, ao contrário, transmite alegria, provoca risos e descontração. Gera simpatia. É uma virtude humana tal qual a gentileza, a prudência etc. Li, um dia, as seguintes frases atribuídas a médicos:torresmocapa5b45d2

“A alegria exerce influência poderosa nos doentes e nos fracos: aos primeiros dá-lhes a possibilidade de cura, aos segundos o de viverem apesar da sua debilidade.”

“Não há nenhuma parte do corpo, dos mínimos vasos sangüíneos, que não recebam um afluxo de sangue nas concentrações de um riso franco e bom.”

doutores-da-alegriaA Ong brasileira denominada “Doutores da Alegria ” e outros tantos grupos semelhantes, sabem bem disso. Esses fatos também inspiraram a vida do Dr. Patch Adams, protagonista do filme que leva seu nome ” Patch Adams – O amor é contagioso “. Se desejar, clique no linkhttps://www.youtube.com/watch?v=VGaMOAoTA1E

Dessas considerações todas a respeito da saúde, deve ter surgido o dito popular (senso comum) “rir é o melhor remédio“. É muito importante também que não nos levemos à sério demais. A arrogância ou a sisudez não significa, necessariamente, seriedade na conduta. E devemos distinguir bom humor de ironia, pois esta é sarcástica e via de regra serve sempre para desqualificar alguém.

No que consistiria o humor? É a capacidade de valorizar o cômico, o pitoresco, o absurdo ou o insólito; ironia de uma situação, de um acontecimento; disposição do espírito; veia cômica; disposição de ânimo; capacidade de perceber, apreciar ou expressar o que é cômico ou divertido. Segundo os dicionários, poderíamos classificar nossos humores assim:

bom humor : humor alegre, transmissão de esperança, otimismo, simpatia, segurança.

mau humor : humor triste, pessimismo, desânimo, irritação, agressividade, insegurança.OH-VIDA-OH-CEUS

humor negro : humor cruel, que faz rir de situações ou ações trágicas ou cruéis.

No dizer de J. Delay, humor é o conjunto das disposições afetivas e instintivas que determinam a tonalidade fundamental da atividade psíquica, capaz de oscilar entre os pólos da euforia expansiva e da depressão dolorosa: a noção é fácil de entender, mas difícil de definir. O caráter holístico do humor não pode ser expresso senão por uma globalização: estar de bom humor, de mau humor… (Dic. De Psicologia, Roland Doron e Françoise Parot, Ática, 1998,pág.400).

abacaxiAprendi que nossa alimentação pode melhorar o funcionamento de nossos neurotransmissores, tais como a serotonina. É preciso lutar e não se deixar abater com os males que surgem repentinamente, durante o transcurso de nossas vidas. Há sempre a possibilidade de olharmos com esperança diante de qualquer tragédia, dependendo de nossa maneira de ver o mundo: com otimismo ou com pessimismo. Nosso espírito, que é inesgotável, nos definirá. É preciso explorá-lo bem.chocolate

Para que não paire dúvidas em seu espírito sobre a importância de se cuidar e manter o bom humor sempre, basta recordarmos que para a medicina clássica, alguns transtornos psíquicos são denominados de “distúrbios do humor” ou “doenças afetivas”. Isto porque o prejuízo causado por esses males está exatamente na perda da capacidade crítica, do afeto e do humor.

E por falar sobre isso – transtornos psíquicos –  há um bom filme britânico lançado em 1994, dirigido por Nicholas Hytner, que aborda tais distúrbios. O título é “As loucuras do rei George“. Dê um clique e o assista:  https://www.youtube.com/watch?v=E4_1jo05z_w

Li num livro cujo título é “Uma história cultural do humor “, editora Record-RJ, 2000 – uma coletânea de artigos de estudiosos que pesquisam o humor no transcorrer dos tempos  – que, nos meios eclesiásticos no período da Idade Média, havia entre as pessoas uma dúvida se Jesus rira alguma vez em sua vida terrena. Bem, se ele riu ou não, nunca saberemos ao certo. Todavia, o atual Papa Francisco, argentino de nascimento, é muito risonho e franco.papa-francisco1

Mafalda2Nós, os brasileiros que vivemos nas grandes cidades, estamos perdendo o bom humor. O mau humor tem prevalecido entre nós. Dizem até que o “deus mercado ” anda pessimista. Que significará isso? Sei lá. Só sei que viver entre pessoas mal-humoradas é péssimo e nos traz infelicidade. Nós teremos de reencontrar a alegria coletiva de maneira saudável, sem que seja necessário irritar aos demais que pensam diferente.

Para finalizar, escolhi uma belíssima música composta pelo poetinha Vinicius de Moraes em parceria com o violonista Baden Powel ” Samba da Benção “. Você poderá ouvi-la na bela voz de Maria Bethania,  clicando aqui:

E você, caro leitor(a) acha importante cultivar o bom humor?

Inês do Amaral Buschel, em 14 de junho de 2014.

 

 

 

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