MAESTRO HEITOR VILLA-LOBOS, o telúrico compositor da alma brasileira

Na semana passada, fiz um passeio que adoro fazer sempre: pesquisar numa loja de discos, buscando novos CDs de música. Sim, caro leitor (a),  não sou da geração “download“. Tenho muitos CDs e LPs de música de Villa-Lobos, mas fiquei bastante contente ao encontrar, num cantinho de música instrumental brasileira, dois CDs mais ou menos recentes, com música de Villa-Lobos: um do arranjador Mário Adnet, com o nome de “Um olhar sobre Villa-Lobos“, lançado em 2012 e, um outro, do grupo Pau Brasil, denominado “Villa-Lobos Superstar“, lançado em 2011. Comprei ambos. Ao retornar para casa e colocá-los para tocar, fiquei encantada! É sempre maravilhoso ouvir a música de Villa, notadamente quando tocada/cantada por artistas tão competentes e sensíveis!

Estava certo o filósofo Nietzsche, quando disse: Sem música a vida não faria sentido!Villa-Lobos

Amo a música. Lembrei-me de que há exatos quatro anos, eu já escrevera um post publicado neste mesmo blog, onde confesso meu profundo amor pela música, embora, infelizmente, não saiba tocar quaisquer instrumento. Gosto de ouvir música clássica/erudita, mas no cotidiano prefiro ouvir música popular. Naquele post datado de 2010, ao final, eu faço uma referência ao maestro Villa-Lobos, compositor genial que tanto admiro:

https://blogdaines.wordpress.com/2010/02/23/amo-a-musica/

Decidi fazer mais esta homenagem, contando um pouco sobre o que sei da vida dele, até mesmo porque, no próximo dia 5 de março, nosso mais famoso regente-compositor-violoncelista completaria cento e vinte sete anos, pois nasceu no ano de 1887 na cidade do Rio de Janeiro. Ele faleceu no dia 17 de novembro de 1959, com setenta e dois anos de idade, vítima de câncer na bexiga. Lutou bravamente contra a doença durante onze anos. Talvez, o seu hábito de fumar muitos charutos durante toda vida, tenha prejudicado sua saúde.

Bem, caso você caro (a) leitor não saiba, ele era filho de Raul Villa-Lobos e Noêmia Monteiro Villa-Lobos, casal de classe média e de poucas posses. O maestro, desde criança, não gostava do seu nome “Heitor” dado por seu pai e, então, era chamado pelo apelido de “Tuhú”, inventado por sua mãe. Ela desejara que seu filho se chamasse Túlio, mas o marido discordou, por isso ela criou esse apelido. Desse casamento nasceram oito filhos, e “Tuhú” foi o segundo. Quatro irmãos dele morreram ainda na infância.

Willa-Lobos_cuícaVilla, como também gostava de ser chamado, teve dois longos casamentos, ambos com musicistas: Lucília Guimarães e Arminda Neves d’Almeida (Mindinha). Com Lucília, que era pianista, ele aprendeu a tocar piano. Este primeiro casamento durou vinte e três anos. Ela nunca concordou em separar-se legalmente dele, embora a vida em comum tenha sido bastante tumultuada. O maestro parecia ser de difícil trato.

Então, Villa, contando com quarenta e nove anos, decidiu sair de casa e ir viver em união estável com Mindinha, a partir de 1936. Eles trabalhavam juntos e ela era vinte e cinco anos mais moça do que ele. Ao que tudo indica, o grande amor de sua vida foi Mindinha, além é claro, de Johann Sebastian Bach e do violão. Ele e Mindinha  viveram juntos durante outros vinte e três anos. Heitor Villa-Lobos não deixou filhos. O maestro nunca acumulou riqueza, tendo vivido sempre em dificuldades financeiras. Aliás, como a maioria dos artistas até hoje.

Foi o pai Raul quem o iniciou nos estudos da música. Ele era um homem culto, funcionário da Biblioteca Nacional e amava a música. Tocava clarinete e violoncelo, e promovia concertos musicais em sua própria casa, dos quais Tuhú participava como ouvinte desde criança. O pai ensinou-lhe a reconhecer as notas musicais, bem como a tocar violoncelo e clarinete. E era exigente na disciplina. Infelizmente, o Sr. Raul contraiu varíola e veio a falecer com apenas 37 anos. À essa época Tuhú tinha doze anos. Toda a família ficou em situação bem difícil.

Acho que o pai de Tuhú ficaria felicíssimo se pudesse saber que seu filho tornou-me a maior expressão de música clássica das Américas. Ele explorou os diversos sons de nossos instrumentos musicais. Tocava bem violão, violoncelo, clarinete, e piano. E regia e compunha. Compôs Choros, Bachianas, Sinfonias, Concertos, trilhas sonoras para filmes, Operetas, Cirandas, Canções e até mesmo criou um programa educacional de Canto Orfeônico, para os estudantes do ensino fundamental brasileiro! De fato, foi um gênio da música! E, apesar de muito estudo e esforço próprio, nunca conseguiu seguir os cânones acadêmicos, pois era um rebelde. Foi um autodidata. Nosso poeta Carlos Drummond de Andrade, certa vez, disse que a palavra que bem definia Villa-Lobos era “telúrico”.Tuhu3

Apesar disso tudo, como inovava demais em suas criações, recebeu muitas vaias também. E foi bastante criticado pelo fato de seu programa de Canto Orfeônico desenvolver-se no período do Estado Novo, no governo ditatorial de Getúlio Vargas. Além disso, seu ufanismo nacionalista muitas vezes não era bem visto. Todavia, tudo que fez foi por amor à música e ao povo brasileiro. Era esse o seu foco. Dizia sempre que se sentia profundamente brasileiro. Conquistou muitos amigos aqui e pelo mundo inteiro. Fundou a Academia Brasileira de Música. Foi um criador.

Muitos anos depois, um outro maestro soberano,Tom Jobim, teria dito a respeito de críticas ácidas que ele, Tom, também recebera: “No Brasil, fazer sucesso é ofensa pessoal.”

Conta-se que Villa adorava inventar passagens inusitadas em sua vida, para impressionar o interlocutor. Tinha bom humor, o Tuhú! Há inúmeras aventuras contadas por ele, inverossímeis, a respeito da convivência dele com índios no Amazonas. Criava, também, frases bem marcantes, tais como – o folclore sou eu!; não vim a Paris para aprender, mas para mostrar o que fiz; logo que sinto a influência de alguém, me sacudo todo e pulo fora; considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta; se no cartaz que me anunciar nos EUA estiver escrito meu nome e abaixo a explicação – um compositor brasileiro – não aparecerei em cena, pois ao anunciar Stravinsky, não explicitam “um compositor russo“.

Por falar em Amazonas, Villa gostava de referir-se a si próprio como “índio branco”. Compôs uma música com o nome de “Dança do índio Branco“. Caso queira ouvi-la ao piano com Nelson Freire, bastará clicar aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=M95k3bhIYM8

Bem, em vez de continuar escrevendo sobre a vida do maestro, prefiro indicar a você caro leitor (a), um ótimo documentário denominado ” Heitor Villa-Lobos – um índio de casaca “, datado de 1987, produzido pela antiga Rede Manchete, com 110 minutos de duração. A direção é de Roberto Feith, com narração do ator Paulo José. Dê um clique abaixo e o assista com prazer:  https://www.youtube.com/watch?v=Bz-laUf22Ts

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Nossos violonistas e pianistas beberam muito dessa inesgotável fonte “villalobona”, tais como Baden Powell, Turíbio Santos, Marco Pereira, Leandro Carvalho, Tom Jobim, Miguel Proença, Anna S.Schic, Nelson Freire, Marcelo Bratke, Nelson Ayres, Clara Sverner, Sonia Rubinsky e tantos outros músicos brasileiros e estrangeiros. Quando eu era bem jovem, lá pelo final da década de 60, adorava ouvir nossa divina Elizeth Cardoso cantando. Ela era encantadora. Foi ouvindo-a que conheci duas belas músicas de Villa-Lobos: Melodia Sentimental e Bachianas nº 5.

A linda letra de “Melodia Sentimental” é de autoria da poetisa Dora Alencar Vasconcelos, que foi muito amiga de Villa. Ela fazia parte do corpo diplomático do Itamaraty e vivia nos Estados Unidos. Essa música já foi gravada incontáveis vezes, pelos mais diversos cantores líricos ou populares e por dezenas de instrumentistas pelo mundo afora. Já ouvi também as belas gravações dessa canção nas vozes de Bidu Sayão, Maria Lúcia Godoy, Maria Bethania, Zizi Possi, Olivia Byington, Mônica Salmaso, Sandy, Ney Matogrosso, João Bosco, Djavan, Antonio Nóbrega e muitos outros. Bastará ir até o You Tube para ouví-los.

Todavia, ainda me emociono muito ao ouvir a enluarada Elizeth cantando. Dê um clique aqui e confira:  https://www.youtube.com/watch?v=m-FIBRopDWo

 

Villa-Lobos gostava muito da interpretação da cantora lírica Bidú Sayão, uma brasileira que fez sucesso nos E.U.A. Caso queira saber mais sobre ela, caro leitor(a), dê um clique: http://www2.uol.com.br/spimagem/personalidades/historicas/bidu_sayao/

E, se quiser ouví-la cantando Bachianas nº 5 – que é lindíssimo! – bastará clicar aqui: https://www.youtube.com/watch?v=bLZD0XplYrI

Após a morte de Villa, já no governo de Juscelino Kubitschek, foi criado o Museu Villa-Lobos com a finalidade de preservar sua obra monumental e também difundi-la. A viúva Mindinha foi quem cuidou do Museu durante mais de vinte anos seguidos. Ela faleceu em 1985. O atual diretor do Museu é o maestro e pianista Wagner Tiso. http://www.museusdorio.com.br/joomla/index.php?option=com_k2&view=item&id=86:museu-villa-lobos-mvl&Itemid=234

Além das dicas que já ofereci no final daquele post publicado em 2010, acima referido, tais como o primeiro livro biográfico publicado sobre Villa, de autoria de Vasco Mariz e o filme brasileiro “Villa-Lobos, uma vida de paixão“, dirigido por Zelito Viana e lançado em 2000, cujo link é:  http://www.youtube.com/watch?v=OIEu61qH2BQ  , gostaria ainda de acrescentar mais algumas dicas de publicações brasileiras, para quem quiser saber mais sobre a bela, agitada e criativa vida do maestro:

500 Cruzados

(a) obra escrita por Paulo Renato Guérios, “Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação“, publicada em 2003, com 2º edição em 2009 e que poderá ser adquirida através do site http://www.parabole.com.br/p/62 ;

(b) “Villa-Lobos – Alma Brasileira”, de autoria de Maria Maia, publicado pela PETROBRÁS em 2000;

(c) “Villa-Lobos – o florescimento da música brasileira“, de autoria de Manuel Negwer, da editora Martins Fontes/SP, 2009;  e, finalmente,

(d) “Villa-Lobos”, de autoria do violonista e professor Fábio Zanon, da coleção Folha Explica(SP)-volume 82, publicado em 2009.

Busto de Villa  e eu, no Teatro Amazonas, em 2010.

Busto de Villa e eu, no Teatro Amazonas, em 2010.

Enfim, era esta bonita história que eu queria contar a você, caro leitor (a). Se, por acaso, gostar de ouvir música, valerá a pena explorar o infinito mundo musical criado por nosso maestro maior, Heitor Villa-Lobos, o Tuhú.

Lembre-se de, no próximo dia 5 de março, dar um Viva a Villa-Lobos

Inês do Amaral Büschel, em 22 de fevereiro de 2014.

ATUALIZANDO: após a publicação deste post, tomei conhecimento de  um excelente trabalho sobre Villa-Lobos,  produzido e publicado no último dia 1º março pela EBC-Empresa Brasil de Comunicação . Se desejar acessá-lo bastará clicar neste link: http://conteudo.ebc.com.br/portal/projetos/2014/villalobos/

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