UBUNTU, uma palavra africana.

ubuntu2Há alguns anos tive a oportunidade de conhecer essa palavra e gostei dela. Eu gosto das palavras e lhes dou muita importância, porque sei de sua força. Uma palavra pode te enlevar ou te apunhalar. Enquanto não alcanço a compreensão de uma palavra, não sossego. Mantenho os dicionários – popularmente conhecidos como “pai dos burros” – sempre por perto. Pois um dia, quando pesquisava sobre a segregação racial , ouvi o bem-humorado Arcebispo da Igreja Anglicana na Cidade do Cabo, na África do Sul, Desmond Tutu, pronunciar a palavra ubuntu. Fiquei impressionada pelo conceito nela contido: “Eu sou porque nós somos” ou, em outras palavras, ” Eu só existo porque nós existimos”.

Esse Arcebispo que, no último dia 7 de outubro acaba de completar 82 anos de vida – aliás, muito bem vivida – se tornou conhecido mundialmente, por sua luta incansável contra o apartheid cometido contra o povo negro, que vigorou por dezenas de anos em seu país. E por essa sua luta cidadã, conquistou o Prêmio Nobel da Paz no ano 1984. Após o fim da segregação racial, com a eleição de Nelson Mandela para Presidente da África do Sul, Desmond Tutu, em 1996, presidiu a Comissão da Verdade e Reconciliação daquele país, constituída para investigar os crimes de violação de direitos humanos durante o período de vigência do apartheid e, depois , dependendo da situação relatada e da concordância das vítimas ou suas famílias, conceder ou não a anistia aos culpados.

Nós, o povo brasileiro, trazemos dentro de nós muito da cultura africana. Esses costumes nos foram transmitidos pelos mais diversos povos africanos, que foram forçados a viver no Brasil como escravos. Falamos, cotidianamente, infinitas palavras de origem africana sem sequer nos apercebermos disso. São exemplos: bagunça, bafafá, fubá, bunda, marimbondo, minhoca, moleque, muxoxo, samba, tanga, quitanda etc. Porém, infelizmente, não aprendemos a bela palavra ubuntu, que tem a sílaba tônica em “bu” : “ubúntu“.

Como sou muito curiosa, debrucei-me nas pesquisas para entender melhor o significado de ubuntu. Esclareço de antemão que não sou especialista em lingüística e nem africanista. Sou apenas uma pessoa curiosa, nada mais. Vou contar a você o que captei.

Descobri que a palavra ubuntu origina-se da família lingüística localizada na região sul do continente africano, notadamente, da língua Zulu e Xhosa da África do Sul, portanto dos povos Banto. Todavia, é preciso atentar-se para a complexidade dos grupos lingüísticos ali existentes. Encontrei registros explicando que essa palavra surge de um conhecido provérbio Zulu – ou será Xhosa? – que diz o seguinte: “Umuntu Ngumuntu Ngabantu“, que na língua portuguesa significaria “Uma pessoa é uma pessoa por intermédio das outras pessoas“.

Kaspar Hauser

Kaspar Hauser

Esse ensinamento faz todo sentido. Basta verificarmos os diversos casos históricos – lendários ou reais – que demonstram o fato de que, crianças abandonadas ou perdidas nas florestas e que foram criadas em meio aos animais, apesar de manterem a forma corporal humana, claro, não tem o comportamento humano padrão. No ano passado, em 2012, na TV Animal Planet, foi exibido um documentário a esse respeito, com o título de “Criadas por Animais”.
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1146501-serie-criadas-por-animais-investiga-crianca-criada-como-bicho.shtml

Ubuntu, então, é uma palavra complexa que, ao fim e ao cabo, traduz-se num conceito moral, numa filosofia, num modo de viver. Nas sociedades africanas dá-se muita importância ao altruísmo coletivo, à partilha e a colaboração entre os seres humanos sempre com o devido respeito. Ubuntu também poderá ser entendido como um guia de conduta social solidária. Aprende-se o comportamento humano civilizado.

As pessoas não devem levar vantagem pessoal em detrimento do bem-estar do grupo. Para que uma pessoa seja feliz será preciso que todas do grupo se sintam felizes. A sociedade africana entende que nós, os seres humanos, somos conectados uns com os outros, daí nossa humanidade. E que essa relação diz respeito também aos ancestrais mortos, aos vivos e aos que ainda nascerão. Se desejar compreender melhor tudo isso, ouça o próprio Desmond Tutu explicando. Bastará clicar aqui:

Talvez, para melhor compreendermos esse conceito africano, considerando-se que somos de uma cultura ocidentalizada bastante diferente, poderíamos fazer um paralelo com o mandamento cristão que diz: “Ama ao teu próximo como a ti mesmo” ou “Amai-vos uns aos outros“. Também poderemos entendê-la lembrando que sentir compaixão pelo outro é um sentimento absolutamente indispensável, de colocar-se no lugar desse outro. Todavia, sentir compaixão não significa ser caridoso, sentir pena. É muito mais do que isso, é ter um senso de identificação sincera, humilde, com a dor do outro que é um ser humano tal qual você é, sem distinção de credo, nacionalidade, sexo ou classe social. É isso.

Ah!, preciso contar a você – se é que você já não sabe disso – que há alguns anos, criou-se um novo sistema operacional da plataforma Linux, portanto, aberto e para ser compartilhado por todos gratuitamente, e lhe deram o nome de Ubuntu! Bem apropriado, não é? Linux_ubuntu
http://www.ubuntu-br.org/

Por que agora me lembrei da palavra ubuntu? Posso me explicar. Costumo brincar apresentando-me como parenta distante de Gandhi, pois sou pacifista. Desde a juventude admiro, além de Mahatma Gandhi, as idéias do escritor russo Leon Tolstói, dos estadunidenses Henry Thoreau e Martin Luther King Jr., bem como do líder político sul-africano Nelson Mandela. Como eles, insisto numa conduta de não-violência. Não gosto de armas de fogo e muito menos de armas químicas. Acredito no diálogo, embora reconheça que, como bem disse certa feita Mandela, o inimigo às vezes nos impõe o uso da violência.

E, neste momento, ando bastante desolada com as demonstrações de ódio pelo mundo afora e também com a violência urbana e rural brasileira. Chego a pensar que as pessoas perderam a confiança umas nas outras. Parece que muitos desejam destruir o outro e de quebra, destruir também a sociedade humana. Alguns inventaram até um ativismo autônomo ou autoral, seja lá o que isso signifique. Não entendo. Ou melhor, entendo. Trata-se do individualismo exacerbado predominando. Pessoas “autônomas” que desprezam a democracia representativa e também a democracia participativa de forma civilizada.

Cada um é líder de si mesmo. Dane-se os outros. Uma parcela dos brasileiros jovens, residentes nas grandes cidades, voltaram a andar nas ruas em bandos e mascarados – como na nossa pré-história – e escolhem a seu bel prazer os alvos para depredação. Poderá ser patrimônio público ou privado, tanto faz. Só que em vez de machados ou tacapes, agora usam picaretas, paus, pedras, tacos de beisebol, coquetéis molotov caseiros. Ameaçam policiais e tocam fogo em ônibus, carros ou viaturas. Para onde iremos desse jeito? Para a conquista da paz social é que não é!

O cruel regime ditatorial brasileiro terminou há três décadas e agora vivemos sob um regime democrático, onde cada pessoa vale um voto. Não é pouca coisa. Houve uma luta ferrenha, sangrenta e muito desigual para conquistarmos a democracia política, na forma representativa ou participativa. Morreu muita gente nesse caminho. A maioria muito jovem, inclusive. E, no entanto, parece até que perdemos o total respeito por nossos mortos. Não os reverenciamos. Nos esquecemos deles.

As forças policiais civis e militares, de maneira geral, parecem continuar vivendo um país em que os adversários políticos eram considerados inimigos da pátria, como numa guerra civil disfarçada. A tortura de pessoas – agora os pobres – continua ocorrendo nos porões. Nas ruas há muita façanha policial, com as honrosas exceções de praxe. E os jovens da periferia se cansaram de ser sacos de pancadas. Agora eles também partiram para a pancadaria. É um salve-se quem puder diante da selvageria.

Cabe aqui lembrar algumas palavras ditas por Mandela, em seu livro autobiográfico “Longo Caminho para a liberdade“:”…Ninguém nasce detestando outra pessoa por causa da cor da pele, da formação ou da religião. As pessoas precisam aprender a odiar, e se conseguem aprender a odiar também conseguem aprender a amar, pois o amor chega ao coração humano com mais naturalidade que seu oposto…”

Que fazer? Não sei a resposta. Por isso, lembrei-me do ubuntu. Bem que poderíamos aprender algo com os costumes dos povos Bantos e sairmos em busca do respeito humano entre nós, pobres e ricos. Nos tornaríamos, de verdade, um povo civilizado e igualitário. Não vejo outra saída senão um diálogo político, nos termos do ubuntu, ou seja, com humanidade. Para isso, todos terão de ceder um pouco. Considerando-se a nossa obscena desigualdade social, por justiça aqueles que detém a maior fatia da riqueza nacional terão de ceder primeiro. Esta deverá ser a primeira regra, em nome da harmonia social e de um futuro promissor para nosso belíssimo país.ubuntu_alegria

Saravá!

Inês do Amaral Büschel, em 26 de outubro de 2013.

Anúncios