APOLÍTICOS, APARTIDÁRIOS OU ANTIPARTIDOS

apartidario Depois de assistir pela TV as manifestações de rua no mês de junho de 2013 em todo o Brasil, eu fiquei perplexa, diante de alguns cartazes que ostentavam os dizeres “SEM PARTIDOS” “FORA PARTIDOS E POLÍTICOS”. Fiquei cá a pensaire: ué, esse pessoal é contra a democracia? Que se passa?

Sim, porque aprendi nas melhores escolas e livros, que os partidos políticos são a essência da democracia representativa moderna. Então, lembrei-me do grande poeta Drummond: E agora, José? A festa acabou […]? Os manifestantes querem o fim da democracia? O que pretendem? O que colocarão no lugar? Sei lá, acho tudo isso muito perigoso. Já vi esse filme em épocas passadas e não gostei nem um pouco.

Jabuticabeira

Jabuticabeira

Daí, me pus a refletir, e veio-me a impressão de que, tirante os jovens adultos do Movimento Passe Livre (os sem catraca) e os muitos antipetistas e antidilmistas que parecem saber mesmo o que desejam, uma grande massa mimetiza-os sem saber bem para onde quer ir. Milhões estão insatisfeitos com a própria vida que levam e querem demonstrar isso. Há um mal-estar na civilização, como diria o Dr. Freud.

Certamente, quase todos os manifestantes, com raríssimas exceções, por algumas vezes já deram com a cara na porta nos hospitais e postos de saúde pública, e também nos serviços médicos conveniados pelos planos de saúde particulares que pagam, mensalmente, com bastante sacrifício.

Por outro lado, nas escolas públicas e nas particulares que também pagam com muito sacrifício pessoal, da mesma forma não se sentem respeitados e enxergam muito descaso pelo problema alheio, por parte da direção do ensino. Se a problemática estiver fora da “casinha”, ou seja, não está prevista no regulamento, não haverá solução. A idéia central é cada um com seus problemas e ponto final. Vá procurar a Justiça, é a recomendação básica. Aiaiaiaiai!!, procurar a Justiça? E se começa por onde, por favor, pode explicar?

E há também os milhares de cidadãos que não tem moradia ou, se tem alguma, não conseguem pagar os exorbitantes aluguéis mensais. Querem proteção, dignidade e segurança.

Pelas redes sociais, muitos jovens adultos – outros não tão jovens assim – acharam por bem combinar de sair às ruas, para desse modo, em multidão, manifestarem suas legítimas insatisfações com o desrespeito aos seus direitos. Daí, lá vem a Polícia Militar baixando o cassetete, gás lacrimogêneo, balas de borracha, spray de pimenta, gritos, empurrões, detenções. Muitos apanharam, foram presos, machucaram-se seriamente e, alguns, até perderam a visão de algum olho atingidos por bala de borracha ou artefato de gás. Outros, infelizmente, morreram atropelados por veículos conduzidos por motoristas neuróticos ou, então, por terem caído dos viadutos da cidade durante a confusão. Muito triste.

Policiais também apanharam ou foram ameaçados. Um horror tudo isso que se passou. Todo esse sofrimento não poderá ter sido em vão. E, oxalá, não tenha sido. Algo, de fato, melhorou de lá prá cá. Alguns pedidos até já foram atendidos por diversos governantes. Mas foram poucas as conquistas, muito poucas.

Acho que aqueles que gritaram que o “gigante acordou”, talvez não soubessem que ele é sonâmbulo. Adormeceu novamente, retornando para sua zona de conforto. Nos deixou alguns black blocs a fazer quebra-quebras contra os símbolos do capitalismo, no dizer deles mesmos. Daí, os desordeiros de sempre, tomam carona da luta alheia e quebram tudo o que vem pela frente. E lá vem a PM mais uma vez em pé de guerra contra os subversivos…e la nave vaapolíticos

Pois bem. Essa multidão insatisfeita e, em parte também ignorante e despolitizada, pois não foi educada suficientemente para a vida no coletivo – que é a essência da Politica – ouve e lê, diuturnamente, como num pensamento único – em uníssono – nos jornais, nas redes sociais e em todas as emissoras de rádio e tv, sejam canais abertos ou por assinaturas, tanto faz, jornalistas e também especialistas em generalidades, mas também historiadores, médicos, advogados, juízes de direito, promotores de justiça, filósofos, sociólogos, professores etc, afirmarem que todos os políticos não prestam e que o mundo da política é sujo. Generalizam e nunca se referem à algum político brasileiro honesto. E há muitos.

E que a corrupção é uma epidemia nacional, dando a entender que nos outros países as coisas são muito melhores do que aqui. Esses profissionais – sem querer querendo – ferem de morte o nosso jovem regime democrático, desacreditando-o publicamente. A quem, na verdade, servem esses senhores (as)? Talvez a NSA possa nos responder um dia…se Mr. Obama deixar…

televisaoEsses jornais e essas emissoras de rádio e TV, através de seus locutores, jornalistas, comentaristas, também alardeiam, ininterruptamente, que o Brasil é o país dos impostos. Que os impostos daqui são os mais altos do mundo. E isso não é verdade, pois o país que mais recolhe impostos no mundo, que eu saiba, é a Suécia. Jamais, em tempo algum, esses profissionais da mídia em geral, que adoram acusar os governos, questionam a criminosa sonegação de impostos pelos ricos ou o lucro excessivo dos empresários à custa dos baixos salários pagos aos trabalhadores. Ou dos baixos salários pagos também pelo Poder Público – federal, estadual e municipal – aos servidores administrativos ou professores da rede pública.

Aliás, esse pessoal da mídia parece não gostar de falar sobre salários. Talvez se identifiquem com os patrões/concessionários e acreditem nessa nova lorota do capital, que utiliza a palavra colaboradores em vez de usar apenas trabalhadores. Por certo acham que não lhes cai bem serem referidos como trabalhadores. Ah!, talvez, também tenham sido contratados como PJ (pessoa jurídica), a mais nova moda utilizada pelos empregadores para lesar o trabalhador, fugindo das obrigações trabalhistas legais.

Esses opinadores/fazedores de opinião, costumam afirmar, categoricamente, que o Estado/Poder Público é necessário, mas deve ser mínimo e cortar ao máximo os gastos públicos. Parece até que o Poder Público deve existir apenas para apoiar o empresariado nacional ou estrangeiro, pois estes – na opinião desse pessoal – dão emprego à população. São seres de luz, os tais empresários empreendedores.

Tempos Modernos

Tempos Modernos

Esquecem, esses papagaios do pirata, que os empresários necessitam que o Estado lhes forneça mão-de-obra alfabetizada, bem educada e com ótima saúde física e mental. Isso é obrigação do Estado, na opinião deles, os empresários. E quem pagará essa conta se reclamam do alto custo dos impostos e ainda os sonegam?

Para esses palpiteiros, o Estado não foi criado para apoiar a pessoa humana, mas tão somente as pessoas jurídicas (empresas). Em regra, acham o bolsa-família o fim da picada. O SUS, então, acham um horror. Adoram falar em empreendedorismo, no self made man. Talvez o ídolo desse pessoal seja o personagem literário Robinson Crusoé, que se virou sozinho na mata. Mas, o que eles não contam – ou sequer saibam – é que esse personagem foi construído sobre uma pessoa muito bem educada na Inglaterra, e que pode escolher o seu caminho, tomando o rumo dos mares.

Por outro lado, tenho observado no meu entorno, que a maioria das pessoas estão encantadas com campanhas contra a corrupção, a favor da defesa do meio ambiente , a favor da proteção dos animais, a favor do casamento gay etc. São pró-ativas e nunca contra nada, exceto contra à corrupção, claro! Quem poderá em sã consciência divergir dessas propostas? Nem o Papa Francisco!

ecaindigenaMas, bastará você dizer que também é preciso discutir a questão da sonegação de impostos, a questão indígena, a reforma agrária, a moradia digna para todos, o sistema penitenciário, a questão do estado laico, a reforma tributária e a reforma política, a tributação sobre grandes fortunas, a questão da assistência permanente aos doentes mentais e seus familiares, o subemprego, o abandono paternal das crianças, o racismo contra o povo negro, a questão do povo refugiado, a desmilitarização da polícia estadual etc, para começar a dispersão. Não restará um ao seu lado. Quando você tenta conversar sobre esses assuntos, daí o caldo entorna de vez e as pessoas não querem mais papo. Tem sempre algo a fazer e estão com pressa. Saem de fininho.

Talvez seja porque esses temas denotem um perfil da esquerda política. O pessoal posicionado na direita política, também não quer saber de falar desses assuntos desagradáveis. No fundo, a maior parte das pessoas – salvo se estiverem, de certa maneira, protegidas pela multidão – tem medo de se expor e dar sua opinião seriamente, como cidadãos comuns. É rara a coragem cívica individual. Eu me pergunto: será que esse comportamento medroso é uma herança maldita após 21 anos sob uma cruel ditadura, que gostava de prender, torturar e matar aqueles que pensavam, falavam e escreviam, trocavam idéias sobre o que era melhor para o Brasil? Ou o Millôr é que estava com a razão, quando dizia com ironia: “Livre pensar é só pensar”?

Mas essa multidão de insatisfeitos, todos adultos, tem de apresentar propostas. Não podem só ficar reclamando feito crianças. Por exemplo: o nosso sistema econômico deve continuar a ser capitalista ou querem o socialismo? Ou inventaremos uma mescla de ambos? O regime é democrático liberal, pluripartidário ou não? Enfim, o Estado deve ser mínimo ou ter o tamanho necessário para atender as demandas sociais? Quem pagará a custosa conta dos ótimos serviços públicos e gratuitos, que todos solicitam – e com toda a razão! – com relação à saúde, educação, transporte coletivo, segurança e Justiça? Segundo um destacado jornalista, essa multidão busca um “Estado nhônho”. Será isso mesmo?

Será que o recolhimento de impostos federais, estaduais e municipais, todos somados são realmente suficientes para atender as demandas sociais de 200 milhões de habitantes no território nacional, ou é a sonegação e o desvio do dinheiro público que realmente nos empobrece? Pelo que sei, a sonegação de impostos dá mais prejuízo para o nosso país do que a corrupção em si. Como saber ao certo? Como resolveremos tudo isso? Sim, porque quem deve resolver essa difícil equação somos todos nós, o povo, que detemos – ou deveríamos deter – todo o poder político. Se ninguém nos representa, então como o faremos? Quem cuidará da administração pública?ODEIO-POLITICA

Todos esses acontecimentos me fazem lembrar do poema “Analfabeto Político“, cuja autoria é atribuída ao dramaturgo alemão Bertold Brecht:

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato
e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o idiota que, da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra , o corrupto
e lacaio das empresas nacionais e multinacionais
.

Finalizando, primeiro, gostaria de esclarecer que o Brasil não é o país que cobra os mais altos impostos. Verifique: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-e-o-imposto-de-renda-mais-caro-do-mundo

Em segundo lugar, gostaria de afirmar que a corrupção não é uma característica do povo brasileiro, mas sim de qualquer agrupamento humano dos cinco continentes, sejam de europeus, norte-sul-americanos, asiáticos, australianos, africanos árabes ou não, e quiçá até mesmo dos esquimós! Onde houver dinheiro, encontraremos os adoradores de ouro, que sentem verdadeiros orgasmos ao acumular riquezas.

E é claríssimo que deveremos combater a corrupção pública e privada, educando nossas crianças e jovens para manterem-se sempre dentro dos padrões de honestidade. E eles precisarão de bons exemplos e de educação política, para serem bons cidadãos e criarem um país com harmonia social. Essa luta contra a corrupção é perene e não acabará tão cedo, infelizmente.

Pronto, falei!

Inês do Amaral Buschel, em 29 de setembro de 2013.

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