REPÚBLICA DE CUBA, CAPITAL HAVANA: duas ou três coisas que eu sei dela

Palma RealEstive passeando pelo território cubano durante a primeira quinzena do último mês de agosto de 2013. Estava em companhia de minha filha e de uma amiga, apenas. Viajamos por conta própria, sem o auxílio de agencia de viagens. Fizemos as reservas de vôos, ônibus e hotéis por intermédio da Internet. Claro, usamos um ótimo e novo guia de viagens publicado em português, da Lonely Planet/GloboLivros (2012). Conheça um pouco mais sobre a República de Cuba clicando aqui: http://www.cubagob.cu/mapa.htm

Deu tudo certo. Fantástico! Viajamos pela Copa Airlines, uma empresa caribenha que faz conexão no Panamá, pois à época em que fizemos nossas reservas ainda não havia vôos diretos SP-Havana, pela Cubana de Aviación, que começou a funcionar somente partir do mês de julho p.passado. Para viajar à Cuba é necessário fazer um seguro saúde-viagem e também é preciso obter um visto junto ao Consulado, ao custo de R$45,00 por pessoa. Em Cuba circulam dois tipos de moedas: os pesos cubanos usados pela população nacional, e o CUC que é a moeda conversível para turistas.Cuba001

Saímos daqui  sob um clima muito frio e chegamos lá, em Havana, sob forte calor. Mas que calor!! Parecia que estávamos em Teresina ou Cuiabá, Belém, Salvador, Manaus, Rio de Janeiro e por aí vai. Aliás, se você, caro leitor (a) ainda não conhece a Ilha de Cuba, quero te dizer que, além do clima ser parecido com o nosso do norte-nordeste, é habitada por gente igualzinha a todos nós brasileiros: são mestiços, brancos, negros e também há chineses, que imigraram para lá no século XIX para trabalhar na construção das ferrovias e também nas minas.

O povo cubano também é bastante religioso, com predomínio das igrejas cristãs – catolicismo e protestantismo – além do budismo e da Santeria, culto de raiz africana semelhante a nossa Umbanda. Visitei várias igrejas por lá. Em Camaguey, na igreja de Nuestra Señora de La Merced descobri san Ramón, padroeiro das mulheres grávidas, santo que eu desconhecia. Visitamos, ainda, o Santuário de la Virgen de la Caridad  Del Cobre (em Santiago de Cuba), que é bastante semelhante à nossa Basílica de Aparecida do Norte, paulista.

Muitas vezes tive a nítida impressão de que estava no Brasil. Só que falando em espanhol. Somos o mesmo povo, nas virtudes e vícios: caloroso, barulhento, musical, festivo, descontraído e informal. Muita simpatia, solidariedade e nenhuma pressa, para o bem ou para o mal. O racismo é perceptível, mas bem disfarçado. A malandragem e a ginga também são as mesmas nossas. Infelizmente, a corrupção também. Nem mesmo o regime socialista torna todas as pessoas honestas.Flor_cubana_Mariposa

E o cheiro de tabaco em ambientes fechados, é insuportável para uma paulistana como eu e não fumante, acostumada com a lei antifumo: http://www.leiantifumo.sp.gov.br/

Infelizmente, nada a fazer quanto a isso, considerando-se que a indústria de tabaco – charutos – é um carro chefe da economia local. Só nos restava valermos da velha máxima: os incomodados que se mudem!

Cuba se distingue por sua bela música, que é contagiante. Estivemos na cidade de Santiago de Cuba, que é conhecida como a capital da música deles, e que foi a primeira capital do país. Naquela cidade há “A casa da trova” onde se pode ouvir muito do tradicional son cubano. Clique aqui e ouça uma antiga e belíssima canção cubana “Veinte años“:

 

O excessivo assédio machista muitas vezes irrita, outras vezes é motivo de riso por tão insólito que é. Certo dia, estando eu numa rodoviária, na cidade de Camaguey, aproximei-me de um táxi estatal e perguntei ao motorista se ele estava livre. Ele me respondeu sorrindo: Que quieres, mi amor? Não é engraçado? Caí na risada com cena tão surreal!

O povo cubano, em geral, adora o Brasil e os brasileiros. Acham nosso país lindo. Somos sempre muito bem recebidos por lá, até mesmo no serviço de imigração no aeroporto José Martí. Quando você diz que vem do Brasil, os sorrisos surgem nos rostos. No futebol torcem por nós, uma vez que o esporte nacional deles é o beisebol. Aliás, são ótimos nos esportes todos. Nossas novelas são muito famosas por lá e eles sempre nos perguntam qual será o final delas…Em julho a TV de Cuba exibia duas: Terra Nostra e Insensato Coração.

MojitoNós não estranhamos nem um pouco a comida cubana: arroz, feijão (que também se pode cozinhar juntos e denominam o prato de “mouros e cristianos” ou arroz congris), bananas (chips inclusive), abacates (na salada!), quiabo (lá se chama quimbombó), frango, peixe ou carne de porco. Muitas frutas, com a preponderância da deliciosa manga. Muito sorvete! Aliás, a famosa sorveteria cubana chamada Coppélia, está sempre lotada e com longas filas de espera. Os coquetéis são deliciosos: Mojito (com hortelã), Cuba Libre e Daiquiri. A bebida nacional é o rum Havana Club. Há cervejas também, tais como a Cristal e a Bucaneiro, muito boas. Tivemos o privilégio de sermos convidadas para almoçar na residência de um casal de amigos, já idosos. Foi maravilhoso ver uma mesa farta, preparada por eles só para nos receber. Divino e inesquecível!

A árvore Palma Real e a flor branca chamada Mariposa – muito linda e cheirosa – são emblemáticas para eles. E o herói nacional – e muito venerado! – é José Martí, o mártir da Independência de Cuba, que viveu entre 1853 e 1895. O busto desse grande homem, um intelectual humanista, está em inúmeras praças e museus. Morreu jovem, em plena luta pela libertação de seus país do Reino da Espanha. Era político, poeta e pensador brilhante. Escreveu “Versos Sinceros“, livro já traduzido para o português, em 2004, pela editora Armazém de Idéias Ltda./BH. Saiba mais sobre esse revolucionário: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Mart%C3%ADVersos Sinceros

A Universidade cubana nasceu muito antes da brasileira: a “Universidad de La Habana” foi fundada em 1728: http://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_de_Havana

mapa-regioes-cubaHá, no território cubano, de 110.860  km2, uma população de 11,27 milhões. E a cidade de Havana tem 2.142 milhões de habitantes. É impressionante – e bastante positivo! – não presenciar a praga da violência urbana, nem mesmo na Capital do país. Não sofremos nenhum ataque ou mesmo furto. Claro, ali também há “batedores de carteiras” tal qual no mundo todo, mas tomamos muito cuidado e tivemos sorte. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano – PNUD) de Cuba é um pouco maior do que o do Brasil. Eles estão na posição 59º, com 0,78 e nós em 85º, com 0,73.

Com relação à economia local, observa-se a pobreza material. Os carros, por exemplo, são muito antigos (os mecânicos cubanos devem ser excelentes!), há crise energética e por isso a internet é muito lenta, cara e de difícil acesso, ainda. Mas vi carros novos da Hyundai. E os ótimos ônibus de viagens intermunicipais – ViaAzul – são novos e produzidos na China. Viajamos de avião de Havana para a cidade de Santiago de Cuba, e de lá partimos de ônibus para conhecermos as históricas cidades de Camaguey(terra natal do poeta Nicolás Guillén) e Villa Clara, dali retornando para Havana. Na cidade de Villa Clara fomos almoçar num dos famosos restaurantes-familiares-privados, os “Paladares” (nome esse que se originou da nossa novela Vale Tudo!), e foi uma experiência ótima!

Cuba sem bloqueioVimos na cidade de Santiago, os estragos deixados pelo furacão Sandy, que passou por ali na madrugada do dia 25 de outubro de 2012, causando a morte de onze pessoas. Não sobrou telhado intacto. Até as cruzes que estavam sobre a antiga Catedral  voaram! Conheça um pouco desse desastre natural clicando aqui: http://www.youtube.com/watch?v=MmXVpbWMjA4

Nessa cidade localiza-se o famoso Quartel de la Moncada, que hoje se chama Museo Histórico 26 de Julio. Há ali fotos dramáticas de jovens que foram torturados e mortos por ordem do ditador Fulgêncio Batista, ainda no ano de 1953. Dá, perfeitamente, para compreender a dor dos familiares e amigos desses jovens assassinados por agentes públicos, quando sonhavam em libertar seu país da sangrenta ditadura então vigente.

UNESPSe você, caro leitor(a), quer saber mais sobre a Revolução Cubana, leia dois pequenos e primorosos livros sobre ela: O primeiro, publicado em 2004 pela Editora UNESP/SP com o título “Revolução Cubana“, de autoria de Luis Fernando Ayerbe, da Coleção “Revoluções do Século 20”; e o outro, “A Revolução Cubana – 50 anos de imprensa e história no Brasil“, de autoria de Cláudia Wasserman, publicado em 2009 pela Edições EST/Porto Alegre.

Conversamos com muita gente e observamos bastante a cultura do povo cubano. A maioria dos cubanos não abre mão do sistema socialista. Querem melhorar de vida, claro, mas repudiam o retorno ao capitalismo selvagem que conheceram muito bem, num passado nem tão remoto assim. Todos são plenamente conscientes de que grande parte de pobreza deles, advém da crueldade praticada pelos Senhores do Universo (os capitalistas adoradores de ouro) que impedem o real livre comércio entre as nações.Rev Cubana001[1]

Há um bloqueio econômico aplicado pelos EUA (os estadunidenses o denominam de “embargo”) desde 1962, portanto, logo após a vitória da Revolução Cubana em 1959, e que continua vigendo até hoje. E, para entender melhor a questão do bloqueio à Cuba – uma vez que raramente (ou nunca!) nossos meios de comunicação de massa são imparciais com esse tema – recomendo a leitura de um bom livro escrito por dois brasileiros, Hideyo Saito e Antonio Gabriel Haddad, cujo título é “Cuba sem Bloqueio“, publicado em 2012, pela Radical Livros/SP.

Esse bloqueio atrasou o desenvolvimento normal do país. Cá entre nós, isso é claríssimo como a luz solar, embora muitos intelectuais o desconsiderem. Não há como compreender o atraso econômico e o sofrimento daquele povo sem levar em conta esse maldito bloqueio, um ato imperialista. Sobre esses fatos, por exemplo, poderemos constatar que até o Ministério Público do estado do Rio de Janeiro, já se insurgiu contra a empresa estadunidense Dell, por ela impedir a venda computadores para os brasileiros que não se comprometam a nunca levar o equipamento para o território cubano. Há uma ação civil pública em trâmite: http://www.mercadoconsumidorsa.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/09/0302724-47.2010.8.19.0001-computadores-cuba.pdf

Em Cuba não há Shoppings Centers como esses que temos por aqui, e se vive muito bem sem eles! Há um bom comércio, ótimos restaurantes, hotéis e muito artesanato para vender. Muitas telas, livros, discos e belíssimos shows musicais para se assistir. Concluí que os ativistas anti-consumismo ficariam felizes ao conhecerem Cuba. E os ativistas em defesa do meio ambiente também, uma vez que a desindustrialização local, provocada pelo bloqueio, mantém os campos e as praias intactos e em estado natural.

constitucion-de-la-republica-de-cubaCuba é um país que optou pelo sistema socialista, priorizando a educação e a saúde pública e gratuita para todos. Há um regime democrático – de partido único – mas de outro modelo que não o da liberal democracia que conhecemos. Há eleições freqüentes, regidas por lei eleitoral. A Constituição da República de Cuba – república unitária e democrática – foi reformada no ano de 2002,  com plena aprovação popular. Infelizmente, tal qual seu país vizinho – os EUA – há em Cuba previsão de pena de morte em seu Código Penal. Conheça essa legislação cubana clicando aqui: http://www.gacetaoficial.cu/html/legislacion_cubana.html

Não falei sobre as paradisíacas praias cubanas, porque já as conheci há algumas décadas, quando também estive veraneando em Varadero e Cayo Largo. Desta vez, todavia, fizemos um roteiro apenas urbano. E valeu muito. Nos divertimos bastante. Conheci lugares interessantes e muito bonitos. Mas não dá para escrever sobre tudo que gostaria, pois o texto ficaria – já está! – muito longo.

Fiquei contente ao ver que o país já melhorou bastante. Há muitas obras por todo seu território. E as reformas políticas e econômicas têm dado novos rumos àquele povo sofrido, mas alegre. Eu torço por eles. Cuba é um belo país, e merece todo nosso respeito e também o da comunidade internacional.

Tentei escrever com tranquilidade, transmitindo apenas minhas impressões de viagem, para evitar as paixões que sempre afloram quando se trata da revolução latino-americana, que apresentou ao mundo os jovens revolucionários Fidel e Raul (irmãos), Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara (médico argentino). Isso sem falar no contingente de mulheres revolucionárias, tais como Vilma Espín (esposa de Raul), Haydée Santamaria, Celia Sánchez e tantas outras. As vidas desses reais personagens da história contemporânea sempre suscitam emoções fortes.Che e Jânio

Viva e deixe viver!

Inês do Amaral Buschel, em 12 de setembro de 2013.

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