julho 18

SOBRE A FELICIDADE – II

O Pensador, de Rodin

O Pensador, de Rodin

Continuando a escrever mais um pouco sobre a felicidade, acho importante acrescentar o conceito filosófico dessa palavra. Segundo o Vocabulário Lalande (Edit.Martins Fontes/SP), um dos sentidos dela é o seguinte: “A felicidade é a satisfação de todas as nossas inclinações tanto em extensão, quer dizer, em multiplicidade, como em intensidade, quer dizer, em grau, e em protensão, quer dizer, em duração.”

Além disso, julgo imprescindível, fazer referência à corrente filosófica dos estóicos que fizeram um contraponto ao epicurismo mencionado ao final do meu post anterior: https://blogdaines.wordpress.com/2013/06/02/sobre-a-felicidade-i/

Em vez do Jardim de Epicuro, teremos então o Pomar dos estóicos. Estes também se afastam da metafísica e pregam a arte de bem conduzir a vida, sempre em sintonia com a natureza, com atitudes corretas e virtuosas, uma vida ascética que se desfoca dos prazeres. Com muita autodisciplina e aceitação da realidade.

Esse nome “estóicos” surge em razão de um Pórtico chamado de Stoa Poikile (Portal Pintado), localizado na cidade de Atenas, na Grécia antiga, onde o filósofo Zenão de Cítio reunia-se com seus discípulos. Zenão foi contemporâneo de Epicuro, tendo vivido entre os anos 340 a 264 a.C. Para saber mais sobre ele bastará clicar neste link: http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=32

Essa corrente filosófica teve grandes seguidores entre os romanos, sendo Epicteto (55 d.C. 135 d.C.) o maior deles e que, por sua vez, foi professor do Imperador-filósofo Marco Aurélio. Para saber mais sobre estes dois pensadores, será bom ler ao menos os seguintes livros: “A Arte de Viver“, sobre os ensinamentos de Epicteto, escrito por Sharon Lebell, editora Sextante/RJ; e “Meditações“, que são anotações livres de Marco Aurélio, editora Planeta/SP. Claro, antes e depois de Epicuro e de Zenão, outros importantes filósofos gregos na Antiguidade também se dedicaram ao estudo da felicidade, tais como Heródoto, o próprio Sócrates, Platão, Aristóteles etc.

Para compreendê-los será necessário mergulhar nos livros. Na Idade Média, por exemplo, o cristianismo através dos ensinamentos de santo Agostinho e são Tomás de Aquino, pregou que a felicidade se realizaria ao estarmos junto a Deus, no Céu. No século XVIII, na Modernidade, todavia, o movimento intelectual europeu denominado  “Iluminismo“, aprofundou-se no tema e desligou a felicidade da vida eterna, trazendo-a de volta para a vida terrena.

Entre os iluministas, o autor que mais admiro é Voltaire, cujo nome civil é François Marie Arouet que viveu entre os anos 1694 a 1778. Na opinião do pensador francês Roland Barthes, Voltaire foi o último escritor feliz. Ele deve ter sido uma pessoa muito bem humorada, escreveu muitas obras e, entre elas, uma com fina ironia e cinismo, a que deu o nome de “Cândido ou o otimismo“. Valerá a pena ler e reler esse pequeno grande livro.Candido

Da filosofia oriental pouco ou nada sei, salvo alguns ensinamentos de Buda (o sofrimento faz parte da vida) e pensamentos de Confúcio (Estudar sem pensar é fútil. Pensar sem estudar é perigoso.), uma vez que nossas escolas do ensino fundamental e médio, limitam-se a se referir ao pensamento do lado ocidental do mundo. Entretanto, é muito importante sabermos algo mais sobre os pensadores do mundo árabe islâmico e asiático (budismo e hinduísmo) com referência à felicidade, uma vez que os povos orientais também se preocupam bastante com esse tema.

Para conhecermos esses ensinamentos será preciso pesquisar. Li um livro publicado recentemente (2011) que é bastante abrangente e descreve “A história da (in) felicidade – Três mil anos de busca por uma vida melhor.”. Foi escrito por um professor inglês de história da Cultura, Richard Schoch, da Editora BestSeller/RJ. Recomendo sua leitura.

Na China, por exemplo, o morcego é um símbolo da felicidade. E, cinco morcegos juntos representam a longevidade, a saúde, a fortuna, o amor à virtude e a morte natural. Eu descobri essa sabedoria chinesa das cinco felicidades, por pura curiosidade, depois de ter assistido a um ótimo filme chamado “A morada da sexta felicidade“. Daí pensei: por que sexta? Era porque as outras cinco são aquelas acima mencionadas.

Morada da SextaEsse filme é um clássico e foi produzido nos EUA, com direção de Mark Robson, lançado no ano de 1958. A história se passa na China e o nome do filme faz referência ao atrativo nome de uma hospedaria de emigrantes no interior do país. É baseado em fatos reais e seu roteiro originou-se do livro inglês “The small woman“, escrito por Alan Burgues. A protagonista existiu na vida real e era uma pessoa muito feliz que se chamava Gladys Aylward, uma missionária que nasceu na Inglaterra no ano de 1902 e faleceu em 1970. No filme, quem a representa é Ingrid Bergman. Valerá a pena assisti-lo ou revê-lo.

Bem, mas o que aprendi nos livros? Aprendi algumas coisas muito importantes, como por exemplo, que ser feliz ou infeliz depende bastante de nosso DNA, dos genes que nos foram transmitidos por ancestrais. Não que a genética seja uma condenação, mas é um marcador. Caberá a cada um de nós o esforço pessoal – autodisciplina – para melhorar ou transformar esse quadro herdado. Haverá sempre uma margem para o livre-arbítrio. Conhecer-se a si próprio, como ensinava o filósofo grego Sócrates, é muito importante também.

Neste instante me veio à lembrança um momento engraçado que vivi há décadas passadas. Estava eu participando de uma Conferência sobre Contracultura e Direito. Lá pelas tantas, um professor de Direito alemão, contou para a plateia uma piada muito conhecida na terra dele, que relata o reencontro de dois velhos amigos numa rua qualquer de Berlim. Um amigo, surpreso ao reencontrar após muito tempo o outro amigo, pergunta-lhe: Onde estivestes? Ao que o outro responde: estava em busca de mim mesmo e passei uns meses dentro da floresta negra para meditar. Daí segue o diálogo entre eles: o amigo pergunta ao outro: E te encontraste? O outro responde: Sim. O outro pergunta: E que tal? O outro responde: Total decepção!

Aprendi ainda que ter fé religiosa ou aprimoramento da espiritualidade, é de grande ajuda. E que as pessoas que se relacionam socialmente sempre se saem melhor no quesito da felicidade. Por exemplo, parece que as pessoas casadas são mais felizes do que as solteiras. A riqueza excessiva e o poder nem sempre proporcionam o estado de felicidade de fato e, por outro lado, os revezes da vida, as tragédias pessoais com dor e sofrimento, também não são impeditivos para o encontro com a felicidade. Por vezes são de grande valia lançarmos mão dos estratagemas do “jogo do contente”, citados pela personagem Pollyanna, inventada pela escritora estadunidense Eleonor H.Porter no seu famoso livro do mesmo nome, publicado no ano de 1913.Pollyanna

Os filósofos insistem em nos ensinar que, tanto as virtudes quanto a conduta moral/ética são valores intrinsecamente ligados ao estado de felicidade. Portanto, se desejarmos ser felizes, melhor tratar de esmerar-se na compaixão, justiça, generosidade, altruísmo, perdão, amor, tolerância, bom humor, coragem, prudência, gratidão etc. E, ao lado disso, a amizade é de capital importância, por isso deveremos procurar conduzir-nos sempre com lealdade e companheirismo, respeitando os valores alheios, tendo como máxima, por exemplo, a regra milenar “Não faça aos outros aquilo que não gostarias que fizessem a você“.

Sobretudo, deveremos nos afastar do ódio e da inveja, enfim, dos famosos sete pecados capitais. Quanto à inveja, se você quiser aprender um pouco rindo bastante, clique no link abaixo e assista uma bela aula do historiador, Prof. Leandro Karnal, da Unicamp: http://www.youtube.com/watch?v=HG_O_v1I1BQ

Deveremos também buscar a sabedoria, aprendendo com Shakespeare, por exemplo, que dar crédito ao ressentimento não está com nada. Segundo o poeta inglês, “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.” Muita burrice, portanto, não é mesmo? Xô ressentimento!

Poeta Gentileza

Poeta Gentileza

Uma pessoa que nos servirá de exemplo, eternamente, por não ter permitido a entrada do ressentimento em sua vida  é o advogado e líder sul-africano Nelson Mandela (Madiba). Sempre altivo e humilde ao mesmo tempo, após ter permanecido preso – injustamente – durante vinte e sete anos de sua vida, ao ser libertado perdoou a todos os seus algozes, para que assim o seu povo pudesse encontrar a paz social e seu país se transformasse num arco-íris, proibindo-se o apartheid das pessoas de pele negra.

Para entendermos melhor o nosso eterno desejo na busca da felicidade no mundo moderno ou pós-moderno, que nos impõe o indispensável controle de nosso instinto humano de agressão e autodestruição, seria interessante a leitura de outro pequeno grande livro chamado “O Mal-Estar na Civilização“, obra escrita pelo pai da psicanálise, Dr. Sigmund Freud, médico-neurologista austríaco que viveu entre os anos 1856 e 1939. Aliás, aprendi lendo o livro do psiquiatra-psicanalista Dr. Flávio Gikovate, “Em busca da Felicidade“, publicado no ano de 1981, que ao sentirmos a felicidade, via de regra, também sentimos medo de algo terrível que poderá nos acontecer. É verdade. Até a expressão que usamos: estou morrendo de felicidade já indica que ligamos a sensação de estar feliz à morte. Estranho isso, não é? Medo de ao ser feliz ser punido por alguma divindade? Medo da inveja dos outros? Acho que somos bem loucos…

SmileyAntes de qualquer outra consideração final, é preciso que todos compreendam que para um ser humano ser feliz é indispensável que ele tenha ao seu dispor, diariamente, alimento de boa qualidade para comer, água potável para beber, abrigo/moradia seguro para proteger-se, trabalho digno para poder sustentar-se, educação escolar e assistência à saúde. Enfim, que lhe sejam respeitados todos os seus direitos humanos fundamentais. Sem esse kit básico não dá para alguém ser feliz.

Ninguém está obrigado a ser feliz. Nem obrigado a ser triste ou infeliz. Todos nós temos o direito à felicidade e também o direito de estar triste. Todavia, a prudência nos aconselha moderação: nem eufóricos cotidianamente nem depressivos resvalando o suicídio. Sensatez e lucidez fazem bem à saúde. A busca de ajuda por profissional da área da saúde mental muitas vezes se impõe, seja um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra. O uso de medicação prescrita apropriadamente evita a piora de um quadro doentio. Todo cuidado nesses casos é pouco: nem a felicidade artificial à custa do abuso de pílulas tranquilizantes, nem o excessivo medo de ingerir medicamentos necessários para o controle de casos crônicos de distúrbios de humor.

Pessoalmente, entendo que para ser feliz deveremos, primeiramente, aceitar a realidade. E, com isso quero dizer, por exemplo, que quando chove num lugar chove para todos que estejam ali, e portanto não dá para negar a existência da chuva. A aceitação é bastante salutar pois demonstra o uso da razão pela pessoa. A recusa aos dados de realidade, tem levado muitos jovens a abusar das substâncias entorpecentes lícitas e ilícitas, que lhes criam uma ilusão de felicidade. Mas daí o sonho sonhado será louco e a dependência química se instalará, certamente, trazendo a infelicidade. Como diria o nosso grande poeta-compositor Lupicínio Rodrigues, “Vão ao inferno à procura de luz“. Ouça a música  “Esses moços” clicando aqui: http://letras.mus.br/gilberto-gil/1130645/

Em resumo: a busca da felicidade nos dá muito trabalho, mas é possível conquistá-la! Sonhar é preciso!

Inês do Amaral Buschel, em 18 de julho de 2013.

(Hoje é aniversário de Mandela, que está gravemente enfermo. Completa 95 anos de uma vida bem vivida. Parabéns, Madiba!)

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