março 24

O ACASO, O ALEATÓRIO, O IMPONDERÁVEL.

TrevoHá, no mundo, uma enorme legião de pessoas que não acreditam no acaso. Acham que nada é por acaso, pois há um plano divino por detrás dos acontecimentos. Filiam-se, de certa maneira, à corrente determinista mesclada com um pleno livre-arbítrio, que não compreendo. Eu, todavia, creio no acaso. Sempre fiquei muito intrigada com a ocorrência do acaso, seja para o melhor ou para o pior. Desde minha adolescência, quando percebi o imponderável acontecer diante de meus olhos, descobri que por mais controle que tenhamos sobre algo, sempre poderá ocorrer um fato aleatório e destruir todo nosso esforço anterior ou, noutras vezes, até mesmo impulsionar nossas aspirações admiravelmente.

Essa minha crença no acaso eu adquiri não só observando muito os fatos da vida cotidiana, mas também estudando bastante, notadamente com as aulas dadas pelos professores de filosofia, química e física, no curso médio, entre os anos 1964 a 1966, no Colégio Estadual Prof. Macedo Soares, na Capital do estado de São Paulo. Ademais, ainda na pré-adolescência, observei um fenômeno por puro acaso. Numa trivial caminhada pela rua, de volta da escola à casa, divagando sobre minha existência, num dado momento ouvi o canto de um pássaro e, naquele instante, dei-me conta de que tanto aquele minuto e aquele canto que eu ouvira, eram únicos e não se repetiriam jamais. Passaram a fazer parte do meu passado. Eu continuaria a ouvir os pássaros cantando, mas já não seria aquele específico tempo vivido e aquele determinado canto. Aqueles se foram para sempre, sem retorno. Naquele exato momento aprendi a finitude do tempo em nossa vida. Quando, nas aulas de filosofia, o professor mencionou o pensamento do grego Heráclito, que dizia: “Não se toma banho duas vezes no mesmo rio“, eu pude compreender melhor.

Alguns anos mais tarde, já era uma jovem adulta quando deparei-me novamente com o acaso, desta vez por escrito. É que às vésperas do exame vestibular para ingressar na Universidade, no ano de 1967, o dirigente do cursinho preparatório que eu freqüentava, distribuiu aos alunos uma filipeta na qual estava escrito “Alea jacta est“, almejando-nos boa sorte nos exames. Preciso recordar a você leitor (a) que  naquela época, lá no Séc. XX, nós estudávamos o Latim, língua muito antiga e que, no entanto, não está morta, pois acaba de ser utilizada pelo Papa Bento 16 para anunciar sua renúncia ao papado.

Essa expressão latina “Alea jacta est“, é muito conhecida pelo mundo todo e significa “O dado está lançado ou, A sorte está lançada.“, querendo dizer que o esforço devido já foi feito, o risco foi assumido e não há mais possibilidade de voltarmos atrás. Agora é torcer e esperar por um bom resultado. Há historiadores que nos ensinam ter sido essa frase pronunciada por Júlio César, no instante em que atravessou o rio Rubicão que marcava as fronteiras da Itália antiga. Mas tudo indica que foram os gregos os que primeiro a expressaram, quando se referiam aos perigos imprevisíveis.

A palavra “aleatório” origina-se da palavra latina “alea”, que como vimos, significa “dado”. Portanto, aleatório refere-se a um risco, um acontecimento futuro imprevisível, dependendo da sorte, do azar, do acaso, enfim. Nossos contratos de seguro, por exemplo, são aleatórios, pois as seguradoras aceitam o risco de perder ou ganhar. As loterias também regem-se assim. Essa coisa de sorte e azar é tão séria caro leitor (a) que, na ciência do Direito há uma disciplina denominada “Direito Administrativo”, na qual também estudamos a “teoria da imprevisão” com relação aos contratos, pois num determinado momento poderá ocorrer fatos novos e imprevisíveis para um ou ambos contratantes, que criará uma situação insuportável para o devido cumprimento desse contrato, na forma inicialmente prevista. Nessas circunstâncias será ponderável rever as obrigações.

Bom, mas o Direito é muito complicado. Mudemos de campo. Vamos para a Física. UAU!! É uma ciência mais complicada ainda, e da qual não entendo nada! Eu só admiro o Universo, o espaço interplanetário. Acho tudo magnífico e incompreensível. Penso que, de fato, é o acaso que nos rege. Considere você, neste momento e por exemplo, o caso daquele meteorito que acaba de cair na área central do território russo, no dia 15 de fevereiro p.passado, e que nenhum especialista nesse assunto conseguiu prever. Aquele povo deve ter levado o maior susto! Mais de 1000 pessoas ficaram feridas e os estragos materiais foram enormes. Veja, então, que de fato, vivemos na incerteza, sempre. Nós precisamos aceitar isso com calma e lucidez, para podermos encarar a realidade como adultos e com muita coragem. Só isso. Se desejar saber um bocadinho mais sobre aquele meteorito, bastará você clicar neste link:

http://www.onu.org.br/meteorito-que-caiu-na-russia-causou-as-maiores-ondas-infrassonicas-ja-registradas-pela-onu/

dadosDizem por aí que o famoso cientista Einstein teria dito um dia a seguinte frase: “Deus não joga dados com o universo“. Parafraseando seu colega Einstein, o também físico Stephen Hawking, disse, com bom humor, que “considerando o que os buracos negros sugerem, Deus não só joga dados, Ele às vezes nos confunde jogando-os onde ninguém os poder ver.” Acho que a razão está com Hawking.

Lá pelo ano de 1995, tive a sorte de assistir a um programa televisivo chamado “Diálogos Impertinentes”, produzido pela PUC/SP, cujo tema era “O Acaso”. O debate era travado entre um físico e um poeta, Prof. Luis Carlos de Menezes e  Haroldo de Campos. Aprendi muito com ambos. Infelizmente, não encontrei pela internet esse antigo programa. Mas, encontrei no You Tube, uma aula recente do Prof. Luis Carlos pela programação do TED/USP, onde ele nos expõe como é preciso aprender com o imponderável. Tem duração de apenas 18 minutos. Bastará clicar:

Aqui vale fazer uma referência ao nosso cientista-compositor-cantor Paulo Vanzolini que, brincando com a física, compôs um belíssimo samba ao qual deu o título de “Tempo e Espaço“. Acompanhe a música clicando no link logo abaixo:

 Tempo e espaço eu confundo/ E a linha de mundo é uma reta fechada/ Périplo, ciclo/ Jornada de luz consumida e reencontrada/ Não sei de quem visse o começo/ E sequer reconheço/ O que é meio, o que é fim/ Prá viver no teu tempo/ É que eu faço viagens no espaço/ De dentro de mim/ Das conjunções improváveis/  De órbitas instáveis/ É que eu me mantenho/ E venho arrimado nuns versos/ Tropeçando universos/ Prá achar-te no fim/ Nesse tempo cansado de dentro de mim.

http://www.ouvirmusica.com.br/paulo-vanzolini/1530919/#mais-acessadas/1530919

Um bom livro para um leigo (a) – como eu! – entender um pouquinho sobre como o acaso determina nossas vidas, chama-se “O andar do Bêbado“, escrito pelo físico estadunidense Leonard Mlodinow, e publicado no Brasil pela Editora Zahar, em 2011. Eu o li e recomendo. É muito interessante e bem divertido. E, para aqueles que gostam de cinema, valerá assistir ao filme alemão, “Corra Lola, Corra”, escrito e dirigido por  Tom Tykwer e, também, ao filme brasileiro “A dona da história”, com direção de Daniel Filho. Ambos os filmes são românticos, mas de certa maneira demonstram o acaso na vida das protagonistas e as variadas possibilidades de escolhas e caminhos que se tem de fazer para seguir vivendo feliz.

 O andar do Bêbado001  Corra Lola, corra001  A dona da história001

Bodas de papel001Serendipity. Você conhece essa palavra inglesa, surgida no Séc. 18? Eu gosto dela. Significa a possibilidade de se fazer uma boa descoberta por acaso, enquanto se busca descobrir outras coisas. Foi assistindo ao filme brasileiro “Bodas de Papel” (2008), dirigido por André Sturm, que ouvi essa palavra pela primeira vez. Mas, depois soube que, no ano de 2001, foi lançado um filme estadunidense, cujo título era exatamente “Serendipity“, e cuja tradução foi “Escrito nas Estrelas“. Na vida dos cientistas fármaco-químicos o fenômeno serendipity ocorre algumas vezes quando, estando pesquisando e buscando um determinado princípio ativo para tratamento de determinada doença, acabam descobrindo a solução para outra doença que não estava na pauta. Felizmente.

Foram muitas as vezes em que na minha vida fui protegida pela sorte proveniente do acaso. Outras vezes não tive sorte, mas azar. E, como todos sabemos, “Os azares vem aos pares“…, portanto, muita atenção ao conduzir o barco de sua vida. Use e abuse do seu cérebro, visualizando as possibilidades das coisas darem certo ou errado. Cuide-se bem, pense muito, planeje e estude sempre. Sonhe, porém sem tirar os pés do chão. Compartilhe coletivamente suas descobertas. Se por acaso você for uma pessoa religiosa, valerá rezar, orar ou meditar também. Parafraseando o poeta português Fernando Pessoa, tudo valerá a pena, se acaso a nossa alma não for pequena para enfrentar as turbulências provocadas pelo imponderável em nossas vidas.

Boa sorte para você!

Inês do Amaral Büschel, em 24 de março de 2013.

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