março 14

ENUCLEAÇÃO DO GLOBO OCULAR, COM IMPLANTE.

Salvador Dali: Pessoa na janela

Salvador Dali: Pessoa na janela

Finalmente, volto a escrever neste blog. Foram alguns meses, desde julho p.passado, de muita angústia e reflexão. “Ruminei” bastante. Felizmente pude contar com a ajuda de familiares, amigas (os) e profissionais médicos (as), bem como tratamento psicoterápico para aprender a controlar o estresse. Somente agora me sinto pronta para relatar essa minha traumática experiência de vida. Depois do mês de julho de 2012, com algumas complicações pós-cirúrgicas, instalou-se em mim um tal desalento que não conseguia mais escrever. Penso que agora, escrevendo sobre os fatos, me libertarei da dor sofrida e ainda poderei ajudar a muitas outras pessoas que buscam saber mais sobre esse assunto.

Aqueles que lêem o que escrevo – talvez uns dezesseis ou vinte e cinco leitores…rsrsrs, quem saberá? – sabem o que tenho enfrentado desde o final do ano de 2005, quando recebi o diagnóstico de melanoma da coróide no olho esquerdo, pois já escrevi sobre esses fatos em posts anteriores neste mesmo blog: https://blogdaines.wordpress.com/2010/01/28/cancer-o-tumor-e-nao-o-signo/ e, também, https://blogdaines.wordpress.com/2011/01/04/melanoma-de-coroide-c-69-3-ou-uma-pedra-no-meio-do-caminho/

Naquele último post, datado de 04 de janeiro de 2011, relatei minha sobrevivência após ter feito a braquiterapia, e o fiz por inspiração de um amigo português, o Vitor, que conheci através de seu comentário ao meu post anterior. Ele relatou-me, à época, que como eu também havia perdido a visão do olho esquerdo por causa de um melanoma na coróide. No caso dele os médicos demoraram a descobrir o tumor e quando foi feito o correto diagnóstico, o tumor já estava bem grande e só havia então o recurso da enucleação do globo ocular, à qual ele submeteu-se. Infelizmente, desde janeiro de 2012 não tenho mais notícias desse amigo, que já estava sofrendo muito em razão de metástase no fígado.

Bem, continuando a minha saga, nos exames rotineiros que faço regularmente, já no início do ano de 2011 a médica-cirurgiã constatou uma hemorragia de vítreo no mesmo olho operado. Considerando-se que, para a correção desse problema, haveria um procedimento cirúrgico ao qual eu não poderia me submeter – devido às circunstâncias peculiares do meu caso – decidiu-se que a partir dali eu faria um monitoramento mais amiúde – de dois em dois meses – esperando uma reação positiva do meu organismo. Havia a possibilidade do próprio corpo absorver essa hemorragia.

Infelizmente, passados vários meses – de fevereiro a novembro de 2011 – ao invés da hemorragia retroceder ocorreu uma grande inflamação local. Feitos os exames necessários, inclusive uma tomografia da região, constatou-se o perigo iminente de uma recidiva do melanoma. Após 6 (seis) anos da braquiterapia exitosa, só me restava agora o caminho da enucleação.

Apesar de eu ter perdido a visão total do olho esquerdo antes mesmo de ter me submetido à braqui, pois descobri o tumor exatamente porque ele atingira a mácula e eu não conseguia enxergar mais nada pelo olho esquerdo, confesso que sofri bastante no momento em que a médica disse-me, em dezembro de 2011, que eu me preparasse para uma nova cirurgia, desta vez de enucleação. Fiquei profundamente triste ao saber que perderia também o globo ocular. Chorei bastante. Nunca senti dor física, apenas emocional. É que, além da dor pela perda do olho, também sinto medo de anestesia geral, sei lá porque.

Por causa deste blog acabei conhecendo inúmeras pessoas que tem esse mesmo problema no olho. E das trocas de experiências entre nós, recebi muita força. Agradeço aos bons amigos e amigas que encontrei neste espaço virtual e tão real! Vários deles sequer tiveram a oportunidade de submeterem-se à braquiterapia e foram direto para a enucleação. Há um limite de tamanho do tumor, caso ele seja maior que 7 (sete) milímetros ao ser diagnosticado, já não se aplica a braqui. Além disso, a braquiterapia não está ao alcance de todos, pois, por exigir equipamentos importados caríssimos, apenas é oferecida por três hospitais paulistanos.

No domingo, dia 3 de março p.passado, o jornal Folha de São Paulo, trouxe na página C11, uma pequena e interessante matéria sobre esse assunto:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/96540-tecnica-preserva-visao-no-cancer-de-olho.shtml

Continuando minha história, no dia 1º de fevereiro de 2012, eu fiz a cirurgia de enucleação do globo ocular esquerdo, ali mesmo no Hospital do Câncer, da Fundação A.C. Camargo, na cidade de São Paulo, Brasil. Tudo correu muito bem, sem intercorrencias. Recebi alta-médica em dois dias após. Fiz os curativos em casa e fui tocando a vida como dava naquele momento. Passados 45 (quarenta e cinco dias) pós-operatório, recebi recomendações médicas para providenciar a feitura da prótese ocular.

Prótese ocular

Prótese ocular

Em 16 de março de 2012 – há um ano, portanto – acompanhada de minha filha Beatriz, dirigi-me para a empresa Solótica, hoje denominada Hoffmannbeck Com. Produtos Óticos Ltda., localizada na região central da cidade de São Paulo, na Av. Rio Branco, 233 – 1º andar. Essa empresa é muito antiga e lembro-me dela desde minha juventude, pois foi uma das primeiras a trabalhar com lentes de contato, lá pelo final da década de 60, se não me engano. Vem muita gente do Brasil todo fazer sua prótese ali.

Primeiro, gostaria de explicar a você leitor (a) que, atualmente, no ato do procedimento cirúrgico da enucleação, coloca-se no lugar do globo ocular retirado, um implante esférico que o imita. Essa “bolinha” servirá para sustentar a musculação local e será envolvida com a conjuntiva do próprio paciente. É elaborada com material cerâmico e é biointegrável. Para além disso, esse implante propiciará a acomodação de uma futura prótese ocular que protegerá a cavidade e terá também a finalidade estética de “reproduzir” um olho. Antigamente, usava-se apenas o famigerado “olho de vidro”. Felizmente, para nossa alegria, há gente que se debruça sobre livros, estuda muito e cria novas formas para melhorar a vidas das pessoas.Para quem quiser saber um pouquinho mais sobre isso, clique aqui:

http://www.proteseocularfoucault.com/protesis-oculares.php

Fachada da Solótica

Fachada da Solótica

Apesar da situação aflitiva que eu vivia naquele momento, fiquei encantada diante do trabalho delicado e artesanal do técnico ótico João Carlos, que pintou – sobre uma base pré-moldada e feita de um tipo especial de resina – um olho igualzinho ao meu outro olho saudável. Esses profissionais podem ser considerados artistas!  Minha prótese ocular ficou perfeita. As pessoas que não sabem do que passei, ao saberem ficam impressionadas e perguntam-me qual dos meus olhos é o artificial! Essas próteses podem ser usadas direto, dia e noite, mas devem ser lavadas com água limpa e sabão ao menos por duas vezes na semana. Tem alta durabilidade – uns cinco (5) anos – necessitando apenas de polimentos anuais. Custam, aproximadamente, R$1.000,00 cada.

Entretanto, a vida ainda iria proporcionar-me mais alguns momentos de pura aflição. Numa consulta de rotina, no mes de junho de 2012, a médica-cirurgiã Dra. Martha, observou que a cicatrização não se completara totalmente. Havia dois buraquinhos no tecido da conjuntiva. Fui, então, encaminhada para uma primeira sutura na tentativa de fechamento, no dia 14 de julho, o que foi feito no centro-ambulatorial de micro-cirurgias, sem anestesia geral. Passados dez dias retornei para avaliação e, para espanto meu e da médica, os buraquinhos continuavam abertos! Expeliram-se os pontos e não cicatrizaram! Nesse momento foi levantada a suspeita de rejeição ao implante esférico. Fiquei tristíssima. Sequer sabia dessa possibilidade. Talvez fosse o caso de nova cirurgia para a retirada.

Depois de alguns dias e da análise do caso, considerando-se que não sofro de diabetes, fui encaminhada para uma nova tentativa de ressutura, utilizando-se agora um outro tipo de fio. Desta vez, esse procedimento seria no centro cirúrgico e com anestesia geral, no dia 8 de agosto, com a Dra. Mirna. Fiquei internada no hospital por apenas dois dias, e tudo correu muito bem. Fiz os curativos várias vezes ao dia, em casa. Após quinze dias, feita a avaliação pela Dra. Mirna, o resultado porém não foi maravilhoso, mas considerado apenas bom. Melhorou a cicatrização mas ainda assim não se completara, sabe-se lá porque. Não era uma rejeição propriamente dita, mas uma dificuldade de cicatrização local. Talvez uma seqüela de um possível vazamento da radiação recebida na braquiterapia? A pele ficou retesada naqueles pontos? O estresse prejudicou? Ou alguma bactéria oportunista estaria atrapalhando? Muitas perguntas e poucas respostas.

Isso, todavia, não me impediria de voltar a usar a prótese ocular. Apenas teria de retirá-la, diariamente, para higienização e para pingar um colírio antibiótico na pele. É o que tenho feito. Há relatos de casos que só depois de muito tempo é que ocorreu a cicatrização total. Mas será preciso bastante cuidado para que não haja contaminação ou aumento do “furinho”. Resta-me respirar profundamente, cuidar do local com muito esmero, observar bastante e ter muita paciência, paciência e paciência. E levar a vida – pois só temos uma! –  que esta sim precisa ser vivida e com muita alegria. A busca da felicidade permanece, apesar dos pesares.

Por essas e outras fico perplexa quando, frente a qualquer cirurgia, ouço alguém dizer: mas é uma cirurgia bem simples, sairá tudo bem! Nessas horas sempre me pergunto: onde essas pessoas encontram tanta certeza? Nunca ouviram falar em acaso, para o bem e para o mal? Acreditam realmente que se tem controle sobre tudo nesta vida? Quanta ilusão!

Neste momento recordo-me da bonita letra escrita pelo compositor brasileiro Sérgio Britto, para a música “Epitáfio”, gravada pelos Titãs, do qual faz parte: …♫…o acaso vai me proteger…♪

Se puder, ouça e dance, clicando aqui:  

ATUALIZANDO: no dia 25 de abril p.passado, a TV Brasil transmitiu uma pequena reportagem a respeito de próteses oculares e fui entrevistada para a matéria. Se desejar assistir, bastará clicar aqui:

Inês do Amaral Buschel, em 14 de março de 2013.
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