abril 09

PORTINARI, Cândido ou Candinho.

Para embelezar um pouco minha vida, fui visitar a exposição “Guerra e Paz” no Memorial da América Latina, que mostra a magnífica obra realizada por Portinari, nosso mais famoso pintor modernista. Eu que andava um bocado triste em razão de mais uma cirurgia no meu olho esquerdo, realizada em 1º de fevereiro deste ano (por isso andei sem inspiração para escrever), saí dali emocionada e boquiaberta com a magnitude da pintura e da vida de Cândido Portinari. Ele não pintou soldados em luta, mas sim a tristeza e a dor causada pela guerra nas pessoas. E a vida calma e cotidiana das pessoas vivendo em paz.

Os dois painéis – Guerra e Paz – foram feitos sob encomenda em 1952/6, para ficarem expostos no prédio da ONU em Nova Iorque, para sempre. Foi um presente do governo brasileiro à ONU. Eles estão “passeando” agora por São Paulo – ficam até o próximo dia 21 de abril – porque foram trazidos ao Brasil para serem restaurados na cidade do Rio de Janeiro (Atualizando: foi prorrogada a exposição até o próximo dia 20 de maio de 2012). Deram-nos, portanto, a oportunidade de conhecer essas obras e algumas outras pinturas e desenhos de Portinari. Vá também visitar a exposição gratuita no Memorial da América Latina, em São Paulo, Capital:

http://www.memorial.org.br/2012/03/exposicao-guerra-e-pazde-portinari-de-7-de-fevereiro-a-21-de-abril/ 

Pouco eu sabia sobre ele: ainda criança, na escola, havia aprendido algo e tinha visto a pintura “Os Retirantes”, que me impressionara muito. Tanto que, ao ler o livro de Graciliano Ramos “Vidas Secas”, vinha-me sempre à lembrança a imagem dessa pintura de Portinari. Depois, muitos anos depois, já adulta e exercendo a função de promotora de justiça, acabei conhecendo o Museu Casa de Portinari situado na cidade de Brodowski, estado de São Paulo. Dê um clique logo abaixo e conheça o museu:

http://www.museucasadeportinari.org.br/

Isto aconteceu lá pelo início dos anos 90, quando viajei com alguns colegas pelas cidades do interior paulista, fazendo campanha por eleições de nossa Associação de classe (APMP). Num determinado dia, decidimos parar em Batatais e Brodowski  para ver as obras de Portinari. Trouxe comigo uma gravura em papel de “Os Retirantes” e um cartão postal contendo a pintura da imagem de Santo Antonio, que era o santo católico preferido de Candinho. Dessa gravura fiz um quadro com moldura e pendurei-o na sala de minha casa. De uma certa forma, Candinho faz parte de minha vida.

Cândido Portinari era tratado pelos amigos por Candinho. Sua mãe, D. Domingas (ou Domênica) chamava-o de Candim. Ele nasceu em Brodowski, no final do ano 1903, em 29 de dezembro. Essa cidade paulista fica na região de Ribeirão Preto. Seus pais eram ambos imigrantes italianos, nascidos em cidades diferentes e vindos para o Brasil ainda crianças. Foram lavradores de café. A família de Portinari era composta por doze filhos e ele era o segundo desse grupo. Não é preciso dizer que eram todos muito pobres e sem recursos financeiros. Viviam do trabalho duro. Portinari foi trabalhar ainda criança, ajudando na pintura da igreja local. Ganhava uns trocados. Mas foi assim que conheceu a arte, inspirou-se e apaixonou-se pela pintura.

http://www.brodowski.sp.gov.br/texto.php?id=4

Candinho sequer conseguiu diplomar-se no curso primário. Terminou apenas o terceiro ano. Além da pobreza, temos de levar em conta a escassez de escolas e professores naquele tempo e lugar. Nesse curto tempo de escola formal ele já se destacava pela habilidade natural em desenhar. Primeiro nasceu o desenhista. Só mais tarde revelou-se o grande pintor. Ele saiu de Brodowski rumo a cidade do Rio de Janeiro, com apenas quinze anos e com pouco dinheiro juntado pela família. Foi incentivado pelos próprios pais, Sr. Baptista e Dona Domingas, a ir aperfeiçoar-se em pintura na Escola Nacional de Belas Artes.

Além das dificuldades financeiras, ele teve de enfrentar também a falta de escolaridade que o barrou nessa famosa escola de artes. Matriculou-se, então, no Liceu de Artes e Ofícios onde se desenvolveu e após dois anos ingressou, enfim, na Escola Nacional de Belas Artes. Vivia em pensões cariocas bem simples e de baixo custo. Mal tinha dinheiro para alimentar-se. Mas tinha bom humor e perseverança, duas virtudes suficientes para proporcionar um bom futuro para a pessoa que as cultive. Candinho, já adulto, na casa dos trinta e poucos anos, chegou a conhecer a glória. Aos 25 anos ganhou um concurso na Escola de Belas Artes, cujo prêmio era uma viagem à Europa.

Estando na Europa, conheceu inúmeros e importantes museus e ateliês de pintura. Esteve em contato com ótimas pessoas, fez amigos. Aprendeu muito e pintou pouco. Mais observou e “metabolizou” o que via naqueles quase dois anos de permanência no Velho Continente. Nesse período Portinari tomou duas grandes decisões: (1) retornar ao Brasil e pintar a sua gente brasileira e, (2) casou-se com Maria, uma cidadã uruguaia que conheceu em Paris. Ela viria para o Brasil com ele e se tornaria mãe do único filho do casal, João Cândido Portinari, que nasceu na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1939. Maria Martinelli Portinari faleceu aos 94 anos, em 2006.

http://www.pitoresco.com.br/brasil/portinari/portinari3.htm

No ano de 1935 Portinari receberia enfim o seu “diploma”: o seu quadro “Café” recebeu menção honrosa da Exposição Internacional do Instituto Carnegie, dos EUA. No final da década de 40, Cândido Portinari filiou-se ao Partido Comunista. Chegou a ser candidato ao Senado, mas perdeu a eleição. Ele era amigo de Luis Carlos Prestes. Aliás, no seu painel “Tiradentes”, você poderá verificar que Portinari parece colocar as feições desse amigo no rosto de nosso mártir da Inconfidência Mineira.

Infelizmente, poucos anos antes da morte de Portinari, no final dos anos 50, o casal separou-se, tendo Maria deixado sua casa. Acho que a teimosia de Portinari deve ter contribuido para essa separação. Esse foi um período muito difícil para Cândido pois, sozinho e já doente com sintomas de intoxicação por chumbo proveniente das tintas, fora proibido pelos médicos de continuar a pintar com aqueles materiais. Também foi ficando surdo. Tentou desenhar com lápis de cor, mas logo desistiu e retornou à pintura, mandando às favas o perigo da morte. Vivia encarcerado dentro de seu apartamento, pintando. Sua alegria nesse tempo atribulado consistiu no nascimento de sua primeira neta Denise. Conviveu um pouco com ela e chegou a pintá-la.Veio a falecer em 6 de fevereiro de 1962, quando contava com apenas 58 anos de idade. A vida de Portinari foi resumida e bem contada num recente programa da TV Brasil, chamado “De lá pra cá” e que foi exibido no dia 05 de fevereiro de 2012:

http://www.youtube.com/watch?v=FTYSbLizWVc

A vida familiar de Candinho não foi um mar de rosas. Seu filho João, quando menino, achava estranho seu pai não sair de casa para “trabalhar”, como faziam os pais de seus coleguinhas de escola. Na adolescência esse filho cansou-se também de, estando em festas, não ser apresentado pelos amigos como João, mas sim sempre por “este é o filho de Portinari”. Acabou deixando a família e partindo para a Europa para estudar. Tornou-se um importante professor de matemática. Acho que, de fato, conviver com um pai que era um verdadeiro mito, não deve ter sido fácil.

Já na idade adulta, chegando aos quarenta anos, o filho João – pai de três filhos: Denise, João Carlos e Maria Cândida – deu-se conta de que seu pai estava sendo esquecido em sua própria terra natal. Decidiu então – para a nossa alegria! – dedicar-se à organização da obra monumental de seu pai. Estima-se que sejam mais de 5.000 obras espalhadas pelo mundo todo. E João, com seu trabalho incansável e muita perseverança, está conseguindo êxito. No ano de 1979 deu início a um projeto. Valerá a pena conhecê-lo:

http://www.portinari.org.br/ppsite/index.htm

Para saber mais sobre a vida desse valoroso pintor brasileiro, você caro (a) leitor (a) poderá ler alguns livros, tais como: “Retrato de Portinari”, de Antonio Callado, Editora Zahar, “PORTINARI”, de Antonio Bento (esgotado, encontrado em sebos), “Portinari – pintor social” de Annateresa Fabris, Editora Perspectiva e “Portinari – o pintor do Brasil”, de Marilia Balbi, da Boitempo Editorial. Há, ainda, um filme curta metragem, datado de 1968, “Candido Portinari, o Pintor de Brodósqui” feito pelo diretor João Batista de Andrade, mas que é muito difícil de se encontrar para assistir.

Ah! já ia me esquecendo de mencionar os poemas que o pintor escreveu. Candinho nunca deixou de ser um menino de Brodowski. Suas lembranças da infância estiveram sempre presentes em sua obra. Bastará ler alguns desses poemas para constatar: “Não tínhamos nenhum brinquedo/ Comprado. Fabricamos/ Nossos papagaios, piões,/Diabolô./ A noite de mãos livres e/ Pés ligeiros era: pique, barra-/ Manteiga, cruzado./ Certas noites de céu estrelado/ E a lua, ficávamos deitados na/ Grama da igreja de olhos presos/ Por fios luminosos vindos do céu/ Era jogo de / Encantamento./  […]

Em contrapartida, em sua homenagem, alguns de nossos poetas que eram seus amigos, também escreveram poemas:  Carlos Drummond dedicou-lhe o poema “A mão” e Vinicius de Moraes fez o seguinte poema de despedida: “Em sua morte cheia de azuis e rosas” –

“Lá vai Candinho!/ Pra onde ele vai?/ Vai pra Brodósqui/ Buscar seu pai. Lá vai Candinho!/ Pra onde ele foi? Foi pra Brodósqui/ Juntar seu boi./ Lá vai Candinho/ Com seu topete!/ Vai pra Brodósqui/ Pintar o sete./ Lá vai Candinho/ Tirando rima,/ Vai manquitando/ Ladeira acima./ Eh! Eh! Candinho!/ Muita saudade/ Para Zé Cláudio,/ Mário de Andrade./ Se vir Ovalle,/ Se vir Zé Lins, Fale, Candinho,/ Que eu sou feliz./ Ouviu, Candinho?/ – Diabo de homem mais surdo.”

Para mim foi muito bom ter visto “Guerra e Paz” e depois ter tido tempo de fazer algumas leituras, e mergulhado um pouco mais na vida deste grande brasileiro chamado Portinari. Deu-me ânimo para voltar a escrever. Muito obrigada, Candinho! “Se vir Vicente, diga-lhe que tenho saudades.”

Inês do Amaral Büschel, em 9 de abril de 2012.

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