novembro 18

PERCEPÇÃO.

Depois de haver escrito o post anterior sobre a insanidade cerebral, acabei lembrando-me de duas outras coisas: a primeira delas é que em 1998 escrevi um  poema ao qual dei o nome de “Percepção” e que nunca o publiquei; e a outra coisa é uma crônica escrita pelo psicanalista/escritor paulista Rubem Alves, publicada em 1996 (livro Sobre o Tempo e a Eternidade) denominada “Saúde Mental”. Nela ele faz uma comparação engraçada e inteligente entre o equipamento duro que é o hardware (cérebro), e a o equipamento macio que é o software (mente). Leia esse texto clicando no link abaixo:

http://mais.uol.com.br/view/ywvc7xsyq1pu/saude-mental–rubem-alves-04021B3164C0B983C6?types=A

Bem, então agora logo abaixo você leitor(a) encontrará o poema “Percepção” ao qual me referi acima e que escrevi há anos atrás. Lembro-me de tê-lo escrito depois de refletir bastante sobre o analfabetismo político de muitas pessoas com nível universitário, com as quais eu convivia:

Segunda Classe, por Tarsila do Amaral, em 1933.

“Nasci e cresci sem nada saber sobre

a criação da linguagem e da organização do Estado.

Aprendi a ler e a escrever e aprendi história.

Mas esqueceram-se de me ensinar lógica:

nunca soube o que é premissa maior ou menor;

muito menos se há diferença entre senso comum

e bom senso.

Nunca me ensinaram que tenho de respeitar todos os seres

humanos, sejam eles de uma maneira ou de outra,

diferentes de mim.

Hoje sou um adulto,

porém não compreendo o mundo em que vivo.

Sou um ingênuo e, no entanto, creio estar bem preparado.

Freqüentei a melhor Universidade mas,

não percebi que sou um ser autônomo e livre

capaz de escrever a minha própria história.

Se eu não sei que faço parte de um determinado povo;

Se eu não sei que as leis são feitas por mim, por intermédio

da voz do político que elegi para ser meu representante

na Câmara dos Vereadores, na Assembléia Legislativa,

na Câmara dos Deputados e no Senado Federal;

Se eu não sei que a democracia representativa funciona assim e

nem sequer sei o que é democracia,

como poderei distinguir tirania de democracia?

Ah, Sérgio Porto! Como bem percebeste o teu povo!

“O samba do criolo doido” é o retrato do Brasil.

Se nunca me ensinaram o que é uma Constituição,

como poderei saber para que ela serve ?

Se nada disso eu sei, como posso considerar-me cidadão?

Se não sei dos meus próprios direitos e deveres,

como posso acusar os pobres de ignorantes?

Analfabeto é burro?

Ou analfabeto é um ser humano inteligente que apenas não aprendeu a ler e a escrever?

Um sanatório geral é o que somos, como já bem disse o poeta da Mangueira.

E sobre a loucura, o que sei?

Louco é burro?

Ou seria apenas um ser humano inteligente,

mas que perdeu o controle sobre seus sentimentos e emoções?

Então emoções e sentimentos são importantes?

Mas aprendi na escola que só a razão deve ser levada a sério!

É isso mesmo, ou Descartes errou e não há separação entre mente e corpo?

Se os meus sentidos dão-me informações erradas,

chegarei à conclusões racionais equivocadas?

Então ensinaram-me errado?

Ah! Sinto que devemos estudar nossa história a partir do “Big Bang”,

senão, iremos continuar a eleger  mentirosos,

que farão as leis que bem quiserem,

que rasgarão a Constituição e farão outra

como bem lhes convier e

nós seremos obrigados a obedecê-la,

como nos impõem as elementares regras do Direito,

sem que possamos, nem ao menos,

alegar que não a conhecemos.

Percebo, então, que continuamos a ser o povo indígena ingênuo,

que trocava ouro por espelhinho,

conduzimos automóveis velozes pelas ruas e estradase usamos armas de fogo.

Somos indígenas falando uma língua que nos foi imposta e da qual pouco entendemos.

Somos indígenas que pensamos ter sido civilizados.

Somos indígenas deslumbrados com o ornamento dos poderosos bem vestidos,

que comem em mesa farta usando utensílios brilhantes e, sobretudo,

falando tão bonito, com sorriso branco (têm todos os dentes) que parecem alienígenas.

E, no entanto, os poderosos são também indígenas e, portanto,

são seres humanos iguais a nós.

Nós é que não percebemos que eles mandam e desmandam,

porque assim o permitimos.”

(poema escrito por Inês do Amaral Büschel,em 28 de setembro de 1998).

Este singelo poema foi feito em homenagem aos brasileiros Darcy Ribeiro, Adoniran Barbosa, Sérgio Porto, Chico Buarque, Pasquale Cipro Neto e Antonio Damásio, neurocientista português.

Antes de terminar este post, gostaria de sugerir a você leitor(a) que dê um clique no link logo abaixo e assista a um bonito vídeo, ao som da voz de Renato Russo/Legião Urbana, cantando “Índios”:

http://www.youtube.com/watch?v=_AozyxoLvgg

Inês do Amaral Büschel, 18 em novembro de 2011.

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