novembro 09

INSANIDADE CEREBRAL

Costumamos nos esquecer que nosso cérebro, tal qual qualquer outra parte de nosso corpo humano, também adoece e nos traz sérios problemas. Se acreditarmos que a mente é um produto do cérebro, poderemos imaginar quantas confusões e sofrimento um adoecimento ou a má formação de nosso cérebro poderá nos trazer.

Em geral – e com raras exceções pontuais – em quaisquer comunidades ou sociedades humanas há registros da existência de grande preconceito em relação ao adoecimento mental ou prejuízo cerebral nas pessoas. Confunde-se sofrimento mental (doença ou transtorno) ou deficiência intelectual (prejuízo no intelecto) com burrice. Muitas pessoas querem crer que os seres muito inteligentes nunca irão padecer de males que lhes trarão prejuízos mentais ou intelectuais.

Como se a inteligência fosse um seguro de saúde mental! Tal qual aquelas pessoas religiosas que, por freqüentarem assiduamente seus cultos e rezarem diariamente, acreditam piamente que nenhum mal ou doença lhes acometerá. E quando isso acontece consigo ou com algum parente, ficam meio que perplexas e revoltadas, exclamando: como isso pode ter ocorrido se estive sempre rezando?! O que fiz para merecer isso?!

Ninguém “merece” adoecer, nem sofrer qualquer acidente. Não há que se fazer juízo de valor neste assunto. As doenças e acidentes acontecem a qualquer um de nós, sejamos bons, maus ou mornos, crianças, jovens, adultos ou idosos. Assim ocorre também quando numa enchente, terremoto ou tsunami morrem inocentes ou culpados, dependendo do local onde se encontrava a pessoa por puro acaso.

Em conseqüência desse preconceito social com relação aos problemas mentais ou intelectuais, resta-nos que o maior elogio que um ser humano poderá fazer de si ou receber de outro, será considerar-se ou ser considerado “muito inteligente”. Aqueles seres que não forem dotados de “muita inteligência” serão sempre socialmente desprezados, sejam quais forem suas razões para a sua “falta de inteligência”. Um horror esse comportamento social desviante. Esquecem-se os que assim pensam, que a inteligência não é propriamente uma virtude como o é a bondade, a generosidade, a solidariedade, a tolerância, o bom humor, a paciência, a justiça, a prudência, a temperança, a humildade, a compaixão, a serenidade etc.

E qual é o significado de inteligência humana? Bem, o assunto é bem complexo porque há inteligências múltiplas. Na opinião do Dr. Howard Gardner, pesquisador estadunidense, psicólogo e professor da escola de educação da Universidade de Harvard, EUA, seriam elas de nove tipos diferentes: lingüística, musical, lógica/matemática, visual/espacial, corporal/cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista e existencialista. Para ele, por exemplo, a definição de inteligência, resumidamente, é a “capacidade de resolver problemas ou de elaborar produtos que sejam valorizados em um ou mais ambientes culturais ou comunitários.” (Inteligências Múltiplas, Artes Médicas, Porto Alegre,1995, pág.14).

Para refletirmos ao menos um pouco sobre tal questão, poderemos iniciar com a definição da palavra “inteligência” contida em nosso Dicionário Houaiss da língua portuguesa: (1) faculdade de conhecer, compreender e aprender (2) conjunto de funções psíquicas e psicofisiológicas que contribuem para o conhecimento, para a compreensão da natureza das coisas e do significado dos fatos (a doença afetou a sua inteligência); (3) psic capacidade de apreender e organizar os dados de uma situação em circunstâncias para as quais de nada servem o instinto, a aprendizagem e o hábito; capacidade de resolver problemas e empenhar-se em processos de pensamento abstrato (4) psic percepção clara e fácil; habilidade em tirar partido das circunstâncias; engenhosidade e eficácia no exercício de uma atividade; sagacidade, perspicácia […]

Existe ainda outro preconceito social entre os que padecem de uma doença mental e/ou transtorno mental ou deficiência intelectual. Aqueles que adoecem mentalmente – depressão grave, esquizofrenia etc – detestam a simples sugestão de que possam vir a serem incluídos entre as pessoas com alguma deficiência intelectual e, por sua vez, os familiares daqueles que têm alguma deficiência intelectual odeiam a menor menção de que seu parente possa vir a ser considerado um doente mental, pois em regra não o são, não necessitam ingerir medicamentos. É uma exclusão contínua, sempre tendo alguém querendo ser melhor do que o outro, ou destacando a sua peculiar inteligência pessoal.

Temos vivido uma revolução lingüística por causa de todos esses preconceitos sociais que geram estigmas. O grande exemplo é a mudança da expressão “psicose maníaco-depressiva” para “transtorno afetivo bipolar”, que significa a mesma coisa. Por outro lado, deixamos de usar a expressão “deficiência mental” e a substituímos por “deficiência intelectual” que, segundo especialistas, é a mais correta. Também não nos referimos mais ao “mal de Alzheimer”, que se tornou agora “doença de Alzheimer”. E assim vamos.

Há alguns anos, os adeptos da linguagem politicamente correta insistiam em dizer que a pessoa não era um “doente mental”, mas tão somente um “portador de doença mental”. Hoje se você usar essa linguagem será advertido seriamente. Enfim, nesse campo de problemas cerebrais será sempre bastante difícil você vir a acertar a nomenclatura. Isso me faz lembrar de um morador de rua – ops! – melhor dizendo “pessoa em situação de rua”, chamado sr. Raimundo, que vive debaixo de um viaduto lá pelo bairro paulistano da Lapa. Ele, um dia, ao ser entrevistado por uma repórter disse a brilhante frase: “sabe dona, a psiquiatria enlouquece a gente”. Quanta sabedoria!

Por outro lado enfrentamos também a questão da distinção que há de ser feita diante de uma doença mental ou de um transtorno mental que poderá não ser propriamente uma doença em si. Caso seja doença (transtorno bipolar,p.ex.) será considerado um problema médico-psiquiátrico com uso de medicamento e psicoterapia, mas não tão somente de psicoterapia. Entretanto, caso seja apenas um transtorno mental embora grave (borderline, p.ex.), o tratamento poderá vir a ser apenas psicoterápico sem uso de remédios. Há, ainda, pessoas com deficiência intelectual e que também sofrem de uma doença e/ou transtorno mental (co-morbidade). Existe muita discussão nesse campo do saber entre os profissionais da área da saúde mental ou seja, entre os médicos-psiquiatras e psicólogos ou psicanalistas.

Sigmund Freud

A normalidade fisiológica estaria contida no conceito de homeostase, que significa o equilíbrio orgânico interno, a estabilidade do corpo. Normal ou patológico? Como poderemos saber? Bem, isso você poderá aprender um pouco ao menos, se tiver paciência para ler o livro “O normal e o patológico” escrito pelo médico-filósofo e pesquisador francês, Georges Canguilhem e publicado aqui no Brasil pela Editora Forense Universitária (RJ), com tradução de M.Thereza Redig de Carvalho e Luiz Octávio F.B.Leite.

O genial escritor russo Anton Tchekhov, escreveu: “Antes tomava por doente, meio maluco, todo sujeito esquisito, mas agora minha opinião é de que o estado normal do homem é a esquisitice.

O fato é que temos de aprender, observando, o que seria um comportamento normal ou um comportamento fora dos padrões normais em determinada cultura social. Observando com bastante atenção, poderemos verificar se uma pessoa tem um comportamento estranho que prejudica não só a si própria mas também aos outros. Por ex., gasta ou compra demais, come ou fuma compulsivamente, irrita-se à toa ou toma atitudes violentas, ingere bebida alcoólica ou outras drogas excessivamente, repete o mesmo caso inúmeras vezes ou esquece de tudo facilmente, fala muito ou é calada demais, não relaxa ou não se concentra em nada, inicia diversos cursos e abandona todos, abre e fecha empresas num piscar de olhos, descuida-se visivelmente da higiene pessoal etc. Em caso positivo haverá, então, algo de no mínimo diferente com essa pessoa. Será preciso procurar ajuda profissional para descobrir-se se há patologia ou trata-se apenas de excentricidade.

Acho que o que temos mesmo de aprender em nossas vidas é a prestar maior atenção em nosso comportamento cotidiano e também no de nossos familiares. A vida com pressa acaba nos impedindo de observar demasiadas esquisitices nossas e alheias. E isso poderá vir a nos prejudicar seriamente, pois se houver necessidade de eventual tratamento já teremos talvez perdido um tempo precioso. Não se trata aqui de ficarmos “encarnando” em alguém, mas tão somente ouvir, ver e falar com melhor atenção às pessoas mais próximas sejam elas teus familiares, parentes ou amigos. Escutar as queixas das pessoas é importante.

Tenho visto e lido muitos depoimentos pessoais, nos quais se relatam enormes surpresas ao se “descobrir” problemas cerebrais (mentais ou intelectuais) em filhos, irmãos, pais ou avós. Talvez o que venha ocorrendo em nossa sociedade é um excesso de tolerância aos comportamentos excêntricos e/ou abusivos dentro da própria família ou então há o fenômeno da negação mesmo (auto-engano) ao nos depararmos com comportamentos no mínimo fora do padrão normal, de muitos de nossos familiares. Não se trata de “rotular” as pessoas ou obstruir sua criatividade, mas tão somente de tentar ajudá-las a ser mais cuidadosas com sua própria saúde ou talvez mais produtivas e menos destrutivas com suas próprias vidas. Da mesma forma que cuidamos do coração, dos dentes, dos ossos, do sangue, temos de cuidar do nosso cérebro.

Loucura

Para os profissionais da área da saúde será importante saber se o problema é mental, intelectual ou cerebral, pois isso implicará no tratamento apropriado para cada caso. Porém, para nós, pobres mortais e leigos no assunto, poderemos resumir o problema e admitirmos que se trata sempre de um problema no funcionamento do cérebro. Assim talvez possamos afastar o preconceito com relação à insanidade mental. Há em nosso cérebro humano sulcos, fluídos corporais, substâncias químicas, neurotransmissores (serotonina, dopamina, noradrenalina), amígdala (!?), dendritos etc, enfim componentes físico-químicos que são determinantes para nosso bem estar orgânico, influenciando, portanto, nossos pensamentos e comportamento social, interferindo em nosso livre-arbítrio.

Aliás, no meu modo de entender, o livre-arbítrio e/ou nossa autonomia da vontade não são lá assim tão livres como muitos gostariam de acreditar que fossem. Com o caminhar das pesquisas no campo da neurociência haverá – creio eu – muitas e fundamentais mudanças em nossa compreensão do comportamento humano normal ou patológico. Em resumo, o que eu queria dizer é que, mesmo sendo uma pessoa muito inteligente nada nos livrará da insanidade cerebral. Claro, poderemos evitar muitos males cuidando da saúde física e mental, alimentando-nos adequadamente, fazendo exercícios físicos constantemente etc. Mas, infelizmente, não há seguro contra o adoecimento mental de quem quer que seja. Não se iluda.

Inês do Amaral Büschel, em 08 de novembro de 2011.

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