abril 15

A (IN)TOLERANCIA E A ESPÉCIE HUMANA.

Dia toleranciaAs  palavras ofensivas proferidas publicamente, no final do mês de março de 2011, pelo deputado federal brasileiro Jair Bolsonaro (PP-RJ), atingiram diretamente tanto as pessoas de pele negra como também as pessoas homossexuais ao mesmo tempo, mas ofenderam ainda milhares de pessoas que repudiam comportamentos agressivos, notadamente quando não se enquadram no campo da legitima defesa. Esse deputado reeleito por diversas vezes – portanto representa a voz de milhares de eleitores – é capitão da reserva do Exército e, mais uma vez, acabou provocando um bafafá imenso na mídia, no Congresso Nacional e no Brasil inteiro. Irá responder pelas ofensas cometidas.

Mal havíamos digerido o pensamento intolerante desse Deputado, na manhã do dia 7 de abril, fomos todos nós, os brasileiros, atingidos por outra atitude intolerante cometida pelo – até então – pacato cidadão brasileiro Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos de idade. Desta vez estabeleceu-se o horror: foram assassinados com tiros à queima-roupa doze estudantes que se encontravam dentro de uma escola pública do bairro do Realengo, no Rio de Janeiro. Muitos outros estudantes ficaram feridos. O autor dos disparos por arma de fogo – antigo aluno daquela mesma escola – suicidou-se logo após cometer tal barbaridade. Deixou o país inteiro de luto.

Tudo isso é horrível. Todavia, há um outro mal que vive a nos rondar em nossa sociedade humana, pois há muitos indivíduos que aprovam a atitude ofensiva do deputado Bolsonaro e, pasmem, há muitos outros que enaltecem a tresloucada ação do jovem desequilibrado Wellington. O que se passa com a espécie humana? Eu não encontro respostas, exceto admitirmos que somos seres violentos por natureza. É a educação de qualidade – não tão somente qualquer educação – que poderá nos transformar em pessoas capazes de usar o bom senso e sermos, portanto, razoavelmente tolerantes uns com os outros.Tolerancia

Temos de admitir a existência no mundo de seres bélicos: há pessoas humanas que gostam de agredir aos outros e amam guerrear. Adoram usar armas, sejam elas de fogo, armas brancas ou palavras-punhais. E nem sequer há necessidade de motivos para que assim ajam. Basta apenas o desejo que nasce de suas entranhas inacessíveis, incompreensíveis e inexplicáveis.

Algumas – não todas – dessas pessoas soturnas, às vezes incomunicáveis ou agressivas, quando vivem em sociedades partidas como a nossa: excessivamente desigual, competitiva, individualista e sem afeto, encontram o ambiente propício para fazer vicejar o mal e a vingança que cogitam o tempo todo. Um sistema econômico selvagem unido ao ideal de pureza almejado e fomentado por quase todas as religiões, serve como dinamite para tais indivíduos. Acresça-se a isso o livre comércio criminoso de armas de fogo, ao largo da fiscalização do Estado brasileiro. As armas usadas por criminosos são em geral fabricadas no Brasil, mas com posse ilegal e freqüentemente são adquiridas por intermédio da prática do crime de receptação.

Por outro lado, gostaria de falar sobre algo que venho observando há anos: o medo que temos da loucura, que gera o preconceito em relação à insanidade mental. Antes que eu seja mal interpretada, quero aqui deixar claro que pessoas enlouquecidas podem ser extremamente generosas também. Os seres desequilibrados emocionalmente não são necessariamente maus. Todos nós, os seres humanos saudáveis ou não, trazemos em nós várias possibilidades: características acentuadas de bondade ou de maldade ou de egoísmo etc. Somos uma obra aberta. E ninguém se iluda porque não somos só bondade ou só maldade. Somos vários, concomitantemente, dependendo das mais variadas circunstâncias. Esta é a nossa riqueza e também a nossa perdição. Se sofrermos de um desequilíbrio mental, poderemos um dia – inexplicavelmente – até mesmo matar alguém usando apenas um taco de beisebol. Embora você possa negar essa possibilidade mil vezes, ela ainda assim existirá contra a sua vontade.

Estou dizendo isto pelo seguinte: se em nossa família tivermos notícia de que no passado houve casos de parentes vitimados por câncer, ou alguma outra doença que sabemos ser de cunho hereditário, mesmo sabendo que isso não é uma confirmação de um futuro diagnóstico, ficaremos em alerta e tomaremos algumas medidas preventivas, para tentarmos ao menos evitar a doença. Assim agirão aqueles que crêem no princípio da prevenção. Há até mesmo certos exageros pelo mundo afora, tais como algumas jovens mulheres que chegam a fazer cirurgia plástica preventiva retirando os seios, agindo dessa forma porque suas mães ou tias tiveram câncer de mama.

No entanto, caso a doença noticiada de alguns familiares – mesmo que sejam em linha reta como uma mãe, um pai ou avós – venha a ser da área da insanidade mental: transtornos psíquicos crônicos leves ou graves tais como a esquizofrenia, a bipolaridade (psicose), distúrbios afetivos de humor, depressão, borderlines etc, isso tudo será guardado a sete chaves como segredo de família. E pobre de quem ousar falar sobre o assunto, pois será repreendido imediatamente e acusado de estar querendo rotular as pessoas. Interessante é que se a doença for hemofilia ou diabetes, p.ex., não se falará em rotulação. Se for cardiopatia também não. Aí será normal ser diferente.

Como regra, todos nós fugimos da possibilidade real do sofrimento psíquico e rejeitamos ab ovo o risco de hereditariedade nesse campo. Como se o nosso cérebro não fizesse parte do nosso corpo, tal qual as mamas, a próstata, os olhos, o sangue, o pâncreas etc. A maioria dos humanos acha que o cérebro não adoece. Para alguns existe apenas a maldição que atinge a mente que é incorpórea. Não percebemos que o cérebro é produto da mente e a mente é produto do cérebro, com bem disse o pensador francês Edgar Morin.

Criamos os hospitais especializados em coração, no fígado, nos rins, mas a maioria das pessoas acha que não podemos criar um hospital psiquiátrico, pois isso seria horrível! Nem mesmo um hospital especializado em cérebros humanos seria possível, tal é o nosso pavor e preconceito com relação ao tema.

Consta do noticiário que a mãe biológica do jovem Wellington sofria de esquizofrenia. Absolutamente, não estou querendo dizer que ele também sofria da mesma doença, mas como diria o sertanejo, “perigava de ser”. Daí os delírios e a paranóia de perseguição, também reforçados pelo fato de ter sido vítima de bullying na escola. Era preciso ter havido uma avaliação médico-psiquiátrica, acompanhada de bom tratamento e não tão somente submetê-lo a psicoterapia como parece ter ocorrido durante um período da vida dele. Mas, no nosso país – além de muito preconceito – há muito poucos médicos-psiquiatras. Contamos com bastantes psicólogos, mas estes não são médicos.

E os serviços públicos – e privados também – da área da insanidade mental são precaríssimos em todo território nacional. Parece haver um tabu da loucura entre nós. Fale em demência e veja o que essa palavra provoca nas pessoas ao seu redor. Talvez esse medo até mesmo esteja correlacionado com a morte, que também para nós é um tabu. Melhor negar. A negação para muitos resolve tudo. E, ilusoriamente, cria-se o melhor dos mundos, onde estamos sempre todos bem.

Não adianta agora culpabilizar a família do jovem assassino, pois isso apesar de muito usual no Brasil é desumano e ridículo. Nos casos de problemas com saúde mental é muito comum as pessoas apontarem suas miras para a família do doente, acusando os familiares de descaso. Na realidade falta total apoio social e estatal para essas famílias que, por sua vez, nem sequer são capacitadas para lidar com isso. O fato é que, nesses casos, é toda sociedade que tem culpa, pois promove a negação das doenças mentais. As pessoas misturam distúrbio mental com falta de caráter ou, então acham que pessoas inteligentes estão a salvo desse tipo de enfermidade. Tudo isso é preconceito.

Algumas religiões até mesmo tratam a doença mental como problema espiritual, jamais levando em conta que o cérebro, tal qual o coração também adoece, sofre pane e curto-circuito, independentemente da vontade do doente. Não é questão de livre-arbítrio. Nem determinismo. Não depende da força de vontade do enfermo. Acontece, simplesmente. E com qualquer um de nós. Faz parte de nossa natureza humana. Melhor fariam esses religiosos que pregam a pureza aos humanos, se lessem aos seus fiéis o belo poema escrito por nosso poetinha Vinicius de Moraes: Carta aos Puros:

http://www.viniciusdemoraes.com.br

Dia Inter ToleranciaE, numa derradeira homenagem à memória das crianças mortas, ao luto de seus familiares, em consolo às crianças feridas que sobreviveram e, também como lenitivo àquelas pessoas negras e às homossexuais ofendidas pelo deputado federal Bolsonaro, valerá a pena ler a “DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS SOBRE A TOLERÂNCIA”, aprovada pela Conferência Geral da UNESCO em sua 28ª reunião, em Paris, no dia 16 de novembro de 1995. Clique no endereço abaixo:http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001315/131524porb.pdf

Cabe a cada um de nós a responsabilidade de difundir esses ideais de tolerancia. Temos também de aprender algo com o pacificador Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul. É um homem de grande valor moral e que, entretanto, um dia foi considerado um terrorista em seu próprio país e ficou preso durante vinte e sete anos! Ele, ainda assim, após sua libertação conseguiu reunir seu povo apesar de décadas de cruel apartheid entre brancos e negros.

Viva em paz.  Não deixe o medo tomar conta de sua mente. Descarte a vingança, o ressentimento e a raiva. Se puder, seja uma pessoa feliz.

Inês do Amaral Buschel, em 14 de abril de 2011.

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