março 18

O FILME “POESIA” (POETRY)

Nesta semana estive no cinema assistindo a um belo filme sul-coreano com o título de “POESIA”, que é um drama não recomendado para menores de 16 anos. Havia longa fila na bilheteria e penso que o filme está agradando a muita gente. Mas não agrada a todos, pois já li críticas negativas. Normal. Que seria do verde se todos gostassem apenas do amarelo, não é? O que importa para mim é que gostei do filme e vivi ali momentos de muita emoção: alegria, enlevo, compaixão, tristeza, raiva, indignação. É o que basta. É para isso que nos serve a arte cinematográfica – penso eu – para nos emocionar. Não é só para entretenimento, mas também para reflexão.

A protagonista é uma avó, de 66 anos e que se chama Mija. Ela vive no subúrbio da cidade de Seul, às margens do rio Huan. Além de trabalhar como diarista, pois a aposentadoria não lhe é suficiente, também cuida sozinha de si e do neto adolescente, cuja mãe trabalha em outra cidade longínqua. Essa situação é muito comum na nossa vida cotidiana, seja no Oriente ou no Ocidente: uma mulher idosa e sozinha que cuida de netos ou de familiares enfermos. A velhice, como dizem com razão os italianos, muitas vezes é bruta. Para saber um pouco dessa trama, clique no endereço abaixo e assista aos trailers:

 

http://www.youtube.com/watch?v=fo2dfY317-k&feature=BF&playnext=1&list=QL&index=1

O roteiro desse filme foi realizado por quem também o dirigiu: Lee Chang-dong, que já foi Ministro da Cultura de seu país, a Coréia do Sul . Por esse filme, merecidamente, ele recebeu o prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes de 2010. Foi ele mesmo quem escolheu a atriz que seria a protagonista do filme: Yoon Hee-jeong, uma conhecida artista coreana que já se afastara dos estúdios há uns quinze anos. Essa escolha foi magistral porque ela representou maravilhosamente bem uma avó que era, ao mesmo tempo, ingênua e observadora.

Hee-jeong e Chang-dong

Hee-jeong e Chang-dong

Logo no início do filme ficamos sabendo que ela recebe o diagnóstico médico da doença de Alzheimer em fase inicial, pois está esquecendo muito das palavras, notadamente dos substantivos. Depois disso, sabemos que uma menina adolescente, colega de seu neto na escola, suicidou-se jogando-se da ponte sobre um rio. Nesse meio tempo, essa avó vê um cartaz do centro cultural local oferecendo um curso de poesia e se interessa, matriculando-se. Ela cozinha, diariamente, para seu neto e para si. Comunica-se, constantemente, pelo telefone celular com sua filha que é a mãe dele. Alguns dias da semana ela também vai até a residência de um senhor comerciante de classe média que, devido a sequelas deixadas por um derrame cerebral, precisa de alguém para lhe dar banhos. É Mija quem desempenha essa função.

A trama desenrola-se nesse ambiente, mostrando o cotidiano de Mija num apartamento pequeno, localizado num condomínio em bairro popular, e as belas paisagens do local onde vive. Impressionou-me muito a desatenção do neto para com sua avó. Ele se atém ao computador, aos jogos com amigos em casas de fliperama, em comer, dormir e reclamar. Não ajuda a avó em nada. Esse comportamento juvenil parece uma maldição da vida moderna. Um egoísmo exacerbado. Há algo de muito errado nisso ou sempre foi assim e eu que não observei? Ou isso se passa apenas em uma determinada classe social?

Adorei ver essa avó andando de ônibus pela cidade, freqüentando as aulas e saraus de poesias, bem como de vê-la cantando num karaokê. E sempre muito elegante e bem arrumada. O filme é tocante mesmo. Ele em si é uma poesia, uma homenagem a nós, as mulheres do mundo todo, mas principalmente às avós. Quase um filme feminista, pois afinal mostra a força de uma mulher delicada e de bom gosto que, ao mesmo tempo, é muito determinada. Enfim, uma história admirável e que merece ser vista.

Achei, apenas, que o filme é um pouco longo: 139 minutos. Poderia ter sido mais curto. Mas compreendo o que deve ter sentido seu autor, ao ter que editar uma obra tão bonita. Não deve ser fácil cortar lindas cenas já filmadas. Vejo por mim, pois adoro escrever e quando o texto fica longo demais e tenho de diminuí-lo, sinto angústia. Tudo parece ser importante de ser dito.

Bem, mas a trama mais importante no filme gira em torno de um crime sexual gravíssimo cometido dentro das dependências de uma escola, por seis adolescentes contra uma colega também adolescente. Segundo o diretor do filme, Lee Chang-dong, esse crime de fato ocorreu na vida real e o inspirou a escrever.  Na narrativa, tanto os pais desses garotos bem como a direção da escola, não desejam publicidade sobre o caso, temendo pelo comprometimento do futuro desses jovens alunos, e com a reputação da escola. A vítima suicidou-se e sua mãe, viúva, vive pobremente na zona rural. Resolvem abafar tudo com o pagamento de uma indenização à mãe da vítima.

Infelizmente, tanto no Ocidente como no Oriente, pensamos que o dinheiro basta para resolver graves problemas. A indenização é justa sim, principalmente quando a vítima é pobre e a família dos autores estão bem de vida. Mas, penso eu, que neste tipo de crime descrito no filme – praticado por menores de 18 anos – caberia muito bem a nova idéia que os juristas e outros profissionais da área, em todo mundo, andam estudando e aplicando: a justiça restaurativa. Os infratores têm de tomar consciência dos atos praticados, enfrentando o olhar e o sentimento das vítimas. Só interná-los para reeducação não basta. E protegê-los totalmente de todas as consequências de seus atos jamais, claro!

É muito interessante a reação de Mija, quando descobre que seu neto é um dos jovens envolvidos no crime. Mas para saber isso valerá a pena você assistir a esse filme, mesmo que seja muito longo. É tudo muito bonito. Servirá como momentos de relaxamento.

Desde criança aprendi com minha mãe a ir ao cinema. Ela levava todos os filhos para ver os filmes do Mazzaropi, do Oscarito e Grande Otelo e ríamos muito. Nunca deixei de ir ao cinema durante a minha vida toda. Se não tenho companhia vou sozinha mesmo. São momentos em que me transporto para um não lugar que me traz paz. E, se perco algum bom filme, corro atrás do DVD dele e o assisto em casa mesmo.

Inês do Amaral Büschel, em 18 de fevereiro de 2011.

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