O COLETIVO E O SUPER-EXCLUSIVO.

Casamento coletivo

Certa feita e há pouco menos de dois anos, eu estava almoçando num restaurante na companhia de algumas pessoas amigas e seus acompanhantes. Num dado momento, uma das mulheres presentes perguntou a uma outra, se ela saberia maiores detalhes sobre um novo hotel – tipo resort – que estaria para ser inaugurado em Pernambuco. Afirmava essa senhora que alguém havia lhe contado que esse hotel seria maravilhoso e super-exclusivo. Ela estava muito interessada em ir conhecê-lo.

Seria para mim um papo superficial e sem importância. Todavia chamou-me a atenção o fato dessa pessoa interessada no tal hotel super-exclusivo ser uma funcionária pública de nível universitário, pois ela é uma profissional médica do serviço público de saúde, o famigerado SUS – Sistema Único de Saúde.

Pensei com meus botões: como pode uma pessoa que, diariamente, cuida de pessoas super excluídas socialmente, estar interessada em freqüentar locais super-exclusivos e caríssimos? Meus botões entraram em pane e não souberam me responder essa difícil questão. Penso que deveria ter pedido a ajuda aos universitários… Bem, mas a minha suspeita é a de que aquela profissional não tenha lá uma boa consciência social.

Passado então algum tempo, lendo o jornal – FSP – num domingo do início deste novo ano de 2011, atentei-me para uma matéria com a seguinte manchete: “Super-rico” torce nariz para “farofa” dos “apenas ricos”. A reportagem havia sido feita na cidade de Florianópolis/SC, na praia do Jurerê Internacional, e começava contando que uma determinada juíza brasileira – que é proprietária de um caríssimo apartamento naquela badalada praia – bebe champanhe Veuve Clicquot à beira mar, pagando R$.280,00 a garrafa. E que, ainda assim, era esnobada pelos super-ricos. Você poderá ler isso no endereço abaixo:

 http://www.midianews.com.br/?pg=fogoamigo&idnota=6561

Lendo aquilo perguntei novamente aos meus botões: como pode? Insolentemente, meus botões tornaram a não me responder. Mas, a minha suspeita é a de que também aquela funcionária pública de nível universitário não tenha lá uma boa consciência social.

A sociedade brasileira, em geral, pressupõe que uma pessoa que tenha obtido uma graduação de nível de instrução superior (bacharelado), esteja mais qualificada para situar-se diante de questões complexas e tenha maior consciência social. Pessoalmente, eu não tenho constatado isso. Aliás, desenvolvi, ao longo do tempo, certa implicância com o pessoal que tem nível universitário: sou mais exigente com eles do que com aqueles que não concluíram um curso superior.

Por exemplo, penso que a pessoa que detém nível de instrução superior não pode dar respostas baseadas apenas no senso comum, notadamente se a questão suscitada for da área de seus estudos. Explico-me: um bacharel em Direito não pode, sob hipótese alguma, afirmar que o Poder Legislativo – composto por políticos – não serve para nada.

Sim, porque esse bacharel especializou-se no estudo das leis – que são feitas pelo Poder Legislativo! – e ele, certamente, deve saber que sem a atividade dos políticos a ciência do Direito não teria razão de ser. Excetuando-se a possibilidade dessa pessoa ser um anarquista (que nega o Estado), devemos aceitar que sem a atividade política – coletiva – haverá o caos e a desordem. E, é certamente, por isso que também nas sociedades indígenas primitivas existe a figura do cacique e do pajé, autoridades que dirigem a política daquela determinada tribo e detém um certo poder para cobrar atitudes e apaziguar conflitos.

Então, se um bacharel em ciência médica ou em engenharia – ou de qualquer outro campo do saber que não esteja dentro das ciências sociais e jurídicas – disser que o Poder Legislativo não serve para nada, eu apenas consideraria essa opinião uma ignorância, uma manifestação sem pensar, baseada no senso comum, porém saberia de antemão que não posso exigir desse profissional o mesmo conhecimento de política que deve ter um bacharel em ciência jurídica e social.

Embora, convenhamos, um cidadão engenheiro ou médico, que teve a oportunidade de cultivar o conhecimento num ambiente universitário, não devesse emitir uma opinião tão rasteira. Concorda comigo? Mas, infelizmente, é sempre o senso comum que impera, mesmo entre profissionais de nível universitário, por melhor que seja a Universidade frequentada. Aliás, sobre educação, valerá a pena você ler o artigo escrito por Viviane Senna. Bastará clicar:

 http://www.cdes.gov.br/noticia/17595/a-grave-patologia-da-educacao-brasileira.html

Bem, mas voltemos àquela questão inicial da consciência social entre médicos e juízes brasileiros, notadamente daqueles que exercem suas profissões no setor público. Inclua-se aqui também, por justiça, os demais profissionais de nível universitário de toda e qualquer área do saber, sejam eles administradores, oficiais de justiça, cientistas, promotores de justiça, advogados, engenheiros, enfermeiros, professores etc. Sem exceções.

Um profissional de nível universitário – principalmente, mas não só – que presta serviço público e recebe remuneração da Fazenda Pública (do Estado, portanto) deve ter a consciência social de que é um cidadão privilegiado num país onde ainda viceja a miséria e o regime de exclusão promovido pela obscena desigualdade social. Ele não tem, portanto, o direito de dizer que nada tem a ver com isso, porque se trata aqui de seu país, de sua pátria, que lhe paga o salário, seja público ou privado.

Mas, afinal, o que vem a ser consciência social? É uma questão bem complexa, mas tentarei resumir sem errar. Vamos por partes, como diria o esquartejador…rsrsrs. Primeiro precisaremos conceituar o que vem a ser “consciência”. Como esse é um tema da filosofia, buscaremos num dicionário de filosofia a sua definição.

Para evitar grandes divagações escolherei o simples e eficiente dicionário de Jacqueline Russ (da edit Scipione): Etimologicamente, essa palavra vem do latim conscientia, que é conhecimento partilhado com um outro. No sentido psicológico: conhecimento, intuição ou sentimento (mais ou menos claro, mais ou menos nítido) que um sujeito possui de si mesmo, de seus estados e de seus atos; no sentido moral: capacidade de trazer ou de formular apreciações morais, juízos éticos sobre o bem e o mal.

Nesse mesmo dicionário há uma citação do pensador francês conhecido por Alain, que diz” Consciência. É o saber que retorna sobre si mesmo e toma por centro a pessoa própria humana, que se põe no lugar de decidir e julgar-se”. Se você desejar saber mais sobre esse pensador, clique no endereço abaixo.

 http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile-Auguste_Chartier

Para o dramaturgo inglês Shakespeare, nas palavras do personagem Rei Ricardo III, “ Minha consciência tem milhares de vozes, / E cada voz me traz milhares de histórias, / E de cada história sou o vilão condenado.

Nesse assunto também se meteu o pensador Karl Marx, em seu escrito “Para a Crítica da Economia Política”: “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”.

Resumo da ópera: o que quero dizer sobre consciência social é o que nosso escritor maior, Machado de Assis, expressa no seu livro “Helena”: “Na abastança é impossível compreender as lutas da miséria.”

Com honrosas exceções, as pessoas que nunca enfrentaram grandes dificuldades sócio-econômicas em seu cotidiano de vida, têm, em geral, enormes dificuldades para compreender o que significa desigualdade social ou injustiça social. Podem ser pessoas moralmente muito boas, mas não percebem – não têm consciência – que integram um sistema injusto de distribuição da riqueza. Um sistema econômico justo se constitui não só em proporcionar moradia/propriedade ou emprêgo aos cidadãos, mas também oferecer bons serviços públicos de educação, saúde, justiça, transporte e segurança – para todos – sem exceções – neste imenso país.

Transporte coletivo

Li, há um mês, um artigo escrito pelo economista da FGV, Prof. Marcelo Néri, e que foi publicado na FSP com o título “O coletivo de brasileiro”.  Nesse escrito ele nos dá a notícia do resultado de uma pesquisa, que concluiu que o brasileiro se diz satisfeito com sua vida pessoal, mas não com a vida de seus compatriotas. Algo como “no individual vamos bem, mas não no coletivo”. Esquisito, não é? Vale a pena você clicar no endereço abaixo e ler esse artigo:

 http://www.fgv.br/cps/pesquisas/Politicas_sociais_alunos/2010/BES_raiz_aanew/pdf/BES_20100429NeriValor_Coletivo3.pdf

O coletivo é o campo da política. Penso que sem educação para a política não encontraremos saída em paz. Irá imperar a violência urbana.

 Inês do Amaral Büschel, em 17 de fevereiro de 2011. 

 

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