A FORÇA DAS ÁGUAS NUMA TERRA DEVASTADA.

Temporal

Antes de qualquer comentário, rendo minhas homenagens e reverências às vítimas dos deslizamentos de terras e inundações. Aos mortos, meus respeitos. Aos feridos e seus parentes e amigos enlutados, bem como à imensa população de desabrigados e desalojados, minha irrestrita solidariedade.

Tenho alma tupi e sinto medo de trovão. Minha companheira, uma cadela fox-paulistinha, também fica apavorada diante de raios e trovões. Moramos perto do córrego do Ipiranga, cujas margens foram concretadas há alguns anos. Quando chove muito, suas águas se vingam dos humanos e transbordam para o leito das avenidas Ricardo Jafet/ Abraão de Morais, assustando a todos, provocando grandes estragos materiais e, algumas vezes, até mesmo mortes. Faz me lembrar do poema sobre a violência, que o dramaturgo alemão Bertolt Brecht um dia escreveu:

 “A corrente impetuosa é chamada de violenta/ Mas o leito do rio que a contém/ Ninguém chama de violento/ A tempestade que faz dobrar as bétulas/ é tida como violenta/ E a tempestade que faz dobrar/ Os dorsos dos operários na rua?”.”

E as chuvas andam mais intensas ultimamente, no mundo todo. E as águas acumuladas levam-nos para onde bem entendem, com tanta violência, como se estivessem furiosas conosco. Os deslizamentos de terra espalham lama para todo o lado e soterram pessoas impiedosamente. O que acaba de acontecer na região serrana do estado do Rio de Janeiro (Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo) é desolador. A tragédia é imensa. Já foram contabilizados quase 700 mortos! Há, ainda, inúmeras pessoas desaparecidas. Um cenário de devastação.

Tempos atrás, no final do ano de 2009 e início de 2010, também sofremos todos ao assistirmos o que ocorreu ali mesmo no RJ, nas cidades de Niterói (Morro do Bumba) e Angra dos Reis. E, no estado de São Paulo, na cidade de São Luís do Paraitinga como também no Vale do Itajaí, no estado de Santa Catarina, tudo também veio abaixo. E nos bairros periféricos da Capital de SP, houve alagamentos e inundações. Neste início do ano de 2011, as chuvas intensas já causaram novos estragos em municípios paulistas e mineiros, deixando para trás pessoas desaparecidas, mortas, desalojadas.

No ano passado, no mês de setembro, a intensidade das chuvas provocaram inundações e deslizamentos nos morros de Nauhala, na Guatemala, deixando 44 mortos. Também na Colômbia, em meados do mesmo mês de setembro de 2010, na região de Antioquia, houve deslizamentos de terras e enchentes que mataram aproximadamente 74 pessoas. Na longínqua Austrália, desde novembro de 2010 até este início do ano de 2011, também choveu intensamente causando inundações na cidade de Brisbane, matando cerca de 25 pessoas e causando imensos prejuízos materiais.

Lembro-me, também, de algo bem semelhante e muito trágico que ocorreu no final do ano de 1999 na Venezuela, em Caracas, num lugar chamado Vargas. Ali, chuvas intensas provocaram graves deslizamentos dos morros matando mais de 10.000 pessoas, deixando para trás uma terra arrasada.

No final do ano de 2004 assistimos, apavorados, o fenômeno do tsunami nas águas que margeiam a Indonésia, na província de Aceh, que surgiu repentinamente e matou mais de 235.000 pessoas. Logo depois, em agosto de 2005, uma feroz tempestade provocou o surgimento de um furacão, que recebeu o nome de Katrina e devastou a cidade de New Orleãns, na região do Mississipi, EUA. Ali morreram mais de mil pessoas.

Para mim, essas catástrofes e tantas outras que as chuvas torrenciais têm provocado pelo mundo afora, já são indícios mais do que suficientes para a aceitação da teoria do aquecimento global, que vem sendo anunciada já há alguns anos por cientistas dedicados ao estudo das mudanças climáticas no planeta Terra. Mas há, ainda, quem duvide disso.

Por outro lado, penso que está bem demonstrado também, que a população que mais sofre perdas e prejuízos – pessoais e materiais – é sempre a de baixa renda (pobres). Há muita perda também para pessoas de classe média e de classe abastada (ricos), mas sem sombra de dúvidas, os prejuízos maiores são dos mais dos pobres, pois são eles que vivem precariamente, sempre. Desde que nasceram. Estão sempre reconstruindo suas vidas, tal como o mito de Sísifo que levava a pedra até o cume da montanha e ela de lá rolava para baixo, tendo ele que ir buscá-la e elevá-la, infinitamente.

Jamais as pessoas pobres terão oportunidade de viver na planície, pois o salário mensal que ganham é sempre irrisório e insuficiente para adquirir uma propriedade em lugar seguro. Só lhes resta conquistar um cantinho para viver nos morros. E, ainda assim, sempre ilegais, porque é impossível legalizar terras – urbanas ou rurais – para pobres neste Brasil que sabe muito bem ser mesquinho com seu povo, há séculos. Tratamos o povo humilde com descaso.

A população mais abastada não pode prescindir do trabalho dos pobres – em suas empresas ou no trabalho doméstico – e os pobres não podem prescindir de viver perto dos ricos para alcançar algum emprego (ou subemprego…) e pagar menos pelo transporte público. Por isso buscam viver nos morros das redondezas. A maioria veio para a cidade abandonando a vida no campo, onde viver tornou-se muito difícil, pois não há mais empregos – as máquinas desempregam pessoas – além disso, não há oportunidades, boas escolas, hospitais etc.

E agora vivemos todos juntinhos, bem grudadinhos, nestas terras urbanas devastadas, poluídas e inchadas de gente. Avançamos sobre as margens dos rios, riachos, córregos, igarapés, represas, morros. A maioria o faz por absoluta necessidade de sobrevivência e alguns por excentricidade mesmo, buscando “qualidade de vida”. Agora, a natureza começa a se vingar da nossa invasão e enche-nos de horror.

Culpar só ao Poder Público (governos, políticos, funcionários) é fácil, pois tal qual a Geni, da canção de Chico Buarque, todos querem jogar pedras ou bosta mesmo, pois parecem ter sido feitos para apanhar. Há alguns críticos tão ácidos que até parece que conhecem o caminho do céu, de tanta certeza que têm de que toda a culpa pelas mortes é devida aos integrantes do Poder Público. Haja paciência. Para esses críticos, como regra, o Estado tem de ser mínimo, cobrar menos impostos, mas na hora “H” tem de estar preparadíssimo e prestar serviço eficiente. Não quero dizer com isto que concordo com a ineficiência do serviço público, com a super tributação e sequer com a corrupção dos funcionários. Apenas quero dizer que é preciso ter um mínimo de coerência.

Está claro que não podemos colocar a culpa só nas chuvas. Precisamos, sem dúvida e perda de tempo, nos esmerar em planejamento urbano e rural. Sem nos esquecermos, contudo, da sociedade decadente e despolitizada em que vivemos, onde prepondera a ganância do empresariado privado que se enriquece com a especulação imobiliária e corrompe a tudo e a todos que encontram pela frente. Não há obstáculos que permaneçam em pé diante de sua volúpia. Atropelam e desrespeitam as regras legais previstas no Estatuto da Cidade. O capital/mercado muitas vezes comporta-se como um bandido fora-da-lei, não se conduz pela ética e muito menos tem coração.

Por outro lado, não podemos nos esquecer também da existência real dos loucos de todo o gênero, que não acreditam nas previsões de risco, se apegam no poder divino e acham que morar nos morros ou perto dos rios não é perigoso. Muitas vezes, nem sequer acreditam nas autoridades locais que pedem para que abandonem suas casas, haja vista o risco de morte. Resistem ao máximo e não se locomovem. Até mesmo porque, na maioria das vezes, não têm para onde ir.

Mas, apesar de tudo isso, diante de tanta dor, dá para ver que há muita solidariedade entre nós, os brasileiros. Muita gente no Brasil se move para ajudar aos que sofrem nessas tragédias coletivas. Emociona a todos nós, ver o desprendimento de muitos que se colocam totalmente à disposição e estão sempre prontos a ajudar seus semelhantes sem receber nada em troca. Muitos outros, como eu, doam dinheiro depositando-o nas contas bancárias abertas para ajudar na reconstrução dos municípios. Nesse ponto, de fato, muitos brasileiros merecem nossa admiração e agradecimentos. Estão de parabéns!

 Antes de finalizar, gostaria de fazer três sugestões de leituras para aqueles que se interessam pela natureza:

 a) “A vingança de Gaia”, obra escrita pelo cientista inglês, James Lovelock, publicada em 2006. Foi traduzida para o português por Ivo Korytowski e publicada pela Editora Intrínseca/RJ;

b) “Saber Cuidar – Ética do humano – compaixão pela terra”, livro escrito pelo teólogo brasileiro Leonardo Boff e publicado pela Editora Vozes/Petrópolis, em 1999; e,

c) “A Dialética da Natureza”, obra escrita pelo filósofo alemão Friedrich Engels, no final do século 19, tendo sido traduzida para o português e publicada pela Editora Paz e Terra/RJ no ano de 1979.

 TERRA DEVASTADA” *

( música do grupo de rock paulista dos anos 80, que se chamava Voluntários da Pátria.)

“Senti a chuva cair/ Quando a noite chegou/ Senti um grande sono/ Adormecer o planeta/ Senti que o mundo acabou/ A noite inteira choveu/ A chuva não vai parar/ Se a chuva começar/ A remover a sujeira/ Então a chuva vai me levar/ A terra gira no céu/ Os vermes correm no chão/ A escuridão esconde/ Toda luz do planeta/ O medo esconde a razão/ Um corpo sangra no chão/ A morte acaba com a dor/ Um som vindo de longe/ Atravessa o planeta/ Um raio esconde/ A Mão do Senhor.” Se você quiser ouvir essa música, clique no link abaixo.

 http://www.istosovideo.com/v/5634/terra-devastada-voluntrios-da-ptria.html

 * O nome desta música nos remete ao título da obra escrita pelo poeta nascido estadunidense e radicado em Londres,  T.S. Eliot , “A Terra Devastada” (The Waste Land), publicada no ano de 1922. Foi traduzida para o português por Gualter Cunha, e publicada por Relógio D’Água Editores, em agosto de 1999.

 Inês do Amaral Büschel, em 18 de janeiro de 2011.

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