MELANOMA DE CORÓIDE (C 69.3), ou uma pedra no meio do caminho.

 
Olhos

Era o ano de 2005. Na última sexta-feira do mês de novembro, por volta das 20:00 horas, encontrava-me com amigos dos tempos da faculdade de Direito, num restaurante tradicional localizado no centro da cidade de São Paulo. Ríamos muito uns dos outros pelos efeitos da passagem do tempo em nossos corpos: uns barrigudos, outros carecas, muitas rugas no rosto, surdez, perda da força física, refluxo gástrico, lentidão, problemas de visão etc.

Uma amiga, a Geanete, se dizia em pior situação devido ao descolamento da retina de um dos olhos. Para consolá-la, apressei-me em dizer-lhe que também já não enxergava muito bem do olho esquerdo e ato contínuo, tapei meu olho direito para demonstrar minha deficiência visual. Naquele momento senti um frio na espinha, pois percebi que não estava enxergando nada! Ficara tudo escuro.

Disfarcei o quanto pude o medo que senti. Tomei mais um chopp e fui para casa em completo silêncio. Lembrava-me da sugestão de minha amiga Suely, que há pouco tempo havia me proposto que escrevêssemos juntas um livro sobre o processo de envelhecimento, ao qual daríamos o nome de “A deficiência como destino”. É que naquele ano de 2005, nós duas tínhamos concluído um curso de aperfeiçoamento em gerontologia.

Uso óculos desde os 19 anos de idade em razão de miopia e astigmatismo. Por isso vou regularmente ao oftalmologista. Havia feito exame oftálmico no mês de abril daquele mesmo ano de 2005 e a médica não observara nada grave, exceto que a miopia do meu olho esquerdo havia aumentado um pouco.

Tão logo pude, marquei um retorno à oftalmologista. A consulta foi agendada para o final da tarde do dia 13 de dezembro. Fui sozinha, de metrô, como sempre fiz. A oftalmologista, Dra. Érica, espantou-se ao me ver ali em seu consultório apenas 6 meses após minha última consulta. Disse-lhe que não estava enxergando nada pelo olho esquerdo. Ela examinou-me clinicamente e depois ajeitou-me naquelas máquinas que vêem o fundo do olho. Nada constatou de excepcional. Ficou intrigada e decidiu pedir ajuda para um seu colega de clínica, Dr. Cássio que entendia tudo sobre retina.

O Dr. Cássio pediu-me para acompanhá-lo até a sala onde costumava fazer exames de ultra-som ocular. Àquela altura eu estava gelada, embora fosse quase verão. E cada vez que ele pedia para eu olhar para outro lado e deslizava o aparelho sobre minha pálpebra fechada, eu sentia um calafrio. Ele nada me falou e pediu para que eu retornasse à sala da Dra. Érica e a aguardasse. Logo após ela entrou na sala, sentou-se e olhando-me nos olhos disse: você tem um melanoma.

Naquele momento, atônita, pensei comigo mesma: vou morrer, que pena… E permaneci muda. Sabia muito bem o que significava um melanoma, um câncer muito perigoso. O mundo girava velozmente na minha cabeça: via meu marido, minha filha, meus familiares e amigos todos ao mesmo tempo. Que fazer? Acabou-se. Não senti revolta. Acho que fiquei em estado de choque.

Passados alguns segundos, a Dra. Érica disse-me: fique calma, pois eu acabo de saber pelo Dr. Cássio que há possibilidade de tratamento da neoplasia maligna da coróide e que, de imediato, talvez nem sequer seja preciso a retirada do globo ocular (enucleação). Disse-me, ainda, que o colega dela pedira para eu ter paciência, ir para a sala de espera da clínica e aguardar por uma hora ao menos, pois ele tentaria localizar uma colega que era especialista em oncologia oftálmica. Assim fiz.

Estando na sala de espera, não me contive, peguei meu celular e liguei para o Vicente, meu marido. Disse a ele que haviam diagnosticado um câncer no meu olho. Ele ficou em silêncio e percebi que também perdera o chão. Recuperou-se e perguntou-me se queria que fosse me buscar de carro. Disse-lhe que não, pois não sabia sequer a que horas sairia dali. Continuei esperando. Decidi telefonar para minha irmã, Fátima, e contei-lhe o ocorrido. Passado o espanto, também ela perguntou-me se gostaria que fosse me encontrar, pois o consultório era perto da casa dela. Eu pedi que esperasse, pois assim que saísse dali iria encontrá-la.

Passados mais de 40 minutos o Dr. Cássio veio até mim e, muito delicadamente, recomendou-me que telefonasse para a Dra. Martha, a oncologista oftálmica com quem já havia falado sobre meu caso. Eu liguei para ela e marcamos uma consulta para a manhã do dia seguinte, dia 14. Fui para casa de minha irmã a pé e já chorando pelo caminho. Depois ela levou-me para minha casa onde me esperava o Vicente. Choramos juntos. Decidimos nada contar para nossa filha Beatriz, jornalista que vivia e trabalhava em Brasília, na Radiobrás, e que naquele momento estava cumprindo estágio em Paris. Liguei para minha amiga Suely e relatei os fatos. Ela pediu-me o endereço da médica. Na manhã seguinte, no dia 14, estávamos eu, minha irmã e a Suely ansiosamente aguardando a médica me atender.

Claro que eu esperava que a médica me dissesse que não era bem assim e que se tratava apenas de um hemangioma, pois tenho um desses no lado esquerdo do rosto como marca de nascença. Mas qual, ela não só fez minuciosos exames novamente, como me assegurou tratar-se, de fato, de um melanoma devastador com 5,65 mm. Acrescentou que ele já estava ali há muito tempo e que minha visão do olho esquerdo estava perdida para sempre, porque o tumor prejudicara a mácula e a retina. Minha sorte – dentro do azar – consistia em tê-lo descoberto quando ainda tinha pequeno tamanho. Outra sorte, penso eu, foi ter sido indicada a uma médica bastante delicada, competente e que me transmitia total confiança.

Ela explicou-me que havia a possibilidade de uma intervenção cirúrgica chamada braquiterapia, que consistiria em cortar meu olho esquerdo colocando dentro dele uma placa metálica que receberia uma carga de radioterapia visando fulminar o tumor. Que eu permaneceria por 5 (cinco) dias internada e sem visitas – pelo perigo da radiação – no Hospital AC Camargo (Fundação Antonio Prudente), para depois retornar ao centro cirúrgico e submeter-me novamente a uma intervenção semelhante, só que desta vez para a retirada da placa ali colocada. Após isso eu teria alta médica e iria para casa com a prescrição de alguns remédios, colírios e a recomendação de retorno em uma semana para consulta. Mas que, para que tudo isso acontecesse, eu antes deveria preparar-me e submeter-me a muitos exames prévios.

Radioatividade

Se você leitor desejar saber mais sobre o melanoma ocular click no endereço a seguir:     

Saí da sala da médica bem triste. Minha irmã e minha amiga aguardavam-me tensas. Eu disse-lhes que tudo havia sido confirmado e que minha visão do olho esquerdo, infelizmente, eu já perdera. Consolamo-nos mutuamente e seguimos em frente. Nada a fazer. Ou melhor, tudo a fazer. Já estava aflita para desvencilhar-me daquele tumor o quanto antes.

Dali por diante, em pleno mês de festas natalinas fiz inúmeros exames médicos, assinei dezenas de documentos e autorizações. Lembro-me de uma sensação de total desamparo que sentia a cada vez que um técnico me explicava da seriedade de determinado exame e me perguntava se estava ciente e poderia assinar. Ficava me perguntando: o que faço? Tinha à época 58 anos de idade. Nessa hora tão dramática é você que tem de decidir sozinha. Paciência. Eu lia tudo, porém não conseguia alcançar a conseqüência daquilo que me era apresentado. A emoção sobrepunha-se totalmente à razão. Assinava sem nenhuma convicção.

Minha filha chegou de viagem e fez uma parada em São Paulo para visitar os pais. Ela nada sabia. Eu tampouco tinha coragem para contar-lhe. Sentia um nó na garganta. Mas chamei-a na cozinha, sozinha, e falei calmamente sobre tudo que estava acontecendo. Foi um momento muito difícil para ela, que é minha filha única. Superamos.

Tudo pronto. Fui liberada para a cirurgia, que havia sido marcada para a manhã do dia 9 de janeiro de 2006. Sentia-me, lá no fundo, despedindo da vida. Sou asmática e alérgica e por isso tinha muito medo da anestesia geral. Nada a fazer quanto a isso, a não ser aceitar racionalmente e confiar nos médicos. Meu marido ao meu lado, visivelmente deprimido, permanecia mais calado do que eu. Minha filha dava-me força. Internei-me no hospital na noite do dia 8 de janeiro. Tudo correu como planejado, felizmente. Mas, muito tempo depois, soube pela própria médica que tive problemas alérgicos pós-cirúrgicos que foram contornados com eficiência.

Não morri, como podem ver. Mas, 2 (dois) meses após a cirurgia, fui comunicada de que precisaria submeter-me a uma termoterapia transpupilar (laser) devido a uma área tumoral com aspecto sem resposta à radioterapia. Isso me fez tremer novamente. No dia 17 de março lá estava eu, novamente, no hospital à mercê da habilidade profissional médica. A aplicação de anestesia local – no olho – causou-me certo pavor. Infelizmente, nessa oportunidade, minha irmã também sofreu, pois pediram-lhe, – já que me acompanhava – que ficasse ao meu lado e segurasse meu braço esquerdo durante o procedimento. Essa lembrança até hoje me provoca arrepios.

Desde então, faço exames periódicos, tendo começado mensalmente, depois de três em três meses, mais tarde alterado para de quatro em quatro e agora de cinco em cinco meses. Além dos exames em ambos os olhos, tenho de fazer exames de sangue, do pulmão e fígado que são os principais órgãos susceptíveis à metástases. Nem preciso dizer o que sinto a cada vez que renovo os exames: medo, muito medo! E muita alegria ao saber que está tudo bem! Torço muito também pela não ressuscitação do tumor. Todavia, se isso vier a ocorrer, disse-me a médica que ainda assim me restará a possibilidade da enucleação.

Nessa caminhada aprendi o significado da palavra exsudativo, que veio escrita na declaração da médica que realizou a termoterapia (laser), e que me deixou bastante assustada.Trata-se de excesso de líquido (suor) resultante de um processo inflamatório. Essa inflamação e mais as conseqüências da radiação provocariam em mim, mais tarde, uma catarata no olho operado.

A catarata prejudicava o exame clínico do processo da cicatrização do tumor inativo e fui obrigada a submeter-me, três anos após, em 21 de janeiro de 2009 a uma cirurgia de remoção. Correu tudo bem, mas o resultado positivo durou poucos meses. Na última consulta no mês de novembro p. passado, a oftalmologista me disse que não é mais possível ver a zona tumoral exceto por intermédio do ultra-som, devido à exsudação. Paciência. Muita paciência e espírito de aventura. Isso é que é, de fato, viver perigosamente!

Preciso contar que logo após minha cirurgia, descobrimos porque meu marido estava tão calado. Exames de sangue apontaram grave anemia e logo a seguir teve problemas cardíacos bem sérios. Era fumante inveterado. A anemia revelou-se rapidamente uma leucemia e,  em maio daquele mesmo ano ele faleceu devido a um infarto fulminante. Cheguei a pensar que eu não suportaria tanta dor. Mas a vida seguiu seu curso. Até quando não sei. Como ninguém sabe. Só me resta remar e conduzir meu barco mansamente.

O que me valeu muito, demais mesmo, e garantiu minha sobrevida, foi o afeto e o carinho que recebi de meus familiares , parentes, agregados, amigos e amigas. Isso, de fato, é muito significativo na vida de qualquer um. Queria registrar uma pequena passagem. Um jovem, Tiago, de 21 anos à época, era oficce-boy na ONG onde faço militancia pelo regime democrático (MPD), fez questão de visitar-me e disse: “- sabe, Dra. Inês, a senhora não se preocupe. A pessoa se adapta. Eu mesmo perdi a visão de um dos meus olhos ainda na infância, aos 5 anos, devido a uma doença.” Fiquei perplexa diante dele, ainda tão jovem! Abracei-o e agradeci imensamente aquela confissão. Quanta grandeza!

Decidi fazer este depoimento motivada por três razões: a primeira delas é que o dia 9 de janeiro se aproxima e pretendo celebrar com muita alegria os cinco anos completos de sobrevivência ao melanoma; a segunda razão foi ter acabado de receber no dia 31 de dezembro, um comentário neste blog, enviado pelo Vitor, um cidadão português (Algarve) de 46 anos de idade, no qual ele me conta que desde os 39 anos luta contra um melanoma no olho esquerdo – como eu – e que buscava há tempos comunicar-se com alguém com o mesmo problema dele, tendo encontrado-me pela Internet (eu mencionei o fato num dos meus posts). Por isso concluí que contar minha experiência poderia ajudar outras pessoas; e, a terceira razão é a seguinte: sou leitora dos livros escritos pelo neurologista Oliver Sacks e sabia que ele havia tido um problema de visão. Qual não foi minha surpresa ao ler, recentemente, seu último livro “O olhar da mente” (Cia.das Letras, 2010) e verificar que, aos 72 anos de idade, ele descobriu um melanoma no olho direito também no mês de dezembro de 2005 – igual a mim – e que também se submeteu a uma braquiterapia no mesmo dia 9 de janeiro de 2006: ele em New York e eu em São Paulo. Ler o relato dele  me confortou. Lamentavelmente, ele não enxerga tão bem do olho esquerdo. Coisas da vida.

Constato que foi e está sendo bastante difícil para nós três enfrentarmos não só o câncer, mas também a perda da visão de um olho. O Vitor, infelizmente, está enfrentando metástases mas que, felizmente, estão sendo combatidas com quimioterapia. Já houve redução dos tumores. Tomara as células cancerosas sumam de vez. Todavia, seguimos respirando. Tentando viver com calma e dentro da normalidade. A visão monocular traz alguns sérios transtornos, como a perda da percepção de profundidade. Descer degraus, por exemplo, agora exige-nos muita mais cautela. Além disso, pela perda da visão periférica, esbarramos em tudo e em todos. Por várias vezes, ao caminhar pelas ruas, eu ouço resmungos de transeuntes que me dizem com irritação: Não enxerga, não??!

Prefiro que quem me acompanhe mantenha-se do meu lado direito, pois sinto aflição em não ver o acompanhante caso fique do meu lado esquerdo. Apesar de tudo, renovei minha carta de habilitação e continuo dirigindo meu automóvel cautelosamente, apenas durante o dia – nunca à noite – e só em percursos bem conhecidos. Usando óculos enxergo bem pelo olho direito. Mantenho o dobro da atenção que tinha antes e, para não atrapalhar ninguém, sempre ando pelo lado direito da via, sem pressa. Como convém a uma motorista idosa, viúva e zarolha…

Haja paciência. Mas sei muito bem que há dramas muito piores por aí. Ao menos descobri o tumor a tempo de socorro e tive assistência médica adequada. Oxalá consigamos vencer essa luta pela vida: eu, o Vitor, o Dr. Sacks e tantos outros espalhados pelo mundo.

E, para suavizar meu caminho,  aprendi a cantar com o Paulinho da Viola a música “Timoneiro”, composta por ele e  Hermínio Bello de Carvalho:

Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar/ Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar/ É ele quem me carrega/ Como nem fosse levar/ É ele quem me carrega/ Como nem fosse levar/ E quanto mais remo mais rezo/ Pra nunca mais se acabar/ Essa viagem que faz/ O mar em torno do mar/ Meu velho um dia falou/ Com seu jeito de avisar:/- Olha, o mar não tem cabelos/ Que a gente possa agarrar/ Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar/ Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar/ É ele quem me carrega/ Como nem fosse levar/ É ele quem me carrega/ Como nem fosse levar/ Timoneiro nunca fui/ Que eu não sou de velejar/ O leme da minha vida/ Deus é quem faz governar/ E quando alguém me pergunta/ Como se faz pra nadar/ Explico que eu não navego/ Quem me navega é o mar/ Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar/ Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar/ É ele quem me carrega/ Como nem fosse levar/ É ele quem me carrega/ Como nem fosse levar/ A rede do meu destino/ Parece a de um pescador/ Quando retorna vazia/ Vem carregada de dor/ Vivo num redemoinho/ Deus bem sabe o que ele faz/ A onda que me carrega/ Ela mesma é quem me traz.”

Caso você queira ouví-lo cantando – valerá a pena fazê-lo – basta clicar no endereço abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=VKzpytpVbfU&a=GxdCwVVULXcbWpZHWhFwQPVUUKhOE7vu

Pronto, falei! Ou melhor, escrevi!

Inês do Amaral Büschel, escrito em 4 de janeiro de 2011.

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