GENEROSIDADE

Gosto muito de estudar filosofia e já li bastante sobre religiões. Alguma lição do budismo há de ter ficado em meu cérebro. O desapego é, de fato, fundamental para que possamos viver em paz conosco e com os outros. É muito difícil alcançá-lo, mas não custa tentar. Sentir compaixão pelo sofrimento alheio também é indispensável. De nada adianta sermos generosos conosco e mesquinhos para com os outros. Das religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – bem como de outras doutrinas religiosas sabemos que apoiam e incentivam a generosidade.

Por tudo isso, doravante, a cada um que criticar a renda básica e/ou a bolsa-família, eu prometo não me enervar, mas sim respirar fundo e explicar, calmamente, que isso ainda é muito pouco que o Estado brasileiro faz para uma enorme população pobre que não descende de famílias bem estruturadas ou de famílias que enriqueceram com heranças recebidas de gerações passadas, sendo que muitas vezes essas heranças provém de riquezas conquistadas com trabalho escravo ao longo do tempo.depsicologia-com-wp-content-uploads-generosidad_thumb1

Não ser mesquinho significa também pagar um bom dinheiro pelo trabalho da diarista ou da empregada doméstica, além do total respeito aos direitos trabalhistas dessas categorias profissionais. Lembrando-se sempre de que, se não fora o trabalho delas, provavelmente não poderíamos sequer exercer nosso  trabalho ou afazeres cotidianos.

Portanto, respeito às empregadas domésticas é imprescindível. E também para com os porteiros, motoristas, jardineiros, pedreiros, frentistas, cabeleireiras, manicures, balconistas, cobradores de ônibus, garis e lixeiros etc. Sem nunca nos esquecermos do respeito que também merecem os moradores de rua, os malucos belezas e loucos de todos os gêneros que encontramos pelo caminho. Paz e amor sempre. Este é o lema da minha geração 68.

Penso que pertencer a uma igreja ou professar uma religião não nos livra de más condutas. Nem mesmo fazer caridade social sem olhar nos olhos de quem a recebe. Conheço uma pá de gente que vai à igreja e, no entanto, sequer dirige o olhar para os trabalhadores braçais. Muitas vezes essas pessoas tão religiosas, chegam até mesmo a proibir que sua empregada doméstica coma determinados alimentos de sua casa.

5cornucPara sermos generosos de verdade, acho que temos de dedicar parte de nosso precioso tempo às pessoas que estão à nossa volta, sejam elas de nossa própria família ou não. Se você nunca acha tempo para ouvir alguém das suas relações com calma e com a devida atenção, talvez seja porque você não tenha aprendido a ser uma pessoa generosa.

Aprenda a ser menos egoísta. Pergunte para as pessoas como elas estão e ouça a resposta. Lembrar-se de vez em quando que todos nós somos mortais, pode ser de grande valia. Aprenda a escutar as pessoas. Se for preciso, ponha-se frente ao espelho e faça exercícios para isso. Não faça visitas apenas quando as pessoas adoecerem. Visite-as quando estão bem de saúde também. Relacione-se socialmente, pois isto contribuirá para sua sanidade. A solidão é boa companheira apenas quando não é exagerada.

Cansei de ilusões. A cada dia eu prefiro a realidade em branco e preto. É eletrizante viver a seco, sem entorpecentes. Às vezes a realidade provoca até vertigens e aí preciso urgente de uma barra de chocolate. Nada mais e já me sinto melhor.

Escrevo hoje inspirada numa lembrança que sempre me emociona. Nesta semana me recordei dela. A história é a seguinte:

Era uma vez uma promotora de justiça substituta paulista (eu) que, nos idos da década de 80 estava trabalhando na comarca de Suzano, que pertence à região metropolitana de São Paulo. Os promotores de justiça atendem ao público. Em geral as pessoas que os procuram nos fóruns são pobres. Pois bem, num determinado dia eu atendi uma senhora negra, com os cabelos bem grisalhos. Enquanto conversávamos, eu sentia um cheiro familiar que emanava de seus cabelos. Eu conhecia bem aquele cheiro, porém não o identificava.

Durante meses fiquei encafifada tentando descobrir onde sentira antes aquele cheiro. Um dia, quando estava próxima de uma churrasqueira senti o cheiro da fumaça que exalava do carvão e, na hora, fez-se a luz: era aquele o cheiro que emanava da cabeça daquela senhora – fumaça de carvão queimando!!!

O mesmo cheiro que impregnara meus cabelos – e me incomodava muito – quando, ainda criança e muito pobre, para ajudar no trabalho doméstico, eu fazia fogo colocando folhas de jornal e carvão na boca do fogão-à-carvão que havia em nossa casa!! E abanava o fogo com a tampa de uma panela. A cozinha ficava cheia de fumaça que grudava em nossos cabelos. Certamente, aquela senhora ainda utilizava carvão para fazer fogo, pois o gás custava – e continua custando – muito caro para a maioria da população brasileira.159 - Coração 02 EVA Vermelho

Faça um pequeno esforço para compreender o que é viver na pobreza. Tome uma atitude política em prol da erradicação da miséria em nosso país. Respeite as pessoas que não têm dinheiro. Seja uma pessoa generosa. Mesmo que não haja gratidão.

Procure ouvir e aprenda a cantar a música “O dia de amanhã”, composta por Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Foi gravada por Beth Carvalho. Abra o peito e cante bem alto:

Quem é bom de coração/ Deus não esquece./ É triste ver os outros/ Sofrendo/ E a gente querendo/ Ajudar a quem é infeliz,/ Por mim essa gente sorria/ Se eu pudesse/ Faria todo mundo feliz!

 

Oxalá nossa Presidenta Dilma – pessoa a quem admiro muito – faça um ótimo governo, dando prosseguimento a tudo que o Presidente Lula fez pelo Brasil e por sua gente. Avançando sempre, mais e mais, colocando um fim em nossa obscena desigualdade social.

Feliz Ano Novo para você e para todos nós!

Inês do Amaral Büschel, em 22 de dezembro de 2010.

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