SOBERANIA DO POVO E REGRA DA MAIORIA

Democracia e desigualdade

Quando resumimos a definição do regime político democrático, teremos, no mínimo, de admitir a vigência dessas duas idéias mencionadas no título acima: a soberania do povo e a regra da maioria. Num estado democrático de direito será sempre o povo quem elegerá seus representantes/governantes, dentre eles os legisladores, que em seu nome escreverão as regras necessárias para o jogo democrático (as leis) bem como os procedimentos (regulamentos), que deverão ser obedecidos por todos: o povo e seus governantes.

É bastante claro que na sociedade brasileira, todavia, nem todos os cidadãos sentem-se bem em ser classificados como integrantes do povo. Há aqueles que gostariam muito de pertencer a uma aristocracia exclusivista e agem como se, de fato, fossem aristocratas tal qual os lordes ingleses. Essas pessoas que compõem uma minoria poderosa, entendem que estão em um nível social acima do povo propriamente dito, ou seja da patuléia, do povão. Eles nada sabem sobre as regras de igualdade numa República.

A maioria desses cidadãos que se julgam aristocratas nasceu no famigerado “berço de ouro”, e não têm a menor idéia do que seja alguém passar fome no cotidiano e muito menos de como é normal falar “menas” na linguagem coloquial por todo território nacional. Ficam assombrados com as dificuldades que o povão sente para poder pagar o preço do transporte coletivo, mesmo com o ótimo bilhete único que melhorou demais a situação. Eles acham que o transporte público deste país é tão baratinho…

Uma parte dessa minoria “aristocrática” também acredita no regime democrático, mas com reservas, pois para ela nenhum popular poderá ocupar cargo de alto comando. E, como por tradição essa minoria de exclusivistas é adepta do patriarcalismo – onde o homem manda e a mulher obedece – da mesma forma então, também não admite que uma mulher seja eleita para cargo de alto comando. Para eles, os populares – homens e mulheres do povo – serão convidados a participar da festa democrática, mas sua participação deverá cingir-se a dar seu voto na urna para legitimar a eleição de algum deles os “aristocratas patriarcais”.

O que me causa perplexidade na vida nem mesmo é esse fenômeno republicano tupiniquim. O que me causa espanto é outro fenômeno bem brasileiro: muitos populares, depois de um longo caminho de grandes dificuldades cotidianas, acabam por alcançar êxito em suas lutas pessoais e conquistam um lugar ao sol com um diploma universitário e, a partir de então, passam a mimetizar o comportamento dos “aristocratas” . Iludem-se achando que se igualaram socialmente a eles. Nem percebem o ridículo dessa situação. Sequer cogitam das condições sociais históricas que os favoreceram num determinado momento de suas vidas.

De uma maneira ou de outra, esses populares que ultrapassaram o nível superior de ensino, procuram renegar ou até mesmo apagar suas origens humildes, e acreditam piamente que foram guindados à “aristocracia” por esforço próprio e ajuda divina. No entanto, por inúmeras vezes, inadvertidamente e sem que percebam, esses populares ao falar usam a palavra-chave “menas” ou a expressão “para mim fazer” que denuncia sua origem plebéia. E por isso são motivo de risos por parte daqueles que nasceram dentro da classe burguesa brasileira e que, desde o berço, aprenderam a falar a norma culta do idioma pátrio. Estes jamais diriam “menas”.

Deve haver alguma explicação sócio-psicanalítica para esse comportamento ilusionista-mimético. O saudoso mestre Paulo Freire abordou um pouco desse fenômeno social em sua obra “Pedagogia do Oprimido”. Porém, ainda assim, não consigo me conformar ao ver pessoas de origem bastante humilde, descendentes de imigrantes europeus pobres que eram em geral analfabetos ou, então, de portugueses que se casaram com indígenas ou africanas e, ao fim e ao cabo de duas ou três gerações, passarem a se identificar socialmente com uma classe de homens ricos, bem escolarizados e poderosos.

É demais para minha cabeça ver mulheres brasileiras não votarem em candidatas mulheres, ainda que estas tenham a mesma capacidade intelectual de um candidato homem. Essa obediência cega aos homens para mim já se tornou servilismo doentio. Um verdadeiro vexame. As chilenas e as argentinas obtiveram o direito de voto mais tarde do que nós, as brasileiras e, no entanto, muito antes já tiveram a coragem de eleger mulheres para a Presidência da República.

Não é preciso dizer que votei em Dilma Rousseff e que estou feliz, mas muito feliz mesmo com a vitória dela somando 56% dos votos de brasileiros e brasileiras. Desejo muita saúde a ela, pois competência técnica e política sei que tem de sobra.

E também tenho muito orgulho do Presidente Lula, um operário paulista que dirigiu com maestria e em paz, por quase 8 anos, esta nação brasileira composta por mais de 190 milhões de pessoas. E que teve a grandiosidade de apoiar a candidatura de uma mulher. Ele é sim um estadista, embora a burguesia sulista não pense assim, pois ele não dá bola para salamaleques aristocráticos.

Viva as mulheres brasileiras!! Viva os trabalhadores do Brasil!!

E vivas também àqueles “aristocratas” que acreditam de fato no regime democrático e tiveram a humildade de reconhecer o valor do povo brasileiro, tendo ajudado a eleger Lula e Dilma!!

Inês do Amaral Buschel, em 1º de novembro de 2010.

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