PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Conforme escrevi no texto anterior, nós, os brasileiros, somos largamente um povo muito religioso. Isso só prova que a maioria busca um Deus. Esse fenômeno social em si não é algo do qual devamos nos orgulhar ou, então, nos envergonhar, pois isso não é bom nem ruim, é apenas demasiadamente humano.

Acontece, infelizmente, que ao mesmo tempo em que nos tornamos muito religiosos, estamos desenvolvendo em nossa sociedade um sentimento de intolerância à religião dos outros – quando escolhem outro credo diferente do nosso – e, também perigosamente, estamos deixando de lado o interesse pela prática da política partidária. Com isso acabamos abandonando o interesse pelo desenvolvimento humano do nosso país. E esse nosso comportamento apolítico significa que estamos desvalorizando a implementação da democracia real no Brasil, o que vem a ser um fato muito triste e também muito perigoso.

Segundo alguns especialistas, orar, rezar ou meditar faz bem para a nossa saúde. Muito bem. Entretanto, temos de convir que só ficar rezando/orando/meditando almejando a paz na vida eterna e, na vida real e concreta só ficar xingando todo político de ladrão, não é exatamente um comportamento que poderemos classificar de sensato. Isto periga de nos levar num futuro bem próximo – no meu modesto modo de pensar – na criação de uma nação de fanáticos apolíticos e sem compromisso com ninguém, exceto com aqueles que participem de sua própria igreja.

Isto é paradoxal, pois com a globalização da economia e a expansão ilimitada dos meios eletrônicos de comunicação no final do século XX, bem como com a vigência de uma democracia entre nós, a cada um agora é permitido obter informações a respeito da vida dos povos do mundo inteiro. E para refletirmos, há reportagens, documentários e inúmeros filmes históricos que nos mostram, tanto os desastres ambientais como também grandes matanças pelo narcotráfico e até mesmo genocídios muitas vezes provocado por razões religiosas. Ter acesso a tanta informação também não é algo que possa ser considerado muito bom ou muito ruim. Dependerá de cada um de nós aproveitar os exemplos vistos, copiando os acertos encontrados e evitando os erros cometidos por outros, caso contrário tudo terá sido em vão com grande perda de tempo e energia.

Mas, para bem avaliarmos os fatos mostrados na mídia em geral, nós deveremos conhecer os critérios para separarmos o joio do trigo. Temos de saber o que é certo ou errado. E, sobretudo, temos de ter bom senso. Aqui reside o problema: nem todos nós tivemos a oportunidade de alcançar uma educação suficiente para atingirmos esse patamar. Nem todos foram educados para saber controlar a raiva, o egoísmo ou a inveja. Milhões de pessoas vivem na mais completa ignorância e não tem ajuda de ninguém, exceto alguma caridade. Muitas vezes nem mesmo isso.

E, o que me desanima em particular, é que muitas pessoas que atingiram um alto grau de educação formal também muitas vezes agem igualzinho a quem não teve oportunidade alguma. Como eu mesmo já disse mais de uma vez e repito agora, há – no mundo todo – doutores vivendo dentro das cavernas e com medo de fantasmas. Dá até vontade de dizer: quanto feijão perdido! Só posso concluir, então, que a educação formal também não é uma panacéia para todos os males. É preciso ir além da escola.

Toda sociedade humana – pequena ou grande – precisa desenvolver juntamente com o ensino de matemática, física, química, história, geografia, idioma pátrio, também os valores éticos fecundos, tais como: honestidade, tolerância e respeito, paciência, bom humor, solidariedade, coragem, prudência, compaixão, gentileza, gratidão, simplicidade e humildade etc. Portanto, é indispensável o ensino da matéria denominada Filosofia, aquela que nos ensina a pensar. Caso contrário seremos todos robôs e teleguiados, e agiremos como se fossemos uma manada fácil de se manipular e conduzir. Seremos servos voluntários.

Estou escrevendo isto porque acabo de ler uma matéria jornalística que aponta a existência de intolerância religiosa em escolas brasileiras: http://educacao.uol.com.br/ultnot/2010/09/10/pesquisa-mostra-que-intolerancia-religiosa-ainda-esta-presente-em-escolas-brasileiras.jhtm

Fico muito aborrecida com essas notícias, pois vejo que os pais ou responsáveis por nossas crianças, e até mesmo os seus próprios professores, são mal educados socialmente e dão maus exemplos.

E, além disso, estou sensibilizada pelo momento eleitoral atual. Não vejo a sociedade mobilizada politicamente e a cobrar seriamente de todos os candidatos – seja para presidente (a), governador(a) e deputados (as) ou senadores (as) -, por exemplo, 4 (quatro) itens indispensáveis para a boa qualidade de vida de todos:

(a) urgente implementação do saneamento básico em todos os municípios do país, por mais longínquo que ele esteja;

(b) cobrar expansão, rapidez, higiene impecável e eficiência nos serviços públicos de saúde (SUS), que devem atender a todos os cidadãos, independentemente de ser rico ou pobre;

(C) cobrar a construção de escolas públicas com nível de excelência e período integral no país inteirinho, pois nossas crianças e jovens não podem ficar esperando as coisas melhorarem;

(d) cobrar a criação em todo o território nacional de centros de referência para amparo de idosos e pessoas com deficiência, mas que acolham com humanidade e eficiência a todos, providenciando alojamentos dignos para os que nada tem, inclusive.

A realização desses quatro itens já irá por si só contribuir para a redução dos índices de violência urbana.

O analfabetismo político, no entanto, causa um mal muitas vezes irreparável para os povos. Numa democracia real todos os cidadãos residentes naquele determinado território, têm o direito e o dever de exercer a política. Com isso a pessoa estará mais apta para ajudar a controlar a prática da corrupção com o dinheiro público. Se alguns praticam a corrupção, sabemos, todavia, que a maioria das pessoas assim não age, por isso é importante o exercício coletivo da política, pois “a união faz a força”  e isso só se concretizará dentro de uma agremiação, seja num partido político propriamente dito, numa Ong ou num movimento social popular. Não se negue a ajudar, com sua voz e inteligência, a construir de fato um belo país do qual possamos realmente nos orgulhar de tê-lo feito juntos.

Caro leitor, faça algo pela política. Dedique-lhe algum tempo de sua vida privada. Não se esconda atrás da TV e nem alegue que está cansado disso tudo. Não se acomode. Tenha coragem de mostrar a sua cara e pensamento, organize-se, mas não só para participar de passeatas. Isso vale, porém é preciso fazer muito mais. Não deixe que só os outros decidam por você o que é bom para seu bairro, sua cidade, seu estado ou seu país. Não seja um servo voluntário. Participe da vida pública de alguma maneira. Lute pela igualdade de direitos e defenda a democracia.

Aos paulistanos como eu, seria bom ter sempre em mente o lema latino escrito no brasão contido na bandeira de nossa cidade: “Non ducor, duco” ou, em outras palavras, “não sou conduzido, conduzo.”

Inês do Amaral Büschel, em 14 de setembro de 2010.

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