SUS – SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

Se você pertence à classe média assalariada, ou seja, é um trabalhador que se perder o emprêgo ou cargo público remunerado não terá dinheiro algum para manter-se, tome tenência e preste muita atenção no SUS, pois você ainda vai precisar dele. Apenas relembrando, o SUS é um sistema único de serviços e ações de saúde que vigora no território nacional inteirinho, do Oiapoque ao Chuí, como se dizia antigamente, desde a promulgação de Constituição Federal de 1988. Todos os cidadãos residentes no Brasil fazem jus aos mesmos serviços de saúde, que são gratuitos (financiados pelos impostos) e integrais (incluindo remédios, próteses, etc).

Sob meu ponto de vista, a médio prazo, a parcela de brasileiros de classe média que paga mensalmente um plano de saúde privado, não reunirá mais condições financeiras para custeá-lo. Eu, inclusive. Os planos estão ficando cada vez mais caros, além de estarem restringindo o acesso a bons hospitais e a exames muitos especializados. Por outro lado, muitos médicos estão se descredenciando dos planos, porque alegam receber baixos honorários. A guisa de exemplo, podemos considerar o seguinte: o teto máximo para aposentadoria no INSS neste ano de 2010, é de R$3.418,00 mensais. Um plano de saúde da linha popular para uma pessoa com mais de 59 anos, custará em torno de R$700,00 mensais, ou seja, custará 20% do teto do INSS. Isso é muito problemático. Além disso tudo, as pessoas idosas não são bem recebidas nesses planos. Como as pessoas estão vivendo muito mais devido ao progresso da medicina, da assistência social, da indústria de medicamentos  e do saneamento básico etc,  há muito mais velhos no mundo de hoje.

Claro, o plano é de saúde e não de doença, diriam os cínicos… Mas quando você envelhece, mesmo sendo saudável, certamente – na maioria dos casos – necessitará cada vez mais de consultas médicas para controle da hipertensão arterial, por problemas com a redução da visão e da audição etc, e dependerá de exames e algumas vezes até de internação hospitalar em razão de quedas, por exemplo. Daí surgirão as grandes dificuldades que teremos de enfrentar. Acredito que se a classe média buscasse usufruir dos serviços públicos de saúde, melhor eles se tornariam, pois essa classe já é bastante escolarizada, qualificada e bem treinada para reivindicar seus direitos de consumidor. Reúnem, portanto, maiores condições para enfrentar e exigir seus direitos públicos expondo suas opiniões na mídia. E os bons resultados obtidos dessa luta beneficiariam a toda população. Isso é fazer política e ser cidadão em tempo integral.

Somente a classe média muito abastada e a classe rica detentora de grandes fortunas é que terão dinheiro suficiente para continuar custeando os planos de saúde no Brasil.

Então, o que fazer? Bem, para começar acho que seria de bom alvitre que todos os integrantes da classe média começassem a se mexer e procurassem se inscrever no Posto de Saúde do bairro onde moram, obtendo o cartão do SUS. Eu já providenciei isso, por exemplo. Estando ali, deveriam pedir – ou melhor, exigir – informações a respeito do PSF – Programa de Saúde da Família, pois a visita de uma equipe PSF em sua residência será de grande valia para você, principalmente quando estiver idoso (a) e seus familiares tiverem pouco tempo para lhe dedicar. Sim, isso tem acontecido muito desde o pós-guerra.

Os adultos jovens trabalham muitas horas diariamente, além de terem de enfrentar um trânsito caótico e lhes resta muito pouco tempo para  cuidarem de si, dos filhos e dos parentes idosos. Como a arte muitas vezes imita a vida, basta assistirmos a alguns dos filmes que tratam desse assunto (família), para constatarmos que esse fenômeno da solidão dos idosos é universal: o japonês “Viagem à Tóquio”, (1952) de Ozu; o italiano “Estamos todos bem”, (1990) de Tornatore, e o alemão Hanami-Cerejeiras em flor, (2008) de Doris Dorrie. Não é que os filhos não gostem mais dos pais e dos irmãos. O sistema de vida moderno e urbano afastou todo mundo do seio da própria família. Essa é a minha modesta opinião.

Portanto, nada de vergonha ou recusa de freqüentar o mesmo lugar que as pessoas humildes. Somos todos iguais na alegria ou na dor. O orgulho é mau conselheiro. Falo isso porque vejo essa postura orgulhosa à minha volta, entre profissionais do direito e também entre familiares e amigos. As pessoas da classe média, com honrosas exceções,  acham o fim da picada precisarem utilizar os serviços do SUS! Quanta ignorância! Vivem reclamando que pagam muitos impostos e no entanto não exigem sequer que os serviços públicos sejam de boa qualidade. Querem se distinguir do povão. Acham-se seres especiais.

Ninguém por aqui é especial, pois não há aristocracia no Brasil. Aqui vigora uma República Democrática, onde todos são iguais perante a lei. Pense bem: basta você, repentinamente, se acidentar numa estrada qualquer, indo numa viagem de lazer ou de trabalho, dirigindo um maravilhoso veículo de sua propriedade, que quem lhe prestará os importantes primeiros socorros, será a equipe médica do SUS que atende no local do acidente. Isto chama-se realidade. O próprio Dr. David Uip disse outro dia que, se um dia vier a sentir-se mal dirigir-se-á imediatamente para o Hospital das Clínicas, que é do SUS.

Preste bem atenção: mesmo que tenhamos de pagar uma nova CPMF (e nisso o Dr. Adid Jatene tem toda a razão), se não tivermos que pagar planos de saúde privados ainda assim ficará muito mais barato para todos nós. Nunca se esqueça de que somos 190 milhões de brasileiros e isso é muita gente. Os custos são enormes. Os impostos recolhidos servirão para pagar melhores salários para os trabalhadores da saúde, bem como para equipar hospitais e unidades básicas com máquinas de alta tecnologia e assim manteremos o serviço público funcionando direitinho. Acredite, valerá a pena! Não adianta ficar no chororô contra os políticos e a corrupção. É preciso abrir o olho e agir para controlar de perto os investimentos governamentais.

E tenha a certeza de que os nossos descendentes nos agradecerão. Um sistema semelhante ao nosso SUS funciona no Canadá, na França, no Reino Unido e em outros tantos países. Aliás, foram eles que nos inspiraram. Por que seríamos nós incapazes de fazer o SUS funcionar como funciona para eles? Há muito interesse do capital privado em desestimular a melhoria dos serviços públicos. Precisamos aprimorar nosso senso crítico. Temos de sonhar o sonho do nosso saudoso antropólogo-senador Darcy Ribeiro, o qual sempre dizia que nós, os brasileiros, caminhávamos em direção de  tornar o Brasil uma nova Roma.

Então, “Aux armes, citoyens, formez vos bataillons, […] ”, como nos diz o Hino Nacional da França, a famosa Marselhesa.

Pegue um exemplar de nossa Constituição Federal, leia com bastante atenção o artigo 196 que diz:” A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” e saia por aí buscando aliados em sua vizinhança, na família, no trabalho, em todo lugar. Estas são lindas palavras que precisam sair definitivamente do papel e andar por aí junto conosco.

O SUS é nosso! Conquiste-o!

Inês do Amaral Büschel, em 18 de julho de 2010.

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