DICIONÁRIO PARTICULAR, ou a lógica do sentido das palavras.

Nos tempos de minha juventude eu curtia muito ouvir o Cyro Monteiro (1913-1973), um cantor e compositor brasileiro que era muito conhecido pelo apelido de Formigão. Era uma beleza sua maestria para cantar e tamborilar numa caixinha de fósforos. Eu comprava seus discos, colocava na vitrola (lembram-se disso?) para ouvir e cantava junto com ele. Se você leitor não teve a sorte de conhecê-lo e quiser matar a curiosidade, ou então o conheceu e quer recordar, clique no link a seguir: http://www.youtube.com/watch?v=NnaPEWRWN2E

Pois bem. Em meados dos anos 60, o Sérgio Cabral (pai) organizou um espetáculo inesquecível no Teatro Opinião, no RJ, com a participação dos sambistas Cyro Monteiro e Dilermando Pinheiro, cujo show recebeu o nome de Teleco Teco Opus nº 1. Felizmente, para quem não pode assistir o espetáculo ao vivo (como eu não pude), ele foi registrado em LP e, posteriormente, lançaram também o CD, numa edição histórica, volume 6, da Philips: http://www.vermutecomamendoim.com/2008/10/disco-da-semana-teleco-teco-opus-n-1.html

Logo no início da parte 2 do referido show, o Cyro canta a música “Escurinho”, de autoria de Geraldo Pereira e, ao final dela, conta para a platéia que esse tinha sido o último sucesso do autor ainda em vida, pois ele morreu repentinamente pouco tempo após sua música ter sido gravada. Prosseguindo no papo com a platéia, Cyro relata que, estando no velório desse compositor, ocorreu algo engraçado, quando um rapaz muito compungido aproximou-se dele, e disse o seguinte: – seu Cyro, “que coincidência!” e que ele, meio perplexo diante dessa fala inusitada, percebeu que o rapaz queria dizer “que catástrofe!”. A platéia caiu na gargalhada.

Grande Cyro! Que sagacidade em captar a lógica do sentido da expressão usada pelo rapaz! Tem muito doutor por aí que diante dessa situação ficaria “boiando” sem entender nada, pois só conhece um significado para as palavras: são aqueles contidos no dicionário oficial da língua portuguesa. Quanta pobreza de imaginação!

Estou contando isso porque uma das minhas grandes preocupações na vida sempre foi a incomunicabilidade humana. O entendimento humano é muito, mas muito difícil, por isso é maravilhoso quando alguém consegue compreender a linguagem do outro com bastante clareza, como fez o Cyro Monteiro. As palavras podem ser utilizadas com inesgotáveis sentidos. Parece até que cada um de nós tem um dicionário particular dentro de si. O que eu falo ou escrevo, dependendo das palavras que uso, talvez signifique outra coisa para você e não o que eu quis dizer com elas. Daí surgem as confusões e as agressões humanas. Compreender, ou ao menos, tentar compreender a linguagem do outro é um exercício de humildade. È que o sentido das palavras são aprendidos na vida cotidiana no ambiente cultural em que cada um vive e há também grandes paradoxos na linguagem.

Não quero invadir seara alheia.Tenho plena consciência de que não sou lingüista e nem estudiosa da filosofia da linguagem. Sou apenas uma curiosa no assunto. Mas, meu campo de estudos sempre foi o Direito e, nesse campo do saber, as palavras têm peso de ouro, daí meu interesse. As questões da linguagem foram abordadas magistralmente pelo filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1975) em sua obra “Lógica do Sentido”, da editora Perspectiva, 1994, 3ª edição. Vale a pena também pesquisar os escritos sobre esse tema do filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945) e do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951). Deste último, gosto muito da frase de sua autoria “Os limites de minha linguagem denotam os limites do meu mundo.”

Mas deixando de lado a seriedade do tema, vamos rir, pois é o melhor remédio. No mês de julho de 1995, o jornalista Caio Túlio Costa publicou na Revista da Folha algumas “pérolas” da linguagem cotidiana, que me fez rir muito e que jamais esqueci. Lá vão algumas delas: questão de forno íntimo (foro íntimo), franga decadência (franca), casas germinadas (geminadas), de Jofre (de chofre)  perdeu a loção do tempo (noção), distrair o dente do cisne (extrair o dente do siso), bife de figo (fígado), tem uma paciência de jóquei (de Jó), mestre seler (best seller), nervo asiático (ciático), passageiro em transe (trânsito), bode respiratório (expiatório), depilar o figo (desopilar o fígado), extração da coluna (tração), chuva de granito (granizo), trocar o fuzil (fusível) períneo urbano (perímetro), antena paranóica (parabólica) etc.

Em tempos de disque-denúncia ou de delação premiada, que tal irmos ao oftalmologista e “delatar” a vista!? E “reclinar” do convite recebido, não é bom também? Bem, acho que este texto vai causar um tremendo “murmurinho”, não vai não? E vai acabar me atacando o sistema…

Melhor ouvir mais Cyro Monteiro: http://www.youtube.com/watch?v=dzBZCZWJfH4

Para terminar, nada de ser politicamente correta. Vou contar uma piada muito divertida e bastante conhecida. É a seguinte: A LÓGICA DO PEIXE

 Estava Manoel na livraria lendo, eis que chega Joaquim e pergunta:

-Manoel o que estais e leire?

-Um livro de lógica.

-Lógica? O que é isso?

-é a verdade incontestável de todas as coisas! Queres um exemplo?

-sim…

-Tu tens um aquário em casa? pergunta Manoel.

-sim.

-se tu tens um aquário é porque tem água no aquário.

-Lógico.

-se tu tens um aquário com água é porque tem peixes no aquário.

-Lógico.

-se tu tens um aquário com água e com peixes é porque tem crianças em casa!

-Lógico.

-se tu tens um aquário, com água, com peixes e crianças dentro de casa é porque tu és casado.

-Lógico

-se tu tens um aquário com água, peixes crianças dentro de casa e és casado é porque tu não és gay! Conclui Manoel.

-Estou impressionado Manoel, esse negócio de lógica é incrível! Surpreende-se Joaquim.

Eis que no outro dia Joaquim foi estudar lógica e chega Miguel na livraria:

-Joaquim o que estais a leire?

-Um livro de lógica!

-Lógica? O que é isso?

-é a verdade incontestável de todas as coisas! Queres um exemplo?

-sim…

-Tu tens um aquário em casa? pergunta Joaquim

-Não…

-Então, tu és gay!!!!”

 E, sem ressentimentos, viva a Espanha que venceu a Copa da África!

 Inês do Amaral Buschel, 13 de julho de 2010.

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