junho 30

ANCESTRAIS – II

Continuando a história da família de meus pais, agora passarei a escrever sobre meus familiares de origem germânica. Por parte de meu pai Máximo Herman Buschel, tanto o pai dele como a sua mãe eram imigrantes alemães, naturais da região da Saxônia e ambos emigraram – sem se conhecerem e separadamente – em fins do século 19, muitos anos antes da eclosão da 1ª Grande Guerra.

Mas meu pai era brasileiro, paulistano, nascido em 20 de março de 1915 no bairro dos Campos Elísios, na cidade de São Paulo (já falei sobre ele no texto anterior (Ancestrais – I) e por isso não repetirei). Seu pai (meu avô) chamava-se Karl Gottfried Max Büschel (atenção! é Max e não Marx! ) e nasceu em 24 de fevereiro de 1859 na pequena cidade de Apolda, localizada na região da Turíngia, onde anos mais tarde surgiria a República de Weimar. Meu avô era filho de Karl Buschel (que era tecelão) e Wilhermine Buschel (meus bisavós). http://www.dw-world.de/dw/article/0,,890198,00.html

Por alguma razão que até hoje não sabemos, meu avô Max em 1891, quando contava com seus 32 de idade e ainda solteiro, decidiu imigrar sozinho para o Brasil. Ele embarcou no navio italiano “Mediogo”, e desembarcou no porto de Santos, no Brasil, no dia 21 de novembro de 1891. Talvez tenha saído de Apolda seguindo os passos de sua irmã Wilhermine Sofia, que anos antes imigrara para os EUA. Nessa época o dramaturgo alemão Frank Wedekind causava alarde na Alemanha com sua peça teatral “O despertar da Primavera”, que ficou célebre em todo mundo.

Avós Emilia e Max

Meu avô casou-se tardiamente com minha avó Emilia, quando tinha já 56 anos de idade. Foi filatelista e tecelão. Faleceu em 27 de maio de 1926, na cidade de São Paulo, aos 67 anos de idade, deixando quatro filhos pequenos: Máximo Herman (1915), Johanna Emilia (1916), Frederico (?) e Paulo (1921). Meu pai era o filho mais velho e tinha apenas 11 anos de idade quando seu pai morreu, vítima de nefrite e broncopneumonia.

Consta que meu avô sentiu-se mal na rua e levaram-no para a Santa Casa de Misericórdia que ficava próxima, onde ele acabou falecendo. Como não portava documentos ficou registrado como indigente, até que minha avó que o buscava pela cidade, encontrou-o já morto. Seu corpo foi enterrado no Cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros. Nós, seus netos, pouco sabemos de sua vida, pois além dele ter morrido quando seus filhos ainda eram crianças, infelizmente todos já estão mortos há muitos anos.

Mas minha prima Sieglinda, filha de minha tia Johanna Emilia, lembra-se de uma estória contada por nossa avó Emilia, de que o vô Max era contra a aplicação de vacina nas crianças e que a saúde pública brasileira da época – início do século XX –obrigava a fazê-lo batendo à porta das casas. Ele, então, procurava sempre esconder as crianças que viviam perto dele para evitar que fossem vacinadas. Esse comportamento social era muito comum àquela época ainda.

Minha avó paterna, Emilia Peplau Büschel, todavia, era nascida em oito de maio de 1878 no bairro de Ruhdack na cidade de Thorn, no reino da Prússia, quando ali governava o famoso Primeiro-Ministro Bismarck. Emigrou com a toda a família para o estado de Santa Catarina, no Brasil. Mas não sabemos em que ano desembarcou por aqui.  Minha prima Sieglinda, conta que nossa avó relatara que muitos parentes seus foram trabalhar nas minas de carvão daquele estado brasileiro, e acabaram morrendo precocemente em conseqüência de doenças pulmonares.  Minha vó tinha duas irmãs que se chamavam Amália e Ida e um irmão de nome Oscar.

Há pouco tempo, uma bisneta de minha tia-avó Amália, a Caroline Brilinger, leu este blog e informou-me que minha avó tinha outros dois irmãos chamados Wilhelm e Friderich. Além disso, acrescentou a informação de que talvez a família de minha avó Emilia tenha imigrado primeiro para o território russo, nas cercanias do rio Volga, onde havia colônias alemãs. Antes de viajarem para o Brasil, ao que tudo indica, alguns desses tios nasceram nesse local: Amália, Wilhelm e Friderich.

ATUALIZANDO: No mês de maio de 2016 recebi informações de outra sobrinha-bisneta de minha avó Emília, de nome Greice Peplau, que corrigiu alguns dados acima. Minha avó tinha 4 (quatro) irmãos: Amália, Oscar, Wilhelm e Friedrich. A referida Ida não era sua irmã, mas sua cunhada casada com Friedrich.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%BAssia_Real

Ela era filha de João Peplau e Eva Peplau (meus bisavós). Nessa cidade européia de onde eram, havia muitos conflitos entre a população constituída de uma maioria de alemães e uma minoria composta de poloneses e judeus. Antes do início do século XX era uma cidade alemã. Porém, no século XX, logo após o término da II Grande Guerra, com a Alemanha vencida, pelo Tratado de Versalhes essa cidade passou a pertencer à Polônia e hoje tem o nome de Torún. Ali nasceu – além de minha avó, claro! – no século XV, o famoso astrônomo e matemático Nicolau Copérnico, que desenvolveu a teoria heliocêntrica do sistema solar. http://pt.wikipedia.org/wiki/Toru%C5%84

Sabemos que no dia 12 de setembro de 1892 minha avó Emilia já estava no Brasil, pois temos o documento de sua confirmação luterana – igual a 1ª comunhão católica – na Igreja luterana da cidade brasileira de Cresciúma. Nessa data ela já contava com 14 anos de idade, comprovando assim que já vivia no Brasil. Bem jovem, por volta dos 20 anos, contraiu seu primeiro matrimônio com sr. Adolpho Tiergarten, com quem gerou dois filhos que se chamavam Ferdinand e Wilhelm.

Esse casamento parece ter terminado por questões de alcoolismo do marido e, aproximadamente, por volta do ano de 1912, ela tenha fugido de Santa Catarina sózinha, utilizando-se de uma charrete, deixando seus filhos aos cuidados de sua irmã Amália Peplau Brillinger, que vivia na pequena cidade de Taió, ali em Santa Catarina, vindo procurar trabalho aqui na cidade de São Paulo, para ganhar o próprio sustento e o de seus filhos. Ali naquela cidade catarinense viveram também seus outros dois irmãos, Ida Neumann e Oscar Peplau, sendo que este permaneceu solteiro. http://www.taio.sc.gov.br/

Não sabemos como meus avós paternos se conheceram, mas tudo indica que, como minha avó trabalhou como operária em tecelagens paulistanas, que eram fábricas que usavam máquinas importadas da Alemanha, talvez meu avô Max prestasse serviços de tradução dos manuais dessas máquinas para essas fábricas. Essas máquinas eram produzidas na cidade de Apolda – até hoje produzem essas máquinas de costura por ali – onde ele nascera. Daí talvez tivessem tido a oportunidade de se conhecerem.

Ou, quem sabe, tenham se conhecido na hospedaria que abrigava famílias de imigrantes alemães e onde ambos viveram. Essa hospedaria localizava-se nos Campos Elísios, na Rua Guaianases, 74, cidade de São Paulo. O fato é que havia bastante diferença de idade entre ambos, – 19 anos – pois ele nascera em 1859 e ela em 1878. Como ela fora legalmente casada em Santa Catarina, não se separara legalmente e tinha, portanto, impedimento para casar-se novamente, eles decidiram viver juntos como se casados fossem, numa união estável que durou cerca de 12 anos e que só terminou com a morte dele. Ela adotou o sobrenome de família dele.

Minha avó enfrentou inúmeras dificuldades para criar seus quatro filhos pequenos, no início do século XX, viúva e sozinha – nunca mais se casou – além de ter de enviar algum dinheiro para contribuir com o sustento dos seus dois outros filhos do seu primeiro casamento, que permaneceram em Santa Catarina. Mas ela contou com a ajuda de muitos amigos que fez aqui em São Paulo. Viveu também no bairro da Casa Verde, onde morava uma amiga sua de nome Olga, que era bastante doente e locomovia-se numa cadeira de rodas.

Anos mais tarde ela conseguiu comprar um pequeno terreno no bairro de Itaquera, aqui na cidade de São Paulo, para onde se mudou e viveu até morrer, sempre na companhia de seu filho Frederico (Fritz), que não se casara. Meu tio era alcoólico grave e deu muito trabalho para ela, infelizmente. Naquela época não havia o conhecimento sobre dependência química que temos hoje e ele não teve oportunidade de tratar-se.

Em 1954, todavia, minha avó adoeceu gravemente, com câncer no estômago, e quem cuidou dela foi sua filha Johanna e o genro Ernst Klug. Acabou falecendo aos 76 anos, no dia 29 de janeiro de 1955 por embolia pulmonar e complicações da cirurgia que havia feito tarde demais. Lembro-me de ter ido visitá-la no Hospital Leão XIII, no bairro do Ipiranga. Deixou dez netos: Elisabeth (Lisa), Júlio, Richard, eu, Annemarie, Sieglinda (Zigue), Fátima, Oscar, Valter (Bubi) e Raul. Todos os netos se casaram – alguns se divorciaram depois – e tiveram filhos, exceto meu irmão Oscar.

Conforme recorda minha prima Sieglinda, “íamos visitar nossa avó de trem, na velha “Maria Fumaça”. E era sempre uma alegria partir aos domingos para ir visitá-la. Na cozinha ela mantinha um grande fogão à lenha, feito com tijolos e cimento pintado de vermelho. O cheirinho gostoso da sopa que cozinhava lentamente é um marco em nossa memória. No quintal, ela cultivava algumas frutas e verduras, criava galinhas e patos, e tinha a presença de seu amigo fiel, o cãozinho Nero, que sobreviveu somente 5 dias após sua morte, não suportando a ausência de sua querida dona. Negou-se, categoricamente, a comer ou beber. O veterinário não conseguiu sucesso nas suas tentativas. Corria o mês de fevereiro de 1955.

Desde criança eu ouvia da parte de todos, que eu era “cuspida e escarrada” a cara de minha avó Emilia. Quando penso nisso, reconheço que não herdei somente as feições do rosto dela, mas também a sua tenacidade, que era um dos traços de seu caráter – mas que os adversários dizem  tratar-se apenas de teimosia…

Infelizmente, eu e meus irmãos convivemos muito pouco com os tios Fritz e Paulo, pois havia muitos conflitos familiares por causa do alcoolismo deles e de meu pai Máximo. Meu tio Fritz após a morte da mãe, ficou totalmente perdido e perambulava pelas ruas, tendo sido acolhido, inúmeras vezes, por seus irmãos. Chegou a residir vez ou outra com sua irmã Johanna e o irmão Paulo. Nós tínhamos mais contato com a tia Johanna Emilia, seu marido Ernst, e com minha tia Érika Gertrud Riebe Buschel, esposa de meu tio Paulo que era uma pessoa muito alegre, e que me ajudou muito na adolescência. Foi na casa da tia Érika que conheci bem a música e a culinária alemã.

 

No mês de julho de 1965 meu pai Máximo e seus irmãos Johanna, Paulo e Fritz, acompanhados de alguns filhos, viajaram todos para a cidade de Turvo, em Santa Catarina, onde à época vivia a irmã de minha avó, a tia Amália. Queriam conhecer e passar alguns dias na companhia de seus meio-irmãos Ferdinand e Wilhelm. Os anos foram se passando, a vida era dura, e esses parentes haviam perdido o contato com minha avó Emilia. Foi muito importante para todos terem se conhecido. http://www.youtube.com/watch?v=o82HgpGmSpw

Uns anos mais tarde, no segundo semestre do ano de 1969, meus tios Paulo e Fritz resolveram retornar para Santa Catarina onde pretendiam passar mais algum tempo na casa dos parentes. Durante essa segunda visita, meu tio Paulo – que tinha apenas 48 anos de idade na época – sofreu um infarto fulminante e faleceu no dia 28 de setembro de 1969. Ele abusava de bebidas alcoólicas. Era o filho caçula de minha avó. Como não havia médico que quisesse passar o atestado de óbito, pelo fato de meu tio não ser um residente local, meu tio Fritz e um vizinho de lá não tiveram dúvidas: enrolaram o corpo dele num cobertor, contrataram uma Kombi onde o colocaram e partiram. Vieram todos juntos viajando de lá até São Paulo durante toda noite, sem terem sido interceptados por nenhuma blitz policial. Parece um filme, não é mesmo? Ou a vida é que é um filme? Mas ocorreu na realidade.

Chegando aqui também não houve meios de convencer algum médico conhecido da família em atestar o óbito de meu tio Paulo. Tivemos de levar o corpo dele para o Instituto Médico Legal. Lembro-me de que, por já ser estudante de Direito na época, ajudei a família a obter junto ao Juízo de Registros Públicos da Capital, o documento judicial necessário para a realização do funeral. Tudo foi muito triste.

Depois da morte do irmão Paulo, meu tio Fritz um dia decidiu partir definitivamente para Pouso Redondo, cidade de Santa Catarina onde vivia um de seus meio-irmãos, o Wilhelm (Willi), com a mulher Lídia, filha e netos. Dizia que eles sim eram sua família. Lá estando, lamentavelmente, continuou a abusar da bebida alcoólica. Meu tio sempre foi brincalhão e gostava de fazer micagens. Um dia, estando todos à mesa de refeição, viram tio Fritz cair com a cadeira para trás. Acharam graça pensando que fosse mais uma brincadeira dele, mas qual, estava morto. Sofrera um infarto fulminante. Foi enterrado num cemitério protestante daquela cidade. Não temos o registro da data desse acontecimento e sequer da data de seu nascimento. Penso que meu tio Fritz , por detrás do alcoolismo, tinha algum transtorno psíquico não diagnosticado. É íncrivel como ele passou pela vida e não estabeleceu vínculos afetivos duradouros com ninguém.  Lembro-me muito bem de seu rosto, sempre risonho.

Recentemente, uma bisneta de minha avó Emilia, chamada Rosemeri Tiergarten, após ler este blog, comunicou-se comigo informando ser filha de Adolfo Tiergarten, que por sua vez é filho do meu falecido tio Ferdinand, meio-irmão de meu pai Máximo. E, há pouco tempo, outras bisnetas de minha avó, chamadas Laura e Hermínia, informaram-me o nome do primeiro marido de minha avó – Adolpho Tiergarten – (eu só sabia o sobrenome dele) e disseram-me, ainda, ser filhas de Irma, que por sua vez é filha de meu tio Ferdinand, que se casou com Otília e teve seis filhos.

Passados mais alguns anos, em 29 de julho de 1983, minha tia Johanna Emilia, que tinha os olhos de um azul lindíssimo, era uma pessoa muito prestativa e sempre dedicada à família, também faleceu em consequência de um infarto fulminante, no dia seguinte ao que completara 67 anos de idade. Era um pouco obesa, mas nunca usou bebida alcoólica e sequer fora fumante. Eu gostava muitíssimo dela e depois que me casei, ela vinha sempre me visitar em casa. Ela era um ano mais nova do que meu pai. Nascera em 28 de julho de 1916, no bairro de Campos Elísios, em São Paulo.

Minha tia Érika também já faleceu. Meu tio Ernst, depois da viuvez casou-se novamente com a Elvira Klug, com quem viveu por mais de 18 anos. Ele faleceu em 02 de março ano de 2004. A Elvira é mineira e hoje vive na cidade de Muzambinho, em Minas Gerais.

Como minha tia Johanna, irmã de meu pai – a quem chamávamos de “tante” Johanna para diferenciarmos da “tia” Joanna D’Arc, irmã de minha mãe, sendo que ambas moravam no mesmo bairro do Ipiranga – casara-se com o tio Ernst Klug que era nascido em Dresden, Alemanha e, por sua vez, meu tio Paulo casara-se com a tia Érika, que também era filha de alemães – e a predominância da cultura familiar, como regra, é sempre a da família materna – os meus primos(as), filhos desses tios paternos, tiveram maior influência da cultura germânica e conhecem bem o idioma alemão.

Por isso, eles comeram mais chucrutes, batatas e salsichas do que nós, e muitas cucas (torta doce), ainda que também gostem de comer arroz, feijão e bife, e de sobremesa doce de banana ou “Romeu e Julieta”. E também gostam de ouvir música brasileira, afinal, são todos brasileiros.

http://www.youtube.com/watch?v=Ux5FLoGroUs

Agradeço a colaboração de minha prima Sieglinda, e também do meu irmão Raul que obteve informações com referencia ao vô Max, quando visitou a cidade de Apolda e depois  junto ao nosso Museu dos Imigrantes aqui em São Paulo.

É sempre um prazer lembrarmos de nossa infância. Para mim, ter feito este passeio que fiz na nossa história a partir dos fins do século 19, com parentes vindos do outro lado do oceano Atlântico, foi muito, mas muito gratificante! Relembrei-me de fatos bem tristes, mas também de muitos gestos de solidariedade magníficos. Foi de fato um turbilhão de emoções!

Espero que os jovens descendentes de minha família – tanto do lado dos Amarais como dos Buschels – tomem conhecimento de toda esta estória que acabei de contar em dois capítulos, e aprendam algo com ela. Decidi empreender este projeto por minha conta e risco de errar, e isto me proporcionou risos e lágrimas, além de muito trabalho. Por isso espero que não tenha sido em vão. Para mim valeu muitíssimo.

Oxalá todas as pessoas tivessem a oportunidade que eu tive, de reconstruir parte de seu passado. Trata-se de um direito humano. Sei que muitos sonham com isso, mas para alguns é impossível realizá-lo, por mil e uma dificuldades – tanto políticas como familiares – que encontram pela frente. A intolerância social, os golpes de Estado e as guerras, deixam atrás de si milhões de vítimas que na maioria das vezes têm suas vidas familiares destruídas.  Infelizmente, as lições dadas por Mahatma Gandhi e  Martin Luther King Jr. pela paz entre os povos, ainda não foram aprendidas por todos.

 

http://www.youtube.com/watch?v=WXLyHLXLF8I

Auf weidersehen!

Inês do Amaral Buschel, escrito em 30 de junho de 2010.

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