JÉCA TATÚ JÁ FEZ 95 ANOS!

Você sabia que um dos personagens literários mais importantes da cultura brasileira é o “Jeca Tatu”? E que o criador dele é o escritor paulista Monteiro Lobato? Pois então, o Geca (assim mesmo, escrito inicialmente com “G”) nasceu no mês de novembro de 1914 – ano da 1ª Guerra Mundial – junto com outros dois companheiros: o Chico Marimbondo e o Manoel Peroba, quando foram citados/criados pela primeira vez num artigo-crônica-conto escrito por Monteiro Lobato e publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo”, com o título de “Velha Praga”.monteirolobato

Após uns dias dessa publicação, já no mês de dezembro, Lobato escreve e publica no mesmo jornal mais um novo artigo denominado “Urupês”, reiterando nele seu tom crítico ao caboclo Jeca que vive sob a lei do menor esforço. Anos mais tarde, em 1918, Lobato escreveria um livro de contos ao qual dá o mesmo nome de Urupês.

http://queimadas.cptec.inpe.br/~rqueimadas/material3os/Monteiro%20Lobato%20VELHA%20PRAGA.doc.

urupes-74No texto “Velha Praga”, Monteiro Lobato reclamava das queimadas – já era um ecologista! – que os trabalhadores do campo promoviam nos sítios em que viviam e trabalhavam. E também reclamava da preguiça e da indolência que os caracterizava. Criticava ainda a postura de servidão voluntária do caboclo, que costumava “vender” seu voto aos candidatos favoráveis ao governo da época. Foi muito duro com os pobres caboclos! Pudera, o escritor Lobato era neto de fazendeiro, o Visconde de Tremembé, que era proprietário da fazenda Buquira e que foi herdada pelo neto em 1911.

Depois de formar-se em Direito pela Faculdade do Largo de S.Francisco em 1904, ele volta a viver na fazenda. Em 1906 foi nomeado Promotor Público na comarca de Areias, que ficava ali pertinho de Taubaté (SP), cidade onde nascera no dia 18 de abril de 1882, com o nome de José Renato e não José Bento como ficou conhecido. Ele era órfão e acabou adotando o nome de seu pai quando ainda era adolescente. Em casa era tratado por Juca. Pertencia à elite paulista da época e estava, portanto, condicionado intelectual e socialmente a pensar daquele jeito.

Mas um dia, ele “virou a casaca” como ele mesmo disse, e reescreveu a história do Jeca Tatu que já era personagem famoso, pois até o jurista Rui Barbosa o havia mencionado em um de seus inflamados discursos, ao contrário de seus companheiros Chico e Manoel que desapareceram na poeira da estrada. Em 1924 Lobato publicou o conto “Jeca Tatu: a ressurreição.” É que ele havia tomado conhecimento da grave questão da falta de saneamento básico no Brasil todo, bem como das conseqüências que a falta de higiene gera para a saúde humana.Almanaque-do-Jeca-Tatuzinh

Percebeu sua ignorância a respeito da falta de políticas públicas que oferecessem aos caboclos reais condições dignas de sobrevivência, tais como saneamento, serviço público de saúde e instrução escolar de boa qualidade. Sofrendo de amarelão ou de maleita, o caboclo não poderia mesmo ter muita disposição para o trabalho e para a vida social.

http://www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/bibliografialobatiana/contos1.html

JecaTatuzinho1ed-capaKWieseComo todos sabemos, esse segundo escrito sobre o Jeca foi adotado pelo Laboratório Fontoura para fazer publicidade do Biotônico Fontoura, produto que todos nós, os adultos de hoje, bebemos quando éramos crianças para ficarmos bem fortinhos… Esse laboratório, no ano de 1924, deu o nome de “Jeca Tatuzinho” para esse novo conto, que foi republicado em formato de almanaque e distribuído por todo território nacional.

A partir dessa peça publicitária exitosa, o Jeca Tatu definitivamente passou a fazer parte do imaginário nacional. Fato que veio a ser reiterado com as filmagens de Amácio Mazzaropi, outro paulista nascido também na cidade de Taubaté, que produziu, dirigiu e protagonizou filmes onde a figura caricata do caboclo chamado Jeca Tatu fazia rir platéias lotadas nos cinemas pelo Brasil afora.Jeca Tatu

http://www.reginalubr.oibr.com/mazzaropi/tristezadojeca/index.htm

Monteiro Lobato ao final de sua vida, em meados dos anos 40, tomou conhecimento das graves questões agrárias e, mais uma vez, reescreveu a história de seu personagem Jeca Tatu. Desta vez, mudou-lhe o nome para Zé Brasil e no desenrolar dessa nova história, ele ataca a elite composta por latifundiários e cria o personagem do fazendeiro grosseiro e espertalhão chamado Coronel Tatuíra.

Lobato_Zé_BrasilNessa época ele conhecera Luiz Carlos Prestes e inteirara-se da luta dos integrantes do Partido Comunista Brasileiro que fora proibido pelo governo federal e caíra na ilegalidade. Esse conto “Zé Brasil” foi lançado no ano de 1947, contendo 26 páginas. É quase um panfleto. Foi recolhido pela polícia tão logo souberam de sua publicação. Lobato já estava doente e acabaria morrendo logo após ter escrito esse texto, no ano de 1948.

http://www.iel.unicamp.br/cedae/Exposicoes/Expo_Lobato_BL/zebrasil.html

Resumindo, para compreender em toda sua inteireza o personagem “Jeca Tatu” criado do por Monteiro Lobato, deveremos ler (1º) a crônica “Velha Praga”; (2º) o conto “Urupês”; (3º) o conto “Jeca Tatu: a ressurreição” e, finalmente, (4º) o conto “Zé Brasil”.

A partir dessa leitura, pretendo escrever um outro artigo fazendo algumas considerações a respeito do eterno abandono do caboclo pelas elites brasileiras e também por autoridades governamentais – com raras exceções, mas esta é a regra – pois até os dias de hoje a saúde do trabalhador do campo continua precária por falta de recursos, boa alimentação e pouca assistência médica. E a falta de saneamento básico no imenso território nacional continua a ser um grande problema de saúde pública a ser resolvido por nós.

Para finalizar, ouça a música “Tristeza do Jeca”, de autoria de Angelino de Oliveira, na própria voz de Mazzaropi. Bastará clicar no link abaixo:

 

Inês do Amaral Büschel, escrito em 17 de maio de 2010.

Anúncios