Ética e Política

Hoje, encontrei entre meus guardados, um pequeno texto que escrevi há cinco anos e que já foi publicado. Fiquei  impressionada com sua atualidade, apesar do tempo transcorrido desde então. Pensei que valeria a pena republicá-lo agora neste blog, o que vocês acham?

“ÉTICA E POLÍTICA

Partindo-se do princípio de que a ética compreende um juízo de apreciação de atos qualificados como bons e maus e, por outro lado, que política é a arte de viver na cidade, no coletivo, não há como separarmos ética de política. Para vivermos em sociedade e em paz, devemos obedecer a regras de comportamento coletivo, que estejam baseadas no que é considerado bem comum, ou seja, de interesse público. Numa república democrática, essas regras devem ser justas e escolhidas em assembléia, pelo voto dos cidadãos.

Quando o comportamento político de um representante eleito pelo povo é desviado para seu próprio interesse pessoal ou de seu pequeno grupo, há reação popular. É natural e sadio que isso aconteça. Assim deve ser numa democracia real.

Nós, o povo, ficamos sabendo desses desvios éticos por intermédio dos meios de comunicação: rádio, TV , imprensa escrita e agora, felizmente, pela internet. Daí a suprema importância da “imprensa livre”, ou seja, da liberdade dos meios em nos informar o que se passa no Parlamento,  no Judiciário e na Administração Pública em geral. No mundo moderno, entretanto, nas grandes cidades, com milhões de habitantes e com vexatória desigualdade social, a vida em sociedade é muito complicada.

Todavia, temos de encontrar formas de participação política e não nos deixar pautar apenas pela imprensa livre, pois sabemos que ela poderá deixar de nos informar algo de nosso interesse. Além disso, há um fenômeno midiático muito poderoso denominado “espiral do silêncio”, que significa o seguinte: a mídia bate duro em um ponto até a exaustão, impondo o silêncio aos que não concordam com a opinião que ela irradia sem parar. Em geral as pessoas que discordam desse ponto de vista sentem-se intimidadas de manifestar sua discordância, de “estar por fora” e acabam se calando.

Quanto à corrupção, seja na política partidária, nas empresas privadas ou no serviço público, nós não a podemos tolerar em hipótese alguma. A honestidade é um valor tanto na nossa vida pessoal como na vida pública. Ao cidadão que recebe mandato popular ou exerça função pública, não se dá licença para desviar-se do interesse público e muito menos de fazer uso pessoal do dinheiro destinado a assegurar ao povo saúde, educação, segurança etc.

Entretanto, precisamos entender que política partidária é inerente às democracias representativas. Notamos, de fato, que todos os partidos políticos escrevem seus programas de ação de maneira mais ou menos igual e com propostas semelhantes, que sejam aceitáveis pela maioria da população. Daí, fica muito difícil para os cidadãos poderem distinguir as diferenças. Acabam votando em pessoas, e não em partidos, o que é um erro.

Por outro lado, sabemos que, para ser candidato a algum cargo eletivo, é preciso ter muito dinheiro, pois as campanhas políticas são caríssimas. Então, a democracia fica de pé quebrado para os pobres, pois estes não têm como candidatar-se. Por isso, seus interesses são pouco contemplados no Parlamento. Se queremos uma democracia real, representativa e participativa, teremos que mudar muita coisa no Brasil. A começar pela educação política dos jovens e adultos. Precisamos todos saber como funcionam os partidos e, sem sombra de dúvida, temos de saber de onde sai o dinheiro das campanhas de candidatos.

Por isso, seria salutar termos financiamento público de campanhas, pois todos os partidos receberiam quantias pré-determinadas e os sem recursos teriam oportunidade de concorrer aos cargos eletivos. Além disso, poderíamos fiscalizar melhor a fidelidade partidária e exigir transparência absoluta na aplicação do dinheiro, reduzindo-se ao máximo a possibilidade de improbidade.

Não se iluda, porém, com a possibilidade da não existência de políticos. Eles são frutos de lutas intensas da humanidade pela criação de repúblicas democráticas e representativas. Sem eles, não haverá paz, só guerras e ditaduras onde não existe o cidadão.

Por último, gostaria de lembrar que a corrupção não é delito peculiar do povo brasileiro, mas sim de todos os povos e de todos os tempos. Quem lê jornais sabe que, há pouco mais que uma década, um importante político alemão, aparentemente irrepreensível em sua conduta, foi flagrado envolvido em corrupção no seu partido. Com relação aos Parlamentos italiano, francês, japonês, argentino, norte-americano etc,  sabemos pelos noticiários da TV que não são nada diferentes.

Portanto, o combate à corrupção é perene.”

Inês do Amaral Büschel, em 19 de abril de 2010.

( texto originalmente publicado no Correio da Cidadania – coluna “Dicionário da Cidadania” , edição 455 – de  02  a 09 de julho de 2005)

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