O filme argentino “Os segredos dos seus olhos”

Nesta última terça-feira, dia 6, fui ao cinema para assistir ao filme que ganhou o prêmio Oscar de melhor filme estrangeiro, deste ano de 2010. A maioria dos cinéfilos daqui achava que seria vitorioso o filme alemão “Fita Branca”, e ficaram surpresos com o resultado.

Assisti aos dois filmes citados e gostei muitíssimo de ambos. Mas, com perdão de meu avô Max, um cidadão alemão, fiquei contente ao ver um filme sul-americano premiado. Meu espírito é latino americano e adoro ouvir o som da língua espanhola. Faz-me lembrar do maravilhoso Cantinflas, um ídolo do cinema de minha infância. Eu adorava quando ele dizia, solenemente, “sietecientos e sietenta e siete” e me fazia rir muito.

O diretor argentino é o conhecido Juan José Campanella, que também assinou o roteiro junto com o escritor e professor de história, o argentino Eduardo Sacheri, que vem a ser o autor do livro que inspirou o filme: “La pregunta de sus ojos”, lançado no ano de 2005. Os atores principais são ótimos: Ricardo Darín (Benjamin Espósito), Solledad Villamil (Irene Menéndez Hastings), Guillermo Francella (Sandoval), Pablo Rago (Ricardo Morales) e Javier Godino.

A história é centrada no trabalho cotidiano de funcionários burocratas de um fictício Tribunal Criminal de Buenos Aires. Em destaque há um chefe de cartório judicial chamado Benjamin, que detesta ser tratado de doutor pelos estagiários e seu auxiliar direto chamado Sandoval, que “costura” os autos judiciais. Há um Juiz titular bastante desinteressado e uma jovem Juíza Auxiliar (Irene) muito estudiosa. No pano de fundo esconde-se uma platônica história de amor entre Benjamin e Irene, mas, de fato, o filme está focado num caso criminal gravíssimo, de estupro e homicídio de uma jovem mulher casada com um pacato bancário (Morales).

O filme mescla passado e presente. Tudo se passa porque no presente, ano de 1999, o funcionário Benjamin que já está aposentado, decide escrever um romance tendo como tema o tal crime ocorrido em 1974 e que nunca lhe saiu da cabeça, pois preocupou-se muito à época com a realização da Justiça. Para isso ele vai ao Tribunal visitar sua velha amiga, a Juíza Irene – que já está casada e com filhos – pedindo-lhe opiniões. Nessas conversas e na tentativa de escrever o romance é que se desenrola toda a trama com as lembranças do passado.

Belíssimo filme que seqüestra nossa atenção por duas horas sem aborrecer. A questão central me pareceu ser o desprezo com que tanto as autoridades policiais como os funcionários da Justiça, trataram um caso grave de violações de direitos humanos. Para encerrar um processo e tirar os autos judiciais da frente, inventaram culpados, praticaram torturas e colocaram na cadeia pobres e infelizes inocentes, sem que isso lhes causasse o menor problema. Se não fora o desvelo do funcionário Benjamin para com o esclarecimento do caso, esses acusados teriam apodrecido na cadeia. Por outro lado, penso que a questão da pena e/ou castigo justo, em contraposição com a simples vingança fazem o contrapeso na história.

O diretor Campanella foi muito hábil. Contou bem uma história que retratou um período que antecedeu a explosão da cruel e sangrenta ditadura argentina. O descaso dos funcionários graduados para com as questões da Justiça, pode muito bem ter sido uma espécie do “ovo da serpente” emblemático, que viria contribuir muitíssimo para o surgimento no país do regime militar violento que se seguiu ao final dos anos 70. Misturou tudo isso com suspense, uma velada história de amor, futebol e muito humor. O filme todo você ouve a expressão da gíria portenha “boludo” e “pelotudo” que significam, a grosso modo, tonto, bobo, idiota. Funcionou e fez rir. As cenas rodadas no estádio de futebol lotado (Huracán) com uma partida do amado time Racing, são ótimas.

Fiquei com vontade de ler o livro que inspirou o filme e que acaba de ser relançado no mercado argentino. Mas a pilha de livros que desejo ler está tão grande aqui em casa, que não posso fazer isso comigo. Primeiro as primeiras coisas e um livro de cada vez são os mantras que vivo a declamar. Bem, mas o que eu gostaria também de acrescentar a estes comentários é o meu total desagrado para com as considerações, a meu ver muito injustas, que tenho ouvido de muitos brasileiros. A mais comum é a de que nosso cinema nacional está a dever ao cinema argentino e que não somos capazes de fazer filmes da mesma envergadura e qualidade como este “Os Segredos dos seus Olhos”. Ora, ora! Com todo o respeito aos argentinos, não é bem assim.

Penso que essas pessoas tão críticas continuam vivendo num passado, numa época que faltava qualidade técnica em nossa produção cinematográfica. Mas tudo mudou para melhor. Hoje já temos filmes brasileiros de excelência, tal como “O Quatrilho”, “Central do Brasil”, “Meu nome não é Johnny”, “Canudos”, “Cabra Cega”, “Mutum”, “Concerto Campestre”, “O ensaio contra a Cegueira”, “Villa-Lobos – Uma vida de Paixão”, “Lavoura Arcaica” e tantos outros mais, de muita beleza. Acho que esse pessoal injusto faz parte daquela tribo “do não vi e não gostei”. Ou têm o complexo de vira-latas a que se referia o dramaturgo Nelson Rodrigues. Também podem falar isso apenas para irritar pessoas como eu.

Todavia, temos de reconhecer que o diretor Campanella é ímpar no que faz. Quem assistiu ao outro filme dele, “O filho da noiva”, que também fez muito sucesso, já sabe disso pois naquele, o tema de fundo era uma doença degenerativa (Alzheimer) e ele, junto com o mesmo ator Darín, amenizou tudo com bastante humor e romance. Temos de nos lembrar ainda, de que Campanella está muito sintonizado com a moderníssima produção do cinema nos EUA, para onde viaja, periodicamente, pois vez ou outra também dirige alguns episódios das séries “House” e “Law and Order”. Então, palmas para ele que ele realmente merece!

Se quiser e puder ir ao cinema, não perca este filme. La garantia soy yo!

Inês do Amaral Büschel, em 09 de abril de 2010.

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