EVANDRO OTSUKA, ou a TRISTE PARTIDA DE UM JOVEM.

Nesta segunda-feira, dia 1º de março, no fim da tarde, minha família recebeu a trágica notícia de que um de seus membros, o Evandro, marido da Raquel, minha sobrinha, sofrera um grave acidente de trânsito na via Dutra, próximo da cidade de Arujá e que falecera no local. Eram mais ou menos 13 horas, quando os fatos aconteceram. Alguns de nós até viram a notícia do acidente pela internet, mas nem sequer puderam imaginar que ali estivesse o Evandro. Ele estava trabalhando e dirigia sózinho o veículo da empresa. Era técnico de informática do Grupo Odebrecht. Tinha apenas 31 anos.

 A dor da morte dilacera nossos corações. Chorei muito. Mais uma vez. Mas desta vez também chorei porque vi muitos jovens reunidos, chorando. Neste mundo moderno parece que só as crianças e os velhos choram. Ledo engano. O Evandro era um homem jovem e havia muitos, muitos jovens chorando ao lado do seu corpo. Eram seus irmãos – ele era o mais velho deles –  seus primos, amigos e colegas de trabalho. Aquela cena partia o meu coração. Mal conseguia fitar os olhos da Raquel que também chorava. Oh, céus! Oh, dor!

A expectativa de todos era saber como reagiriam seus dois filhos pequenos, a Júlia, de doze anos e o Felipe, de 7 anos, diante da notícia da morte do pai. Essa era mais uma dor para os adultos que ali estavam. Ver crianças sofrerem pela morte de seus pais dá nó na garganta. E, de repente, lá surgiram eles. Chorando, claro. Apesar de tudo, sou favorável a presença de crianças no velório de seus parentes próximos. Essa realidade não pode ser escondida de ninguém. É como querer tapar a luz do Sol com uma peneira.  Todos temos o direito de sentir tristeza nalgum momento da vida, as crianças inclusive.

Lembrei-me ali, de uma cena que assisti recentemente, no filme alemão “A fita branca”. Numa das cenas há um diálogo sobre a morte entre dois irmãos, um menino e uma menina: ele com cinco ou seis anos e ela com catorze. O pai deles sofrera um acidente e estava hospitalizado. O menino, desconfiado, queria saber se todos morriam e a irmã dizia que sim. Ele então perguntou a ela se ele próprio também morreria um dia, ao que ela respondeu que sim, mas que isso ainda demoraria muito.

Para o Evandro esse dia chegou logo, infelizmente. Mas ele não viveu em vão. Viveu intensamente, pois desde muito cedo ajudou sua mãe a criar seus  irmãos menores, uma vez que seu pai saiu de casa e nunca mais voltou. Ele era um jovem moderno. Casou-se muito cedo, teve os dois filhos e separou-se. Casou-se novamente, desta vez com a Raquel. Viveram juntos durante uns cinco anos e não tiveram filhos.

Mas a Júlia e o Felipe estavam sempre com eles e junto de nós também. Ele cuidava muito bem de seus filhos que, certamente, levarão pela vida a certeza de terem sido amados por seu pai. Todos sentiremos saudades dos bons momentos vividos. Evandro tinha a virtude de ser um homem gentil. Eu o admirava também por isso.

Evandro trabalhava demais. Mantinha sempre o celular ligado para eventual chamada da empresa. Vivia conectado na Internet. Levava broncas da Raquel por causa disso. Mas também passearam e se divertiram bastante. No ano passado, foram visitar Salvador, na Bahia, e ficaram hospedados na casa da prima Juliana e seu marido Rogério.

Neste momento ele se preparava para retomar os estudos e acabara de fazer matrícula num curso de nível superior em TI (Tecnologia da Informação). Não deu tempo, infelizmente.  

Adeus, Evandro. Até um dia. Quem saberá?

Aqueles que conviveram com ele, em especial a Raquel, minha irmã Fátima e o cunhado Paulo, terão para sempre a certeza de que valeu a pena conhecê-lo e compartilhar uma parte da vida com o ele.  É isso o que sinto.

 Como homenagem póstuma e em honra a sua memória, ofereço ao Evandro e a todos que o amaram, o poema “ A hora íntima”, escrito pelo nosso poeta Vinicius de Moraes:

 Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal…
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Inês do Amaral Buschel, em 03 de março de 2010.

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