AMO A MÚSICA.

Ontem, segunda-feira dia 22 de fevereiro, tive o prazer de assistir ao programa “Roda Viva” da TV Cultura, cujo entrevistado era o famoso pianista e maestro João Carlos Martins, um grande intérprete da obra de Johann Sebastian Bach. Esse músico paulista já há alguns anos vem sofrendo de doenças que prejudicaram enormemente os movimentos de suas mãos. Felizmente, ele é uma pessoa resiliente e enfrentou as adversidades tornando-se, então, maestro. http://www.youtube.com/watch?v=9flhH-lfDmo

Eu amo a música e não consigo viver sem ela. Desde a infância ouvia minha mãe cantar enquanto passava, lavava, costurava e cozinhava. Eram canções de sucesso de Orlando Silva, Chico Alves, Carmen Miranda, Ary Barroso, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira etc, bem como também entoava cantos da igreja católica: “os anjos, todos os anjos…” ou “com minha mãe estarei, na santa glória um dia, junto da Virgem Maria, no céu triunfarei! No céu, no céu…”. Alguém aí se lembra disso?

Por outro lado, vivíamos perto de um tio materno que se chamava João, e que nós todos amávamos pois estava sempre de bom humor e cantando. Ele era alfaiate e enquanto riscava, cortava e costurava, cantava lindas músicas de nosso cancioneiro. Lembro-me de ouví-lo cantando a canção “Velho realejo”: “Naquele bairro afastado, onde criança vivias, a remoer melodias…” . Ele também cantarolava “Sou alfaiate do primeiro ano, pego na tesoura e vou cortando o pano, vou cortando o pano…” uma velha canção de Luiz Gonzaga.

Mais adiante, na casa de minha tia materna, Joana, quando tinha lá meus 7 ou 8 anos, ficava encantada quando muitas vezes ouvia uma prima mais velha, a Daisy, tocar piano e cantar uma bela canção italiana do final do século 19, que se chamava “Ciribiribin”, de Pestalozza, e que o Frank Sinatra também gravou: http://letras.terra.com.br/frank-sinatra/689209/

Adoro ouvir música, seja clássica ou popular. Coleciono inúmeros discos e ouço rádio sempre. Ouço muito Paulinho da Viola e Cida Moreira. No momento, entretanto, estou ouvindo em meu carro um CD duplo de músicas de Villa-Lobos gravadas ao piano por Miguel Proença. É muito bom! Sim, para a maioria das pessoas ouvir música é um alento para o espírito – como o é para mim -, mas para algumas outras pessoas ouvir música pode causar sérios transtornos. O médico neurologista Oliver Sacks, nascido em Londres mas radicado nos EUA, escreve sobre os efeitos da música no cérebro humano em seu livro “Alucinações musicais”, lançado pela Cia. das Letras, no ano de 2007 e que será minha próxima leitura.

Quando criança eu sonhava em aprender a tocar piano, mas como a grana era muita curta lá em casa, guardei esse sonho num saco que perdi durante o trajeto de minha vida. No auge de minha juventude tentei algumas vezes aprender a tocar violão,  cheguei a comprar um bonito modelo feminino da Di Giorgio, mas não consegui aprender, não desenvolvi a criatividade. Acho que eu não tinha talento para isso. Meu negócio mesmo era cantar debaixo do chuveiro, na rua, na escola, nos bares e festas, onde desse e houvesse ouvintes. Faço isso até hoje na companhia de amigos, sempre com o maior prazer.

Houve uma alegria escolar no período do ensino fundamental – antigo ginásio – quando no Colégio Estadual Prof. Alberto Levy havia aulas de Canto Orfeônico, que eram ministradas pela Prof. Dona Nali. Foram momentos de grande enlevo para mim. Muito mais tarde eu fiquei sabendo que essas aulas eram fruto de uma luta incansável do maestro Heitor Villa-Lobos, que desejava fosse a música uma disciplina comum no currículo escolar, tal qual português, matemática, história e geografia. Grandioso esse nosso maestro!

Pena que durou pouco esse tempo de aulas de música no ensino público, pois logo vieram autoridades governamentais obtusas, ignorantes e truculentas que acabaram com a alegria das crianças. Tiraram a música do ambiente escolar e passamos a ser um povo analfabeto musical. O interessante é que, paradoxalmente, somos um povo movido a música. Mas o fazemos por sentimento, pela emoção e não também pela ciência. Seria bom se aprendessemos minimamente a ler partituras, a compor e escrever músicas. Esse é mais um dos nossos buracos. Felizmente, o atual governo federal sancionou a lei nº 11.769, de 18 de agosto de 2008, que restabelece a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas públicas, a partir de 2011. http://www.capes.gov.br/servicos/sala-de-imprensa/36-noticias/2271-educacao-basica

Uma certa vez, conversando com meu irmão mais velho, o Júlio, quando já estávamos na Universidade, ele falou algo que nunca mais me esqueci. Confabulávamos sobre a condição humana e também sobre a pobreza, a falta de dinheiro e o futuro. Daí ele disse-me – para exemplificar o buraco que havia na nossa formação cultural comparando-nos com nossos jovens colegas de família abonadas -: não vai dar para alcançá-los plenamente, pois eles já nasceram ouvindo Beethoven em suas casas. Achei muito bem colocado. É essa a mais pura realidade. São poucos os que conseguem ultrapassar essa barreira social.

Para finalizar, ficam aqui duas dicas para saber mais sobre o grande maestro Villa-Lobos. Para leitura há um livro escrito por Vasco Mariz e editado pela Francisco Alves, “Villa-Lobos O Homem e a Obra”; e também é possível assistir ao filme nacional dirigido por Zelito Viana, “Villa-Lobos Uma Vida de Paixão”, lançado em 2000 e em DVD desde 2003. Trata-se de um filme muito bom e garanto que valerá a pena assisti-lo. Já vi duas vezes. http://www.hotsitespetrobras.com.br/cultura/projetos/21/271

Se puder, tente ouvir as Bachianas nº 5, seja com Maria Lúcia Godoy ou Elizete Cardoso. É uma sensação inesquecível. Fechando-se os olhos, sentimos algo como flutuar, navegar, voar, sei lá mais o quê! É bom demais! Esta apresentação da cantora Amel Brahim também está ótima: http://www.youtube.com/watch?v=NxzP1XPCGJE

Inês do Amaral Büschel, em 23 de fevereiro de 2010.

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